Quando Ang Lee ouviu o título ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ ecoar pela sala a abarrotar de gente ilustre no Kodak Theatre, na noite mais reluzente de Hollywood, provavelmente ter-se-á beliscado, pensando que tudo não passava de um sonho. Mas era real. Bem real.
A sempre pomposa, previsível e elitista Academia de Artes e Ciência acabava de distinguir como melhor filme do ano uma história sobre a paixão desmesurada de dois ‘cowboys’ num recôndito lugarejo onde só existia neve, frio e ovelhas.
Naquela noite fez-se história na 7.ª arte. Pela primeira vez uma película vincadamente gay – com direito a cenas de amor numa tenda solitária – conquistava o Óscar mais importante da Meca do Cinema. Contra todas as expectativas mais optimistas, mesmo dos espíritos abertos, que noutras ocasiões já tinham visto obras com idêntica temática serem esquecidas pelos senhores da indústria cinematográfica.
Anos antes, também Antonio Banderas e Tom Hanks tinham dado um passo para que a comunidade homossexual pudesse brilhar, conquistar o seu espaço sem receios ou olhares de soslaio. Mas ‘Filadélfia’ era, acima de tudo, um filme sobre o flagelo da sida, e apesar da estatueta de melhor actor para o norte-americano, certo é que a tendência sexual dos que amam o mesmo sexo continuou enclausurada no armário, escondida do puritanismo do ‘Tio Sam’.
Contra o hábito de desviar a cara e assobiar para o ar, fingindo que a homossexualidade não existe, uns quantos ‘combatentes’ portugueses têm vindo a dar cor e corpo ao Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, este ano a soprar dez velas. E, agora que até Hollywood se rendeu e deixou de falsos moralismos, o evento parece ter ganho asas para crescer livre de amarras.
'10 ANOS DE LUTA CONTRA A HOMOFOBIA'
A decorrer entre 15 e 24 deste mês, a organização, a cargo da Associação Cultural Janela Indiscreta, aproveita o aniversário tão especial para abordar dois grandes temas que há muito marcam a agenda de quem se dedica de alma e coração ao assunto: ‘10 Anos de Luta Pela Visibilidade da Cultura LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual, Transexual)’ e ‘10 anos de Luta Contra a Homofobia’.
Depois da primeira grande revolução ter sido um sucesso, com a passagem para o Cinema Quarteto, o festival estende--se agora ao Cinema São Jorge, onde em pleno coração alfacinha poderá finalmente ganhar uma notoriedade incontornável no panorama artístico português. A agenda revela esse desejo de ser grande entre os grandes, com um total de 114 filmes – três dezenas de longas-metragens, 34 documentários e 50 curtas-metragens – divididos entre a retrospectiva histórica do cinema LGBT espanhol, os programas de curtas e a competição em cada uma das vertentes.
Com pompa e circunstância, a edição deste ano do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa começa na sexta-feira, às 21h00, e logo com uma película de referência, a merecer exibição no grande ecrã do São Jorge: a estreia nacional da longa-metragem argentina ‘Un Año Sin Amor’, realizada o ano passado por Anahí Berneri, já premiada no Festival Internacional de Cinema de Berlim. É um olhar atento e sofrido sobre o percurso de um jovem poeta seropositivo e a sua procura de amor nas ruas de uma Buenos Aires nocturna e marginal. Curiosamente, a cidade foi também escolhida e registada com temática homossexual por Wong Kar-Wai em ‘Felizes Juntos’, corria o ano de 1997.
Ainda na secção competitiva de longas-metragens, apontamento para outras duas obras: o alemão ‘18.15 Uhr Ab Ostkreuz’, de Jörn Hartmann, hilariante e muito negra revisitação do clássico ‘Murder She Said’ (1961); e ‘Gypo’, de Jan Dunn, onde é traçada a odisseia de uma refugiada romena em Inglaterra e a sua relação com uma esposa e mãe de família da classe trabalhadora.
À margem das películas, referência ainda para o debate ‘Homofobia – O que é e o que não é’ – dia 19 no Instituto Franco-Português –, e para o fórum subordinado ao tema: ‘A Homofobia e a Transfobia em Portugal’ – dia 24 no Cinema Quarteto. O resto são filmes em catadupa, alguns muito polémicos, irreverentes, marginais, ousados, originais. Para ver sem receios ou moralismo de pacotilha.
CLÁSSICOS INSTÂNTANEOS
Atenta ao fenómeno, a direcção do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa não esqueceu o recente fulgor de filmes como ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ em Hollywood. Do cartaz do evento fazem parte várias películas que há bem pouco tempo deram nas vistas entre os ‘tubarões’ da indústria da 7.ª arte. Além da premiada e muito aplaudida obra de Ang Lee, nota ainda para a exibição de ‘Breakfast on Pluto’, clássico instantâneo de Neil Jordan onde se narra a história de Kitten, um rapaz desesperado à procura de amor e da mãe, que completamente perdido se vai envolver nos meandros da música, do ilusionismo, da prostituição e do Exército Republicano Irlandês.
O incontornável ‘Capote’, que valeu a Philip Seymour Hoffman o Óscar de Melhor Actor Principal por ter encarnado de forma sublime o célebre jornalista e escritor norte-americano Truman Capote – autor do magistral ‘A Sangue-Frio’ – também será reposto em Portugal graças ao evento, assim como ‘Transamerica’, que aborda o tema sempre muito delicado da mudança de sexo. ‘Odete’, do realizador português João Pedro Rodrigues, também está entre as películas que não devem ser desperdiçadas por quem andou distraído aquando da sua exibição.
FILMES EM COMPETIÇÃO
LONGAS-METRAGENS:
- ’18.15 Uhr Ab Ostkreuz’
- ‘Electroshock’. ‘Go West’
- ‘Gypo’, ‘Hard Pill’
- ‘Loggerheads’
- ‘Love Sick – Legaturi Bolnavicioase’
- ‘Ronda Nocturna’
- ‘Un Año sin Amor’
- ‘Unveiled’.
CURTAS-METRAGENS
- ‘Aliteración’
- ‘The Bridge’
- ‘Can You Take It?’
- ‘Colin: interiors’
- ‘Comme un Boomerang’
- ‘Dare’
- ‘David’
- ‘Ester’
- ‘Fools and Kings’
- ‘Group of Seven Inches’
- ‘Guy’
- ‘Hitchcocked’
- ‘Hustler’
- ‘Inside Rome’
- ‘K.’
- ‘Mormor’s Visit’
- ‘My Kind of Woman’
- ‘Night Swimming’
- ‘No Exit’,
- 'Odile’
- ‘Older’
- ‘The Only Letter I’ve Ever Written’
- ‘Out Now’, ‘Panacea’
- ‘Pierre et Gilles. La Perversion’
- ‘The Piper’, ‘Purge’
- ‘Say Yes - Sag Ja’
- ‘Stay’
- ‘Summer’
- ‘Summervalley North’
DOCUMENTÁRIOS
- ‘Din Don Down’
- 'IML 2003 Part One: Pissies not Sissies’
- ‘Jane’s Birthday Trip’
- ‘Laura, Laura’
- ‘Queer Spawn’
- ‘Reporter Zero’
- ‘Very Small Living Things’
- ‘Vida Travesti’
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