Livros, livros e mais livros. No total, são 30 mil volumes e é com alegria e orgulho que Vasco Graça Moura abre as portas da sua casa e biblioteca, instalada numa propriedade rural às portas de Almeirim, no coração da lezíria ribatejana.
“Na verdade, foi a necessidade de encontrar um espaço adequado para colocar os meus livros que me levou a optar por este local”, explica escritor, que começou a construir aqui o seu refúgio há sete anos.
Situada num antigo estábulo restaurado de raiz, a biblioteca ramifica-se em quatro salas, onde Vasco Graça Moura conserva cuidadosamente o seu acervo, “mas sem a organização meticulosa de um bibliotecário”. Todas as paredes estão escondidas pelas estantes e as várias mesas ocupadas por pilhas de livros “que aguardam uma vista de olhos ou uma leitura mais cuidada antes de serem arrumados no seu devido lugar”. É na sua “catedral”, como lhe chama, rodeado de obras literárias, CD’s dos seus compositores de eleição e fotografias da família, que o eurodeputado passa a maior parte do tempo em Portugal, quando chega de Estrasburgo.
“É um local aprazível, mas de trabalho”, frisa Vasco Graça Moura. Sentado na sua secretária, onde se acumulam anarquicamente livros, papelada e correspondência, o escritor, natural do Porto, tem uma fotografia do Rio Douro no pano de fundo do computador, mas pela janela da biblioteca vê pinheiros, pomares e vinha, a paisagem bucólica que caracteriza o Ribatejo. “Este é o local ideal para viver afastado da trepidação urbana”, garante. Foi aqui, durante as férias de Verão, que escreveu o seu último romance, obra que será publicada no próximo mês de Março; “escrever ficção implica sossego e um maior tempo de maturação”, explica Vasco Graça Moura, que vai aproveitar a pausa natalícia para rever e dar os últimos retoques na obra, ainda sem título.
Na casa de habitação, os livros mantêm a hegemonia. A colecção de história da arte domina a sala de estar, onde o escritor convive com a família e recebe os amigos. “São visitas esporádicas, não tenho por hábito receber cá muita gente”, conta. Vários quadros, alguns de pintores amigos como Ilda David’ e Pedro Chorão, sobressaem nas paredes, sobretudo na sala de jantar. De resto, a decoração é “funcional”, ao gosto do dono da casa; “quis sobretudo criar um espaço confortável e agradável, mas não tenho grandes preocupações com luxos”, conta o eurodeputado, gracejando que as “estantes são o mobiliário mais importante”.
Antes de se decidir pelo Ribatejo, Vasco Graça Moura viu alguns terrenos no Alentejo, mas achou os preços “exorbitantes”; hoje, afirma que está satisfeito com a escolha que fez. “Esta é quase a minha primeira habitação”, diz o escritor, explicando a sua rotina: chega à quinta-feira de Estrasburgo e dorme em Lisboa; no dia seguinte, vem para a Azeitada, de onde volta a sair no domingo para a capital. Na segunda-feira, voa de novo para cumprir as obrigações no Parlamento Europeu.
LIVROS EM 500 METROS
“Sei com alguma precisão quais as obras que tenho e não costumo perder tempo quando preciso de achar alguma coisa”, declara Vasco Graça Moura, garantindo que nunca contou os seus livros. A bem da verdade, os 30 mil volumes são uma estimativa matemática que o próprio escritor desconstrói: “segundo os cálculos dos técnicos de bibliotecas, a cada metro linear de prateleira correspondem 60 livros. Como eu tenho 500 metros lineares, devo ter qualquer coisa como 30 mil volumes”.
Apesar de impressionante, a sua colecção pessoal é significativamente menor que a do amigo de longa data José Pacheco Pereira, outro intelectual que tem casa montada no Ribatejo (na Marmeleira, concelho de Rio Maior). “Não há qualquer espírito de competição entre nós, até porque ele deve ter quatro quilómetros de prateleiras”, afirma Vasco Graça Moura com um sorriso, e recordando com saudade os passeios que ambos davam pelas livrarias de Bruxelas às quartas-feiras à tarde. “Era o nosso dia livre para comprar livros, e hoje tenho que o fazer sozinho”, lamenta.
SEM VOCAÇÃO AGRÍCOLA
A propriedade rural, com dois hectares, não é cultivada porque Vasco Graça Moura confessa não ter “vocação agrícola”. “O meu rebanho são os meus livros e obrigam-me a ter um dia sedentário à secretária”, justifica. O jardim exterior está entregue aos cuidados de um jardineiro e o resto do terreno, onde dominam as oliveiras, árvores de fruto e uma vinha, é patrulhada pelo “Coca-cola” e pelo “Apito”, dois cães da raça Leão da Rodésia, e pelo “Pardal”, um imponente Pastor Transmontano.
OS DIAS DO ESCRITOR
Seja no ribatejo ou em Estrasburgo, o escritor levanta-se sempre cedo, pelas 07h00. Os dias começam com uma consulta ao e-mail e aos órgãos de informação através da Internet. Ao fim-de-semana, na companhia da mulher, não dispensa um passeio por Almeirim ou Santarém, onde faz as compras para a casa e procura os semanários. Em Santarém, é frequentador não assíduo da feira mensal de velharias e antiguidades no Largo do Padre Chiquito, onde já comprou obras literárias para acrescentar à sua colecção pessoal, que diz ser “criteriosa e seleccionada”. Foi o caso de uma primeira edição da poesia de Frei Agostinho da Cruz, de 1771, que comprou por “quatro contos”, segundo se lembra.
PROFISSÃO: escritor e tradutor
IDADE: 65
LOCAL: concelho de Almeirim
COMPANHEIROS DE REFÚGIO: Família
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