Deixei ficar na Metrópole uma mãe sem amparo de ninguém e o meu irmão. Fui para uma guerra cuja motivação desconhecia, sempre com receio de nunca mais voltar a ver os meus ente queridos. Assisti aos piores horrores, mas tive sorte e regressei sem ferimentos.
A 5 de Abril de 1959 fui incorporado no Batalhão Telegrafista em Lisboa, onde tirei a especialidade. A 5 de Maio de 1961 embarquei no navio Rita Maria com destino a Angola e a uma guerra cujas motivações desconhecia quase por completo. No momento em que soou aquele apito arrepiante, sinal de que o barco ia largar amarras, uma escuridão interior apossou-se de mim, porque deixava para trás os meus entes queridos e passei a ter sempre presente na mente a hipótese de não os voltar a ver.
A viagem foi muito atribulada, a tristeza que me invadia a alma era aterradora. Um dia, um senhor perguntou-me: 'Qual é o seu sofrimento?' E eu desabafei: 'Ficaram no Cais de Alcântara, em Lisboa, a minha mãe sem amparo de ninguém e o meu irmão menor'. A mesma pessoa andou pelo navio a fazer um peditório e confiou a quantia angariada ao comandante do barco, que quando regressou a Lisboa a fez seguir para a minha mãe. Eu só soube quando ela me contou por escrito. Se este senhor ainda é vivo, o meu grande reconhecimento do fundo do coração: bem haja!
A 18 de Maio de 1961 pisei, finalmente e pela primeira vez, o solo angolano. Era outro mundo, o rosto das pessoas era aterrador. Fui integrado na Companhia de Caçadores Especiais 82, no Regimento de Infantaria 14, de Viseu, acantonado em Carmona ou Uíge. Os dias iam correndo desoladores. Nas janelas, em vez de vasos de flores ou outras decorações, havia barricadas feitas com sacos de areia para enfrentar os ataques dos inimigos.
Nos primeiros seis meses não soube o que era dormir num lençol, numa cama lavada, porque nos deitávamos sempre vestidos, tendo como companheira apenas uma arma de fogo. O começo foi logo muito chocante e atribulado – sofremos três baixas e alguns feridos. O ambiente era constrangedor, todos chorávamos a morte dos nossos camaradas. Encontrávamo-nos na zona mais perigosa do Norte de Angola. Saíamos quase sempre à noite, para não sermos vistos pelos inimigos, e quando havia ordem para queimar uma sanzala, tudo à volta era infernal: ouviam-se crianças a gritar. Os seus pais, aqueles que eram alvejados, caíam no chão ensanguentados com os filhos deitados a cobrir os seus corpos. Ao fim de tantos anos, ainda recordo aquelas imagens horrendas e devastadoras. Ainda hoje guardo uma fotografia de dois bebés arrancados do berço, que ficaram mortos no meio da terra batida, depois de um ataque, e de outras pessoas falecidas durante os combates.
O nosso receio, cada vez que saíamos em missão, era tanto que confiávamos alguns (poucos, porque não possuíamos mais) valores aos amigos mais próximos, porque nunca sabíamos se iríamos voltar vivos. Uma das operações que mais me marcou aconteceu na zona de Carmona, a 21 de Agosto de 1962. Fomos chamados à fazenda de D. Maria José, mas quando chegámos era tarde de mais. Tudo o que encontrámos estava destruído. Ficámos lá uma noite e dormimos em cima de uma rima de café ‘Uma Fortuna’.
No dia seguinte aconteceu o pior, quando estávamos de regresso. Os turras tinham destruído uma ponte e fomos obrigados a parar. O capim era muito alto e cobria as viaturas, por isso não tínhamos visibilidade e, de um momento para o outro, começaram os ataques do inimigo. Por milagre, um tiro não me atingiu porque fez ricochete na chapa do jipe. O nosso furriel Miguel (chamávamos-lhe o furriel ‘Carola’) não teve a mesma sorte e foi atingido à queima-roupa na cara. Teve morte imediata. Foram momentos de muita dor, não há palavras para descrever aqueles momentos! Era um grande amigo, que ainda hoje recordo com muita saudade.
Para esquecer os maus momentos bebíamos as famosas canecas de cerveja. Um domingo, quando já ‘tinha os pés molhados’, um camarada comprou bilhetes para irmos ao cinema. E quem havia de sentar-se a meu lado?! O governador do Norte Angola (que mais tarde assumiu o cargo de governador geral), o tenente-coronel Rebocho Vaz. O filme era passado no rio e havia muitas estrelinhas a brilhar na água. Comecei a ficar enjoado, ainda pedi para me tirarem de onde estava, mas já não tive tempo e ‘deitei a carga ao mar’, de cabeça baixa. Depois, qual não foi o meu espanto quando vi que estava sozinho, pois os meus acompanhantes de fila já tinham saído.
O nosso lema era muito realista: 'Matar para viver, cerveja para esquecer'. Eu não era amigo das ‘caçadas’ ao homem, antes gostava era de caçar frangos e galinhas. Quando terminava cada missão, tinha sempre como compensação quatro ou cinco frangos pendurados à cintura. Ainda hoje não consigo agarrar em carne crua, um trauma que me vai acompanhar até ao fim dos meus dias, resultante daqueles tempos por terras de Angola.
Entre estes momentos, mais caricatos, e os horrores da guerra, tenho de dizer que no Norte de Angola só os que lá estiveram sabem das atrocidades que foram cometidas. Entre os guerrilheiros da União dos Povos de Angola, que começou a luta armada em 1961, no Norte do País, em Uíge, a loucura era tanta que não tinham medo de morrer a tiro. Na mente deles, acreditavam na palavra mágica ‘maza’ (metal desfeito em água) que os tornava imunes às balas. Por isso, atacavam sem dó, nem piedade, mesmo no que respeita à sua própria vida.
O meu comportamento durante a comissão mereceu ser louvado pelo comandante da Companhia de Caçadores 82, o que muito me honra. O louvor refere que sempre me mostrei muito competente no desempenho das funções que me foram atribuídas, a par de uma educação e vontade de bem servir que me tornaram digno de ser apontado como exemplo. Na verdade, como ali é referido, nunca regateei esforços durante as missões e estive sempre preparado para ser voluntário em qualquer circunstância, bem como para ajudar os camaradas que estivessem em maiores dificuldades. Por isso, o comandante da Companhia de Caçadores 82 sempre pôde confiar em mim e consegui granjear a amizade de todos os meus camaradas.
Apesar dos tempos difíceis por que passei, do medo que se instalou dentro de mim durante a comissão, acabei por ter mais sorte do que muitos camaradas que deram a vida na Guerra do Ultramar e muitos habitantes e guerrilheiros locais que também morreram nas sanzalas e nos combates no meio dos matagais enormes, que mal deixavam ver as pessoas e as viaturas. Regressei de Luanda sem qualquer ferimento físico a 24 de Dezembro de 1962 e cheguei à Metrópole a 7 de Janeiro de 1963. Depois, consegui refazer a minha vida e constituir uma família de que me orgulho, apesar de os traumas daqueles tempos nunca mais terem desaparecido de todo.
LOUVADO POR SER BOM CAMARADA E TER POSTURA VOLUNTARIOSA
João Correia de Sousa casou com Maria Eugénia Amieiro Matos de Sousa em Novembro de 1963. Tiveram tês filhos, Lisete, de 43 anos, Célia, de 40, e Filipe, de 30 anos. João foi corticeiro e mais tarde optou pela área do comércio, como vendedor de bebidas, onde começou novo e ainda continua, embora com muito esforço. Na tropa foi 1.º cabo radiotelegrafista, no Regimento de Infantaria (RI) 14. Em Angola, esteve nas zonas de Carmona, Quitexe, Songo, 31 de Janeiro, Touto e Negage. Partiu a 5 de Maio de 1961 e regressou de Luanda a 24 de Dezembro de 1962, tendo chegado a Portugal a 7 de Janeiro de 1963. Ou seja, passou o Natal e o Ano Novo no caminho de regresso a casa. A sua postura voluntariosa e de camaradagem durante a comissão em Angola foi destacada com um louvor do seu comandante.
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