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Dinheiro, vivo?

Na próxima quarta-feira (2 de Julho), a Cinemateca exibirá o último filme de Robert Bresson, ‘O Dinheiro’ (1983). Esta obra, inspirada num romance de Tolstoi, cresce contra a ganância e o estatuto de divindade que o dinheiro alcançou, tal como é bradado por uma das personagens: 'Ó dinheiro, Deus invisível, que não farei por ti!'

29 de junho de 2008 às 00:00

Uma nota graúda mas falsa aparece, inexplicavelmente, entre os dedos de adolescentes e vai passando de mão em mão. Pelo caminho, sucedem-se múltiplos acasos que, juntamente com a nota, a grande protagonista, transformam pessoas banais em criminosos, como se de um vírus se tratasse. O desfecho é trágico na medida em que o destino ultrapassa as suas criaturas. Se as personagens são vítimas das circunstâncias, o dinheiro é a génese do mal. Destrói e substitui a alma humana: a sua transacção é um pobre e perigoso sucedâneo da expressão do amor, compromisso, cumplicidade, traição ou culpa.

O dinheiro encontra-se na tradição da escola realista (Tolstoi, mas também Dostoiévski, Balzac ou Tchekov). E na tradição do próprio Bresson, que antes realizara filmes como ‘Pickpocket’ ou ‘Fugiu um Condenado à Morte’. É uma obra que se torna incómoda pela insistência em valores humanistas do século XIX. Como disse a nobelizada Doris Lessing há cinquenta anos, 'se há uma coisa que distingue a literatura de hoje é uma evidente confusão de normas e uma incerteza de valores. Actualmente ser-nos-ia muito difícil usar frases de Balzac como sublime virtude ou monstro de maldade sem pecar por falta de naturalidade'.

Bresson privilegia os ruídos (e não a música) para aprofundar a imagem ou antecipar a acção, conta a história com uma grande economia de planos, realizando um filme frugal e conseguindo, simultaneamente, destacar pormenores próprios dum documentário. Detalhes reveladores que, nomeadamente,retratamavida dum prisioneiro. Mas ‘ODinheiro’nãotem pretensõesadocumentário.Mostra o que tem a mostrar, para que a ficção fixe raízes na realidade.

Afinal, para Bresson, o verdadeiro falsificador é o cinema espectáculoquecontrafaz emoções criadoras de ilusões. Como o próprioafirmou:'não procuro fazer filmes incompreensíveis mas sim filmes que se possamsentir,maisdo que compreender. Não possosuportarmais nada,paraalémda verdade'. |

MÃO NA MASSA

‘O carteirista’ (‘Pickpocket’, Bresson, 1959) inspira-se em ‘Crime e Castigo’ de Dostoiévski e na obra anarquista ‘O Único e a sua Propriedade’, de Max Stirner, cuja moral Bresson compara à da personagem principal deste filme: 'Os meus direitos vão tão longe quanto pode ir o meu braço'.

NOTA PRETA

Outro exemplo clássico dos acasos deterministas bressonianos encontra-se em ‘Au Hasard Balthazar’ (‘Peregrinação Exemplar’, 1966). A vida é uma sequência de incidentes até para um burro, com o qual Bresson se identifica. 'O burro sou eu', disse.

CARTÃO DE CRÉDITO 

Se Bresson pretendia despir a realidade, Sternberg quereria vesti-la. Para este autor, o cinema é artifício e o argumento um pretexto para encenar. No seu ‘Crime & Castigo’ (1935), o destaque vai para a interpretação dostoiveskiana de Peter Lorre.

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