As peças usadas alimentam um negócio que alastra por todo o país. Há quem pague pelo que os outros não querem.
Cristina Fragata, 50 anos, sorri enquanto se enrola num casaco de peles e mostra o forro novo, que a própria costurou. "É o que se diz uma peça ‘costumizada’. Comprei em segunda mão e modernizei com este forro de seda", mostra orgulhosa. A trabalhar a tempo inteiro como relações-públicas, passa os domingos na LX Factory, na zona de Alcântara, em Lisboa. Paga 25 euros para montar a banca onde expõe produtos comprados noutras feiras ou retirados do próprio roupeiro. "Só vendo neste espaço, porque é o que se pretende de uma feira mais urbana. Às outras vou comprar e bisbilhotar", diz.
O negócio não parece correr mal. Entre a parafernália exibida destaca as botas altas, a 50 euros, e o par de calças brancas GF Ferrer, a 40, "peças como novas", que já não usa. "Já fiz feiras muito boas, principalmente no verão. Antes ganhava 300 euros por domingo, agora se chegar aos cem já me dou por satisfeita. Noto que as pessoas perderam poder de compra, mas ainda assim isto tornou-se uma moda e toda a gente compra."
Nos últimos meses, feiras e lojas onde se trocam peças em segunda mão enchem as cidades portuguesas. Quem vende garante que "escoa parte do que já não usa". Quem compra procura sempre "a oportunidade de encontrar uma pechincha".
Ana Pimentel, técnica administrativa, procura roupa e acessórios. "Venho à LX Factory com frequência, pois há diversidade e peças de qualidade, com bom gosto. É sempre mais barato do que numa loja e podemos contar com alguma originalidade", diz Ana, recordando que a sua "melhor aquisição" foi uma saia, por apenas um euro, "com etiqueta e tudo". "Também compro livros e antiguidades", diz, sobre um gosto que adquiriu do pai, colecionador de porcelanas da Vista Alegre.
"Isto é também uma viagem no tempo", explica Nuno Magorrinho junto à banca onde vende soldadinhos de chumbo, jogos do Monopólio original, peões de lata e outras ‘relíquias’. Com o pai, Francisco, comerciante há mais de 30 anos, tenta escoar os produtos acumulados ao longo dos anos. "Tentei vender na internet, mas não correu bem. Na feira funciona melhor, porque é um espaço físico, as pessoas podem ver as peças, escolher e levar logo para casa, sem correr riscos", diz o patriarca.
PEÇAS MAIS ORIGINAIS
Para evitar o mimetismo das marcas globais e comprar barato, os consumidores mais novos optam pelo estilo que já foi dos pais e avós. A moda das peças usadas veio para ficar, e o que antes se via apenas em feiras alimenta agora o comércio de rua, das roupas à decoração.
Filipa Pinhão, 19 anos, estudante , compra na Outra Face da Lua, na Baixa de Lisboa, por "influência da irmã, que é louca por roupa de outras épocas. Hoje em dia as pessoas andam todas de igual, como se fossem gémeas. Gosto de usar pormenores diferentes", diz, ao experimentar uma camisola dos anos 1980.
Reutilizar, reduzir, respeitar e reciclar é o lema da loja 4 r’s, primeira loja de compra e venda de roupa em segunda mão de Viseu. O desemprego levou Andreia Silva, 29 anos, a procurar alternativas. "Apercebi-me da quantidade de roupa a que não dava uso. Já conhecia estas lojas e como não havia na cidade apostei na 4 r’s", diz. O preço das peças de roupa varia entre os 2,50 e os 15 euros e são as camisolas e os casacos as indumentárias com mais saída. A crise fez com que a procura de roupa em segunda mão aumentasse exponencialmente. "Viseu é ainda uma cidade conservadora, mas a mentalidade está a alterar-se", refere Andreia, que destaca as épocas de Natal e o verão, com a presença de emigrantes, como as mais fortes, numa loja cujo volume de negócio ronda os 1250 euros mensais.
No que respeita a mobiliário, "há muita procura para o estilo ‘pé de palito’ e linhas nórdicas dos anos 1950 e 1960. Além de se apostar em originalidade, adquirem-se madeiras boas, melhores do que os contraplacados atuais", frisa Pedro Mouzinho, um dos sócios da Retroshop. A loja que mantém em parceria com José Valdeira funciona aos sábados e domingos no espaço de Alcântara, em Lisboa, e surgiu da paixão que ambos partilham "por peças vintage". "Fomos comprando, restaurando e começámos a vender. Os mais procurados são os móveis Olaio", diz José, destacando uma cadeira com napa preta. O negócio "tem corrido bem, pois há muitos interessados, portugueses e estrangeiros". Na Retroshop encontram-se aparadores por 350 euros e motas por 1 200. "De repente surgiu uma febre pelas Yamahas. Num fim de semana vendemos duas, e mais venderíamos se as tivéssemos."
À CONSIGNAÇÃO
Foi também a pensar em propostas diferentes e baratas que Telma Faria decidiu recuperar o que outros não querem. Licenciada em Sociologia, trocou a incerteza do salário na creche de um bairro social pelos trabalhos manuais. "Descobri que tinha jeito quando recuperei o meu berço para a minha filha." Decorou a própria casa com móveis usados, desde "uma gaiola grande, encontrada na rua, a cadeiras", que enfeita com tecidos, pinturas ou stencils.
Na loja/ateliê Respigar, em Campo de Ourique, na capital, Telma devolve vida ao que estava sem uso. "Há dois anos, quando abri a loja, apareciam muitos móveis no lixo, e os clientes até me avisavam sempre que viam uma peça. Cheguei a encontrar uma calculadora de 1940 e caixas de vinho que uso em tampos de banquetas ou quadros." No entanto, "começa a ser mais difícil encontrar coisas boas no lixo, porque há mais gente a recolher e menos a deitar fora". A moda atual é "‘respigar’ os móveis dos avós, mesas de cabeceira e camas", diz Telma, que cobra entre 65 a 200 euros por peça recuperada.
Três quarteirões à frente, funciona desde novembro o espaço Trocarte - Nem Luxo Nem Lixo. Os 25 anos vividos em França inspiraram Isabel Lechner, psicanalista, a montar um negócio igual ao que se vê por lá: lojas onde se depositam móveis usados para venda. No espaço que ocupa, de dois andares, encontram-se mesas com design dos anos 1970, por 500 euros, um roupeiro oriundo de um palácio da Madredeus, a 1500 euros, e móveis antigos com roupa nova. "Fazemos um contrato por sete meses. Se vender, recebo 30% sobre esse valor. Se não vender, o dono do móvel recebe-o de volta. Quem coloca aqui um móvel não paga nada", explica.
Apesar das lojas de peças em segunda mão crescerem como cogumelos, a Feira da Ladra, em Lisboa, cujas raízes remontam ao século XIII, continua a ser um dos espaços mais frequentados para quem procura artigos usados. Às terças e sábados, as ruas que espreitam o rio servem para vender de tudo um pouco. Móveis, loiças, discos em vinil, roupas e peças que ninguém usa.
Paula Golão, 45 anos, professora "até há poucos dias", é frequentadora assídua: "Compro muitos serviços de chá. O critério para adquirir é variado. Alguns, porque estão baratos, outros porque são peças curiosas."
Dorothy e Maika, alemãs, e Francisco, espanhol, aproveitam os meses do Erasmus para espreitar a feira de Lisboa. Tal como Francisco, que olha curioso a foto a preto e branco, Dorothy também gosta de memórias em segunda mão. "Por vezes aparecem relíquias, nunca se sabe", diz perante a lata de farinha Cérelac dos anos 1960 que pode servir "como porta-lápis".
Manuela Oliveira, 52 anos, há 15 que se dedica a este "comércio" e reage com rapidez: "Isto é o que se vende melhor. As pessoas compram tudo o que é velho. Cada vez mais!".
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