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D. Fernando: o infante que não queria ser santo

Ao contrário do que ensinava a história nacionalista, o Infante Santo que morreu refém no norte de África pediu com insistência aos irmãos que entregassem Ceuta em troca da sua libertação.

19 de abril de 2026 às 17:30

“Dando um belo exemplo de amor da Pátria, D. Fernando pediu insistentemente que não se entregasse a praça de Ceuta, como os mouros impunham por condição do seu resgate.” A citação, retirada de um ‘Livro de Leitura da 4ª Classe’ do Estado Novo, é um exemplo do que foi ensinado nos bancos da escola a gerações de portugueses. A verdade foi bem diferente: o “Infante Santo” pediu repetidamente que lhe salvassem a vida.

Em janeiro de 1438, o rei D. Duarte reuniu Cortes em Leiria com um único ponto na agenda: debater a sorte do seu irmão, o infante D. Fernando (1402-1443), que ficara como refém dos mouros depois do fracasso da tentativa da conquista de Tânger. Ali, os representantes do clero, da nobreza e dos concelhos começaram por ouvir a leitura de um memorial enviado de Arzila, para onde D. Fernando tinha sido levado prisioneiro. Na mensagem, o infante dirigia-se ao rei pedindo-lhe que cumprisse o acordo assumido por D. Henrique: que entregasse Ceuta, conseguindo assim a sua libertação e a dos restantes cativos de Tânger.

Os infantes D. Pedro (futuro regente do reino) e D. João, com alguns fidalgos e a maior parte dos procuradores dos concelhos (o “povo”) manifestaram-se pela entrega de Ceuta e pela libertação de D. Fernando. Já antes, D. Pedro fora contra a expedição a Tânger. O investimento dos recursos nacionais na manutenção de Ceuta e a continuação da política de conquistas militares no norte de África era, na sua opinião, “trocar boa capa por mau capelo”. Defendia, em vez disso, a expansão marítima no Atlântico e ao longo da costa de África.

A maioria do clero e dos nobres, encabeçada pelo conde de Arraiolos (depois duque de Bragança), recusava entregar Ceuta. O infante D. Henrique não foi às Cortes de Leiria, mas encontrou-se a sós com o rei e deu-lhe o seu parecer: Ceuta não devia ser entregue.

E não foi. O rei morreu de peste meses depois, em setembro de 1438. No seu testamento reiterou a vontade de libertar o irmão, ainda que em troca de Ceuta. As condições de detenção de D. Fernando tornaram-se cada vez piores à medida que os mouros iam perdendo a esperança na devolução de Ceuta. De Arzila foi transferido para Fez, cujo rei mandou pô-lo a ferros.

O infante D. Pedro, regente em nome de D. Afonso V, ainda criança, tentou negociar a sua libertação. A correspondência de D. Fernando manteve-se até, pelo menos, 1442 – data da última carta que mandou a D. Pedro. “Sempre pensei que antes da morte vos veria”, escreveu.

Com a saúde arrasada pelo cativeiro, morreu de disenteria, em junho ou julho de 1443, com 40 anos. Quando o sobrinho, D. Afonso V, ocupou finalmente Tânger, em 1471, os restos mortais de D. Fernando foram trasladados para o mosteiro da Batalha. Ceuta nunca foi devolvida. Após a Restauração, em 1640, a cidade optou pela soberania espanhola e assim se mantém.

Vítima sobretudo da ambição do irmão D. Henrique e dos nobres que o apoiaram contra D. Pedro, ninguém perguntou a D. Fernando se queria ser mártir. Passou à história como o Infante Santo. Falta acrescentar que foi “santo”… à força.

Infante D. Henrique: o grande impulsionador dos Descobrimentos

Quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, D. Henrique (1394-1460) foi o grande impulsionador dos Descobrimentos portugueses. Embora tenha passado à História com o cognome de “o Navegador”, o mais longe que navegou foi até ao outro lado do estreito de Gibraltar. Mestre da Ordem de Cristo e duque de Viseu, usou a sua enorme fortuna para financiar as viagens de descoberta, sobre as quais cobrava o “quinto” (20%) de todos os rendimentos (incluindo escravos). Quando morreu, os portugueses tinham explorado a costa de África até à Serra Leoa. Foi decisivo o apoio que deu a D. Pedro para este se tornar regente, por morte do rei D. Duarte, irmão mais velho de ambos. Mas foi igualmente decisivo na sua queda, ao intrigar contra ele junto do sobrinho, D. Afonso V. D. Henrique estava na tenda do jovem rei quando D. Pedro foi morto na batalha fratricida de Alfarrobeira.

1437 Desastre

Sucessivos erros militares fizeram com que o exército português que foi cercar Tânger, em agosto de 1437, acabasse por ficar sitiado por uma força superior. Para evitar um banho de sangue, as duas partes assinaram, em 17 de outubro, um ‘Auto de Capitulação e Pazes’, pelo qual os muçulmanos permitiram o embarque dos portugueses. Em troca, D. Henrique comprometeu-se, em nome de Portugal, a restituir Ceuta, conquistada por D. João I em 1415. A garantir o cumprimento do acordo ficou como refém o ‘número 2’ da expedição, o D. Fernando, irmão de D. Henrique e do rei D. Duarte.

1471 Conquista

Após mais duas tentativas falhadas, em 1458 e 1464, Tânger foi finalmente ocupada em 28 de agosto de 1471, após ter sido abandonada pelos seus defensores na sequência da conquista de Arzila por D. Afonso V. Manteve-se sob domínio português até 1661, quando foi cedida à coroa britânica como parte do dote de D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, pelo seu casamento com o rei Carlos II de Inglaterra.

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