São cada vez mais as vÍtimas do cyberbullying em Portugal. Um drama dos tempos modernos
O inimigo não tinha rosto nem nome. As ameaças chegavam sob a forma de e-mails que a incitavam a seguir links na internet. Maria (nome fictício) clicava e em múltiplas páginas descobria fotografias suas junto com outras fotos e vídeos de cariz sexual que davam a entender pertencer-lhe também. Os mais de 80 perfis falsos foram, na sua maioria, criados na rede social Hi5 e tinham disponíveis os números de telefone da psicóloga, incluindo o de casa dos seus pais, para onde começaram a ligar centenas de homens à procura dos serviços sexuais que as ditas páginas publicitavam.
"O meu rosto e o meu nome foram associados a conteúdos tão ordinários que cheguei a ter vergonha do meu nome e de mim, sabe? Consegui manter a consciência ao separar as coisas: não, aquela não sou eu". Não era, de facto. Mas houve momentos tão duros que chegou a pensar "terminar com a vida e, assim, com o sofrimento. Pensei em suicídio, pensei. Era tudo tão horrível que cheguei a achar que não ia aguentar. Precisei de apoio psicológico, o que senti como uma espécie de humilhação sendo eu psicóloga, mas resisti".
O autor do pesadelo que durante oito meses a consumiu e perseguiu era, afinal, o antigo director de um centro espírita do Porto que Maria substituiu no cargo, um investigador de astrofísica e professor universitário. "Foi uma desilusão. Era uma pessoa em quem confiava e que respeitava. Arrasou a minha vida. Sou hoje diferente do que era: fria, desconfiada e muito ansiosa. E não posso esconder que tenho medo de que ele um dia me apareça à porta de casa para me fazer mal. Ainda hoje magoa".
CYBERBULLYING
As ameaças, difamações e violência psicológica na internet têm um nome: cyberbullying - e afectam em igual escala adultos e adolescentes. Para os mais velhos usam-se, ainda assim, outros termos: ciberassédio e ciberperseguição. Pode parecer um vocábulo estranho mas já se entranhou no ciberespaço - pelo caminho fez muitas vítimas que demoram a levantar-se. Porque quem passa por isso, como Maria passou, raramente sai ileso emocionalmente e demora tempo a recuperar a auto-estima e a confiança perdidas.
Oito meses depois de ver a sua vida até aí normal - emprego normal, vida amorosa e familiar normal, círculo de amigos normal - dar uma cambalhota, o inimigo deixou de ser anónimo, graças à descoberta do IP (número de identificação) do computador de onde provinham as mensagens. E que culminou com a detenção do agressor, agora de novo em liberdade, mas a ser julgado no Tribunal de Matosinhos.
"Apesar de tudo foi mais fácil gerir a situação depois de descobrir quem era. Antes não fazia outra coisa: ao deitar ia ao computador ver se tinha mensagens para mandar apagar nos servidores, ao acordar via se tinha mensagens para mandar apagar, durante a noite mal dormia a pensar se tinham chegado mais para mandar apagar. Vivia a pensar nisso, era o centro do meu medo, tornou-se uma obsessão que não me deixava pensar em mais nada". Vivia com um único objectivo: destruir toda e qualquer página que aparecesse com o seu nome e a sua cara na internet.
ADOLESCÊNCIA DIFÍCIL
Os adolescentes também são vítimas e culpados em casos de cyberbullying. Joana, de 13 anos, gostava de Rui. Rui, de 14, gostava de Patrícia, de 13. Patrícia não era amiga de Joana e também não gostava assim tanto de Rui mas foi apanhada numa teia que Joana teceu para a culpar pelo interesse do rapaz por quem dizia estar apaixonada. A ‘rival' criou um perfil falso fazendo-se passar por Patrícia, com fotos roubadas ao perfil verdadeiro da adolescente, "a dizer que ela fazia isto e aquilo em termos sexuais".
Patrícia chorou. Chorou muito e durante vários dias. Repetia insistentemente "mas eu não sou assim" e a ligação à escola passou por momentos conturbados. "A relação com os outros e consigo própria também sofreu danos. A auto-estima ficou completamente arrasada", conta um especialista que lidou de perto com a adolescente.
Mas Patrícia foi mais forte e corajosa do que pensavam ser capaz dada a tenra idade e forçou a mãe a ir com ela à polícia. A mãe hesitou, afinal até conhecia a mãe de Joana e aquilo parecia ser apenas uma brincadeira de crianças. Patrícia continuava a repetir: "Eu não sou assim, aquela não sou eu", referindo-se ao perfil falso na internet onde as suas fotos emolduravam tiradas sexuais. E a mãe finalmente cedeu. O processo ainda chegou a tribunal mas foi entretanto arquivado. Patrícia e Joana nunca mais falaram.
EX-RELACIONAMENTO
O namorado de Rita (nome fictício) sabia as passwords todas que ela usava nas redes sociais e contas de e-mail. Sabia porque era próximo, porque além de namorado era amigo e confidente. Porque partilhavam tudo o que tinham e viviam e sentiam. Mas quando a relação acabou, Rafael usou esse trunfo para fazer a vida negra à mulher com quem um dia quase casou de papel passado e deitou por terra a paz de espírito da funcionária de uma grande empresa com milhares de funcionários. Fala-se em ciúmes doentios, incontroláveis para descrever um caso que devia ter sido de polícia caso Rita tivesse denunciado a situação.
"Temos vergonha, claro que temos, mas a culpa não é nossa e é nisso que temos de pensar. Temos que partilhar com as pessoas mais próximas e ir à polícia. Foi a partir do momento que o fiz que senti que estava finalmente a lutar contra as ameaças que me faziam", partilha Maria, que em breve saberá o juízo do tribunal relativamente à indemnização que pede, de 51 mil euros.
Rita ainda não foi capaz de avançar para a Justiça. Mas a sombra da ameaça paira sobre o seu dia-a--dia. O que o ex-namorado fez foi usurpar a sua identidade na rede e fazer-se passar por ela. Começou a enviar mensagens sucessivas a amigos, família e colegas de trabalho. Missivas com ofensas "graves" que implicavam os visados e inclusive insultavam os pais da ex-namorada. Publicitou também um ‘perfil' falso de Rita em redes que anunciavam serviços sexuais. Seguiram-se as ameaças.
Rita ganhou um medo, um medo terrível, e em menos de nada tornou-se tema de conversa na multinacional. Seis meses depois do início do pesadelo ainda não tinha denunciado a usurpação de identidade. Por vergonha, principalmente. Por isso, hoje, quando sai de casa, Rita ainda olha para um lado e para o outro. Ainda sente o coração a bater quando um estranho se aproxima ou quando a olham fixamente nos círculos onde se move.
"São casos avassaladores. E para as vítimas o tempo que os servidores demoram a apagar as páginas, os perfis e as fotos é sentido como uma eternidade", revela o fundador do site Miúdos Seguros na Net, Tito de Morais, que já recebeu vários pedidos de ajuda de adultos em desespero devido à difamação em redes sociais.
MEDO DE TUDO E TODOS
Maria conhece bem a sensação de pavor de ser reconhecida pelas páginas de pornografia. Sair de casa chegou a ser um martírio. "E ainda hoje se me telefona uma pessoa a marcar uma consulta de psicologia, e se essa pessoa é um homem, normalmente desconfio e encaminho para outros colegas de profissão, porque não sei onde as pessoas arranjaram o contacto". Ainda hoje, em sítios com muita gente não se sente confortável perante um olhar mais demorado. "Acho sempre que pode ser alguém que tenha visto um dos perfis que tinham aqueles conteúdos tão ordinários com o meu nome e a minha cara".
Contou aos pais o que se passava - até porque eles recebiam inúmeras chamadas em casa de homens à procura da filha depois de verem os perfis pornográficos - mas nunca os deixou ver os conteúdos onde a expunham. "Era tudo demasiado sujo para os sujeitar a isso, quis poupá-los, não quis que percebessem quão mau era. Comecei a tentar esconder as emoções para não os preocupar mas por dentro sentia uma mágoa e uma ansiedade sem nome".
Com o namorado, que tomou como sua a luta de Maria e a acompanhou durante o processo - sempre a dar-lhe força - as coisas já não são hoje o que eram. "É verdade que afectou a minha relação, porque durante oito meses vivi para aquilo e com aquele objectivo, mudou muito a minha forma de lidar com os outros". Mas hoje já não tem vergonha. Só quer justiça.
PERFIL FALSO NO Hi5 NAMORO E BLOGUE FALSO
Ana C. é conhecida na blogosfera como ‘Kitty Fane' graças ao sucesso do blogue ‘O Amor é um Lugar Estranho' que mantém há anos na internet. Foi precisamente de um blogue - não deste, mas de um de viagens onde tinha fotos suas - que roubaram fotografias de Ana para colocar no Hi5 namoro (uma ‘sucursal' da rede social com o mesmo nome mas de engate). "Junto com a foto dizia: procuro homens para relações sem compromisso. Falava de mim como se andasse desesperada à procura de homens e remetia-os para o endereço do meu blogue, recebi centenas de mails".
A par desse perfil falso foi criado um blogue falso, "propositadamente para insultar outros bloguistas e fazer com que se virassem contra mim". Descoberto e divulgado o IP do computador que tinha criado as páginas falsas, o perfil desapareceu pouco depois. Neste momento, Ana C. tem outra situação na Justiça da qual ainda não pode falar, enquanto decorrer a investigação. "Este caso é bem mais grave. Partiu de duas leitoras do blogue e envolveu mesmo o meu namorado e a nossa filha adoptiva".
NOTAS
APOIO
Portugal, Itália e Lituânia são os únicos países da UE que não têm linha de apoio de segurança informática.
CASOS
Em 2010 a polícia recebeu 1 queixa por dia de cyberbullying a nível nacional e investigava 145 casos em Lisboa.
CRIMES
O crime de devassa por meio informático é punível com pena de prisão até dois anos e o de difamação prevê prisão até 8 meses.
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