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De dia Manuel à noite Maria

A porta é pequena. Contrasta com o sorriso enorme do porteiro. Um moreno musculado, de barrete branco de croché enfiado na cabeça, avisa em laringe delicada que as vedetas ainda não chegaram. É cedo. Cedo para criaturas que se deitam tarde.

04 de novembro de 2007 às 00:00

No Finalmente o show de travesti começa, com pontualidade quase inglesa, às três da manhã. “Vá dar uma voltinha.” Uma só não basta. Alguns giros pelo Príncipe Real é o tempo que as estrelas levam a raiar. Afinal, não é somente o portão de ferro da Rua da Palmeira, 38-C que foi glorificado com dimensões acanhadas. No bar, que conta com a idade de uma boa garrafa de vinho do Porto, para deleite dos que almejam que o calor dilate ainda mais os corpos, cabe um punho de gente. E o camarim, parede vizinha com os lavabos, não passa de uma admirável amostra de um corredor apinhado de adereços femininos. Vestidos compridos. Dourados. De lantejoulas. Padrão tigre. Azuis-lisos. Pretos de cetim. Vermelhos de seda. E perucas loiras. Castanhas. De madeixas acobreadas. Sandálias com saltos da medida da Torre Eiffel. Estojos de maquilhagem onde nada falta para alinhar a beleza. Plumas. Coloridas que fazem corar Paris.

Um relógio na parede controla a hora do artista. A ventoinha ajuda a afastar o braseiro. O espelho é uma imensa janela para deslumbrar o mínimo trejeito vaidoso.

Carlos, nome inventado num joelho depilado, tem voz masculina com timbre de miúda mimada. Nasceu homem, muito homem, em Lisboa, no ano de 1980. E com sorte. Bebés que nascem a 29 de Fevereiro só sopram as velas de quatro em quatro anos. Entre as duas da tarde e as nove da manhã, Carlos, olhos verdes que deveriam ganhar um Nobel, penteado curto, lábios graúdos, trabalha em Comunicação Social: “A minha primeira paixão.” Depois dessa hora, lá mais para a noitinha, a segunda flama incendeia. Carlos incarna a sua personagem – Betty Brown –, uma bonitona e peras, com garra garantida para dar e vender.

O primeiro travesti a aderir ao cosmo da blogosfera surgiu para o mundo do espectáculo a 22 de Setembro de 1998. Como musa teve a mãe, senhora que até à data nunca assistiu ao show do filho. “Ela respeita-me, mas eu não insisto para que me veja em cena.”

A mentalidade é comparável aos automóveis. Não arranca a gasolina. Demora. O que nada demorou a aterrar na vida do jornalista foi a dupla certeza: o papel fundamental que as mulheres exercem sobre si. E o colossal prazer que nutre pela encenação.

Os primeiros passos de transformista foram dados neste quartel-general de roteiro gay. Mas os rótulos que recuem, e de mota. “Ser heterossexual, homossexual ou bissexual não é o importante.” A importância da Humanidade intitula-se pessoas. E é a espécie humana que o emociona, que o motiva, sendo absolutamente irrelevante qual é o cromossoma que o defina. Por querer homenagear as descendentes de Eva, à noite, o comunicador transforma-se numa verdadeira mulheraça.

O peito ultrapassa a Bíblia com a poesia. António Gedeão escreveu que o Mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança, mas Carlos garante que a terra sem o mulherio não teria passado do nível do chão.

“É um erro.” Do tamanho de um camião TIR. Verbalizar que um homem que imbui uma figura feminina está a sublimar algo ou alguém que desejaria ter sido. Engano. Bateram à morada errada. “Adoro ser homem.” Menos de ter pêlos. No seu corpo, nem à lupa será encontrada uma célula de felpa. “Higienicamente, é muito mais eficaz não os ter.” Cera quente, duas vezes ao mês, faz de madrinha. Não dói. Aliás, já não dói. A epiderme habituou-se ao esticão.

É visível. A existência de Betty enceta durante os rudimentares toques de maquilhagem. À medida que a pintura tapa as suas feições masculinas, o físico robusto de Carlos fica elegante. Os meneios agitados tornam-se mais vagarosos. As pernas cruzam-se com cerimónia.

Delicadamente, o pé simula um passo de ballet e os músculos amolecem. Betty Brown? Ainda não. Só quando estiver “montada”: maquilhada e vestida. Depois, quando as luzes do espectáculo se apagarem e os algodões retirarem a coloração e o pó da face, Carlos volta a ser Carlos. Homem. Rapaz. Jovem. Sensível. Apesar de cantar em ‘playback’ todos os géneros musicais, menos ópera, é com a voz de tenor que dá uma achega. “Existem e não são poucas”, criaturas que, diante do fogo, juram que todos os travestis abraçam a opção sexual de Elton John. “Sim. Sim.” Um transformista pode cair de beicinho por alguém do mesmo sexo, do sexo oposto, ou, inclusive, é senhor de se embeiçar por ambos.

MARCO

É o caso de Marco, cuja sinceridade supera uma auto-estrada de Portugal até ao fim do Mundo. “Sou bissexual.” Já foi casado. De aliança abençoada pela Igreja. O casal apaixonou-se. Namorou. Selou eternidade. Mas o eterno teve curta duração.

Após quatro anos, veio o divórcio. Amigável, como tudo o que faz. “Não deixo de ser homem por fazer aquilo que faço.” Matizar a cara com blush não atrapalha a testosterona. As pálpebras torneadas não abdicam de masculinidade.

Natural de Moçambique, 38 anos, enxuto, tem como fã incondicional a mãe, maravilhosa matriarca que, tantas vezes e tantas noites, já bateu muitas palmas ao ver o filho actuar. Poucos nasceram com o corpo e ânimo virados para a Lua. Marco é um sortudo. Faz o que gosta. Até hoje só fez mesmo isso: ser travesti.

O bicho da representação mordeu-lhe há 21 anos, em Cascais, mas seria em Lisboa que a senda artística viu de perto a fama. Artista residente do Finalmente, participou em programas de televisão, fez teatro, contudo a sua personagem nunca sofreu alteração. O baptismo coube a Ruth Bryden.

O ícone do travestismo, quando olhou para a “Boneca” trajada, não hesitou. Samantha Rox.

“Tento chegar ao conceito mais perfeito da mulher.” As aulas para atingir a perfeição e o requinte consistem em observar os gestos das damas. Espia-lhes o andar. A fala. Apanha-lhes os tiques para aplicar na personagem. “Não tenho dúvidas.” Quem segue esta profissão usufrui de uma sensibilidade apurada. Não imagina o falecido pai com rímel nos olhos e de saias.

A única vez que não conseguiu separar Marco da Samantha coincidiu com a sua morte. Enquanto o creme lhe cimentava o rosto, chorou. No show, por mais que quisesse, o choro era teimoso.

“Por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher.” Exactamente.

Samantha é a alma de Marco. Os dois completam-se um ao outro. Ela é extrovertida. Ele é tímido. Ela não usa cinta. Ele não faz abdominais. É por causa dela que ele faz depilação. Com gilete. Azul, a tal que a publicidade garante ser para másculos. No peito, a pelugem aguenta quarenta e oito horas. Nas axilas, cinco dias. Nas pernas, graças aos deuses, uma semana. “Detesto pêlos!” Odeia collants. Só sorri àquelas de rede, compradas no Rei das Meias. Ainda nem um pé coube na loja, os funcionários adivinham: “São de cor de carne?” “Oui, madame”. Meias de pigmentação natural.

“Podem contar comigo para tudo menos para costurar.” As colegas de profissão fazem-lhe o jeito. O vestuário. O seu forte é a maquilhagem e o embelezamento do cabelo. E é célere. Quarenta e cinco minutos para maquilhar e afinar a peruca.

Um quarto de hora sobra para vestir trajes de gala, correr fechos em tecidos apertados, calçar sapatos altíssimos. E só precisa de um instantinho para ‘placar’. Esconder o sexo. Testículos para trás, o resto também vai, e pronto. Bico calado. O segredo é a alma do negócio. Apenas adianta que se a técnica for bem feita, por muito que os curiosos espreitem, jamais encontrarão uma pista. Pistas também ninguém descobrirá quando Marco sai à noite, ou melhor, quando o Marcos leva a Samantha a passear. Vai “montado”. E não é a cavalo. Vai vestido de mulher. Usa saias com rachas. Ajuizadas. Blusas decotadas. Discretas. Botas altas que tocam as coxas.

JOÃO

Dispensa os tacões. João. O pai, militar, e a mãe, angolana, abençoaram-no com um metro e noventa centímetros.

O responsável do guarda-roupa do Chapitô é africano. É. Branco tal como a cal, mas quem nasce em África vive mais. Não que viva mais anos. Vive mais intensamente.

Os ziguezagues do 25 de Abril de 1974 depositaram a família na Póvoa de Varzim. Em Palmela. Aos 18 anos ruma para a capital. De bagagem, João trazia sete anos de teatro.

O transformismo começa em Setúbal. Mas é em 1993, convencido por um amigo, que participa no ‘Lugares aos Novos’ – a oportunidade que o Finalmente oferece aos novatos para mostrarem talento. O amigo teve pontaria. Nyma, a figura escolhida e por si interpretada, arrecadou o galardão dos iniciados. Já desde aí não é só o Benfica que ninguém pára.

Para que fique escarrapachado preto no branco, as palavras desmistificam as ideias mal concebidas. “Um transformista é um actor”.

A opção sexual de João não é tema de conversa. Nem será assunto de escrita. “Antes de falarem, as pessoas deviam estar informadas.” E o conhecimento não é assim tão caro nem nunca prejudicou uma mosca. Há gente que discrimina. Que julga que é doença. Há, idem, um público ainda mais crítico: “Os gays são do pior que há!” Vão aos shows para enumerar as ‘malhas’ nas meias dos travestis. Vasculham se as bainhas das roupas estão descosidas. Fazem figas para que as perucas descolem.

“Eu sou um homem que se transforma em mulher.” Se lhe pagassem para fazer de macho, não hesitaria. Mas os convites não pendem nesse sentido.

João é um homem cujo corpo é virgem de silicones e implantes. As lâminas ajudam-no no martírio que consiste em fazer a barba e banir os pêlos das axilas. Se não fosse muito mais dispendiosa que a cultura, a depilação definitiva resolveria a chatice e a estética. Por tal, as pernas seguem peludas. Mas três pares de meias opacas encobrem-nas. Ou um vestido que rase os pés.

Às vezes acontece o improvável. João sente-se triste e a Nyma está contente.

O profissionalismo não treme. Há que saber lidar com a evidência: são dois feitios diferentes que não se chocam. “Eu sou do signo Caranguejo.” Nasceu no Dia de São João de 1972. É teimoso. Persistente. Radical. Nyma, geminiana, foi engendrada a 3 de Junho de 1993. Rapariga extrovertida, perfeccionista, sentimental. Varia em termos de imagem, mas, e faça chuva ou faça sol, a personagem é inalterável. Freira. Gatinho. Cantora espanhola com leque e tudo. Céline Dion. É, indiscutivelmente, a Nyma.

Há quem morra, ou, inclusive, já tenha morrido de amores por ela. Como é o caso de duas mulheres. Uma compreendeu que jamais teria hipótese de relacionar-se com alguém que perdura meia hora. A outra ‘não foi ao médico’, e estava a ser um caso sério. “Deixei de lhe falar.” A doida nunca mais escutou a sua voz. E mesmo que a paranóica o veja em palco, a voz de Nyma pertence ao passado. A sua boca só abre para acompanhar as palavras que as cantoras cantam no disco. O resto faz a mulher de 190 centímetros. O espectáculo.

Falta meia hora para o show. A porta do camarim fecha com o trinco. Os travestis não querem ninguém, ninguém, ninguém, à beira da sua sombra. Vão aperaltar-se. Transformar-se.

Os lavabos do Finalmente excedem o conceito de zona para despejar necessidades fisiológicas.

Certo que não será um salão de chá mas podia muito bem ser um quarto – ou um divã.

O rapaz do bar serve cervejas em garrafa. Um trintão de casaco bege bebe muitas. Não esqueceu. Foi ali de propósito. Ver três personagens. Aplaudir três actores. Há uma década que a sua rotina nocturna se mantém fiel. As três da manhã são sagradas. Sempre. Rua da Palmeira. Número 38. Letra C. Há duas décadas.

As luzes acendem e apagam. O público grita pelas divas. A curiosidade pede licença. Atravessa a sala. Dirige-se para a barreira dos artistas. “Podes entrar, querida.” A “querida” fica com os queixos abaixo dos calcanhares. Depara-se com genuínas divindades em solo terrestre. Um bailarino entra num estrado de minúsculos metros quadrados. Dá o mote. Há asneiras que dão sorte. “Merda”, verbaliza Betty Brown antes de subir à cena. Não canta – mas encanta. Actua como se estivesse na Broadway. Samantha mexe as ancas. Trata por tu o microfone. Nyma conhece a letra da música e o palco de olhos vendados. Carlos, Marco e João só regressam no fim. De cara lavada. Homens. Claro. Muito homens.

ANTES DE SER SAMANTHA, CASOU

Marco é bissexual. Já se apaixonou e casou. E pela Igreja. O enlace durou quatro anos e o divórcio foi moderno... amigável. Este moçambicano de 38 anos tem como fã entusiasta e assídua nos shows de transformismo a mãe. Aos 38 anos, Marco tem como objectivo maior alcançar o conceito mais perfeito da mulher. Tenta à noite no Finalmente, depois de uma gloriosa transformação feita à custa de fatos, perucas e maquilhagem. Marco vira Samantha, loira, pestanuda e poderosa, pronta para fazer o seu show. E ser mulher.

TRANSFORMISMO NO CINEMA

‘A Outra Margem’, de Luís Filipe Rocha, nos cinemas desde o dia 25, tem como protagonista Ricardo, um travesti. O actor Filipe Duarte precisou que um profissional, Fernando Santos, o ajudasse “a partir de dentro para fora”. “O trabalho de um travesti não é só abrir e fechar a boca: é preciso interpretar e sentir a música”, explicou ao CM Filipe Duarte. Já o cantor espanhol Miguel Bosé vestiu a pele de um memorável travesti em ‘Saltos Altos’, de Pedro Almodóvar, cineasta espanhol pródigo na temática do transformismo na sua cinematografia.

Betty, Nyma e Samantha, ou melhor, Carlos, João e Marco. O primeiro com 27, o segundo com 38 o último com 35 anos. O processo de transformação do homem que chega de calças ao bar gay Finalmente, em Lisboa, já tinha terminado quando foi tirada esta foto. As senhoras do show de playback estavam prontas para actuar, afinadas com a gravação, insinuantes em palco, profissionais e muitíssimo mulheres. Tinham passado por um processo de transformação longo, digno de artista, de disfarce do género. Fazer do masculino feminino o melhor possível.

O Finalmente é a catedral do roteiro gay em Lisboa. Catedral pequenina, menor ainda o ‘camarim’ onde Marco, Carlos e João caminham para serem mulheres. É um corredor atulhado de perucas para morenas, ruivas e loiras, plumas à Moulin Rouge, estojos de maquilhagem de muitas cores para variadíssimos efeitos – fazer lábios maiores que os de Angelina Jolie, olhos de provocadora gata, tapar olheiras, restos de masculinidade – e de sapatos mais difíceis que os de Manolo Blahnik. É ali, naquele corredor, paredes-meias com o lavabo, que se esconde o que a poucos homens ocorrerá esconder, numa técnica maior que a de Houdini, passo de mágica para se ser mais mulher. Preferências sexuais é o que pouco lhes importa. Uns gostam de tudo ou do mesmo, mas isso nada tem a ver com o espectáculo. ‘It’s show-time!’.

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