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E. M. Melo e Castro: O verso erótico

Escritor faz da poesia visual uma forma de transgressão.

15 de dezembro de 2019 às 12:00

Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (n. 1932) é um poeta, ensaísta, crítico e artista multimédia português que foi pioneiro na divulgação da poesia concreta, bem como da videopoesia, da infopoesia e da criação de imagens fractais com intuito poético.

Do conjunto da sua obra sobressai a vontade de transgressão, que utiliza como meio o erotismo, a sua linguagem por excelência.

Natural da Covilhã, E. M. Melo e Castro nasceu numa família de proprietários de fábricas de lanifícios, com um bisavô visconde. Estudou Medicina, mas acabou por formar-se em Engenharia Têxtil em Inglaterra. Regressou a Portugal em 1956 e foi professor no ensino técnico.

Em 1960 publicou o primeiro livro de poemas, ‘Entre o Som e o Sul’, e dois anos depois lançou ‘Ideogramas’ (Guimarães Editores), obra emblemática não só da poesia concreta e experimental, mas do próprio vanguardismo literário português, em que a disposição gráfica dos versos compõe imagens que são indissociáveis do conjunto dos poemas.

Após a colaboração nos dois números da revista ‘Poesia Experimental’, organizou exposições, performances e ‘happenings’ onde pôs em prática as suas teorias artísticas. Em 1977 participou na ‘Alternativa Zero’, exposição organizada por Ernesto de Sousa que se tornou uma referência para a arte contemporânea. Sempre transgressor das "normas estabelecidas para a produção de versos", nos anos 80 voltou a ser pioneiro, desta vez na aplicação do vídeo e do computador à poesia.

Do livro ‘Sim... Sim! Poemas Eróticos’, Ed. Vega

"E de repente a língua se liberta

do peso que se teve.

Água corre na água.

o corpo livre

e abrem-se os sentidos

no orgasmo da luz

ver e não ver

ouvir e não ouvir

tocar e não tocar

cheirar e não cheirar

sabor e não sabor

tudo é saber

da mesma forma o peso

do não peso

o dar do receber

a posse do poder

como se de repente

as mãos o peito

os pés as pernas

fossem sexos unidos

ou os sextos sentidos

somados divididos

no momento de vir".

 

"De redondo cu

eu cúbica te quero

como cólera química

ou paz comum

que nada tão navega

a tua nádega núbica

de redondo nenúfar

nu furioso

no volume do cu

velo o teu lume

ocioso cio de culher

nos colhões que te encosto

pelas costas

no cu que te descubro

pelo olho

no volume que rasgo

pela vela

do duro coração

na cumoção

de ter-te pelas tetas

culocada na posição

decúbita

culada

da cumunicação".

 

"Dizeres de uma velha senhora

erros certos     mau perfume     ardor ardente

em minha cona todos se juntaram

os erros e os perfumes tresandaram

que um caralho pra mim não dá somente

foram precisos mil milhões de machos

para dessedentar minha tesura

que se derrete em águas e em lagos

como os não há na bíblica escritura

fodi é certo mas comi do bom

do mau e do pior que dá mais gozo

e do assim assim em qualquer tom

e agora que chega a hora do repouso

não me resigno e quero mais fanfarra

que o osso no osso ainda me dá gozo!"

 

"mais difícil é falo

que falá-lo

(...) difícil de contê-lo

o melhor é calá-lo

o melhor é fodê-lo"

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