Lemos 30 revistas cor-de-rosa para descobrir as figuras que este Verão mais alimentaram o social
Uma ida à praia do Pego, na Comporta, elevou Rui Santoro, de 23 anos, nascido e criado em Estarreja, distrito de Aveiro, a personagem principal, com destaque semelhante a figuras conhecidas, nas páginas das revistas cor-de-rosa que a mãe costuma ter em casa. Não por estar na praia, não por ser estudante de Direito, DJ ou manequim mas por ter estado ao sol – e aos mimos – com a escritora Margarida Rebelo Pinto, 22 anos mais velha, presença assídua no ‘social’.
Nessa tarde, foram fotografados em momentos íntimos: a 1 de Agosto a história tem chamada de capa e quatro páginas da ‘Lux’ com o carimbo ‘exclusivo’; a 6 de Agosto, duas páginas na ‘Flash’. Dias depois, o casal ainda dá que falar, fruto do apanhado na praia: a 20 de Agosto a ‘Flash’ escreve que a escritora assumiu o namoro durante a actuação do DJ em Vilamoura, a ‘Lux’ de 22 concede uma página à relação e a ‘Vip’ de 23 refere-os na festa da discoteca Sétima Onda, Albufeira. É assim que se faz uma estrela?
AMORES
No Verão multiplicam-se as festas a Sul e os amores dão à costa. "O Rui Santoro é a única figura de destaque neste Verão. Aparecer ao lado de alguém conhecido é meio caminho andado para ser falado mas nem sempre é fácil chegar ao Inverno. Para aqueles que ambicionam ficar é preciso pagar muitos almoços aos que já cá andam, ter um bom carro, usar roupa de marca, viver num sítio ‘in’, ter um nome pomposo e os contactos da Maya, da Alexandra Figueiredo, da Pimpinha Jardim e do Abel Dias, os RP que estão com os spots deste Verão e cair nas suas boas graças: agradecer cada convite, oferecer chocolates ou flores e garantir que não há festas melhores do que as deles", explica o cronista Flávio Furtado. "Se conseguirem 3 ou 4 fotos publicadas é quase certo de que podem vir a dar que falar fora desta época".
"O Verão cria histórias, amores e entretém as pessoas, mas não lança ninguém. A um antigo criador de figuras, que comentava a necessidade de termos de fabricar famosos, eu respondi que já não criamos nada, porque é tudo tão rápido que é mais fácil aparecerem no Facebook e auto-criarem-se num programa de televisão. O social antigo já não é o de hoje", considera Luísa Jeremias, directora da ‘Flash’ e da ‘TV Guia’. Quanto às figuras mais marcantes da época estival, "temos, por um lado, as que estão na noite e, além disso, aqueles que foram sendo convidados e aparecendo, como a Jô Caneças e a Maria José Galvão. Os ‘emergentes’ aparecem menos porque agora é tudo muito rápido", conclui.
Jô, 59 anos, mulher do arquitecto Álvaro Caneças (casado em primeiras núpcias com Lili), foi a grande recordista nas festas este Verão. E nas referências das revistas. Nas 30 publicações analisadas pela Domingo apareceu 17 vezes, a maioria em festas. Ele era a cataplana da ‘Vip’, a feijoada da ‘Caras’, o Festival da Sardinha em Portimão, inaugurações de discotecas, aniversários de lojas de luxo, um sem-número de aparições imortalizadas pelos fotógrafos. Chegou a ser considerada, com humor, a ‘Papa Festas’ pela ‘Flash’, por ter ido a duas no mesmo dia, e figurou em rankings que a consideravam a mais mal vestida.
Mas Jô reage a tudo com uma gargalhada. "Por mim ainda ia a mais, mas o meu marido nem sempre quer, já tem quase 80 anos. E já muito faz ele, como sabe que gosto imenso lá me acompanha". Foi precisamente com o arquitecto, com quem casou há 29 anos, que Jô começou a frequentar o meio, nos anos 80, depois de terem sido apresentados por um amigo comum, então comandante da PSP de Lisboa.
Na altura, Jô – Goretti Guedes, no registo – trabalhava no laboratório da Cometna, fábrica de fundições para carruagens, e pagava a prestações a primeira casa própria, depois de anos a viver num quarto na Amadora. Nasceu na Régua, filha de um dono de várias quintas – onde chegou a fazer trabalho agrícola – mas a morte da mãe, aos 13 anos, tornou-a na mulher da casa e perita em trabalho doméstico.
"Vim com o meu pai para Lisboa mas ele quis voltar para o Norte. Não quis ir, zangámo-nos e comecei a trabalhar para me sustentar, ainda miúda, para poder ficar em Lisboa". Hoje, e apesar de viver em Cascais e de nada lhe faltar – nem mesmo os dois carros de corrida que são a sua perdição –, a socialite não tem pejo de contar por onde andou.
"Até ouro em segunda-mão vendi, trabalhei numa fábrica de malas de senhora, a Bento Peixoto Soares, bordava lençóis, pintava azulejos. O meu primeiro carro foi um Renault 5 em segunda-mão. Quando eu e o meu marido começámos a namorar encontrávamo-nos no Hotel Estoril Sol e era o meu carrito estacionado ao lado do Porsche dele", recorda.
Depois do casamento, Álvaro pediu-lhe que deixasse de trabalhar mas Jô ainda o convenceu a ter um cabeleireiro, que manteriam cinco anos. "A coisa que mais me custa é estar sem fazer nada: por isso vou para a horta plantar couves e batatas", um cenário bem diferente daqueles onde a encontrámos no Verão.
"Em 1984 saía nas revistas, mas menos. Como o Álvaro estava divorciado (de Lili Caneças) queríamos ter cuidado. Mas estava sempre ansiosa por ir: trabalhava tanto que a sexta-feira à noite era para me divertir". Apesar de ser a recordista de presenças este Verão, Jô hesita na popularidade: "Nunca tive aquele à-vontade de ir ter com os fotógrafos e dizer: ‘Cheguei’. Fico sempre no meu cantinho à espera que me tirem fotos".
VIDA COLORIDA
Mas, afinal, o que leva certas figuras a perdurar mais do que um Verão nas páginas do social?
"Uma coisa é terem uma vivenda no Restelo e uma vida boa, mas chata. Outra, bem diferente, é ter uma vida engraçada e serem convidadas para tudo. Como a Teresa Stürken, que não precisava de ir e vai porque quer e porque gosta. Não anda atrás de uma fatia de pão", diz Abel Dias, colunista social e RP.
Teresa Stürken, ou Pinto Coelho, o nome de família que voltou a usar três anos após a morte do segundo marido, alemão, é presença nas festas desde sempre. Nasceu em Belém, Lisboa, numa família tradicional, debutou como todas as meninas elegantes de então e lembra-se do tempo em que as saídas começavam entre as casas das famílias da mesma condição: "Os vestidos eram de seda, feitos pelas costureiras que iam a casa, e quando usávamos meias altas era um momento marcante". Hoje não tem pudor em surgir num evento com roupa da popular marca Zara.
"Curiosamente, já me aconteceu trazer de Londres um tailleur Valentino e na semana seguinte ir a um concerto no Palácio Foz e estar lá uma senhora com um fato igual (risos). Isso é algo que não me ofusca. Aliás, cada pessoa interpreta a roupa à sua maneira. É preciso é que se sinta bem, esteja à-vontade, divertida e possa desfrutar".
É essa vontade de "celebrar a vida a 100%" que leva Teresa Pinto Coelho a aceitar os muitos convites. Formada em Administração e Línguas pelo ISLA, trabalhou na embaixada do Reino Unido em Portugal e hoje investe no imobiliário. Amante de artes e desporto, não falha festas no Algarve, lançamentos de perfumes e jóias e outros eventos sociais. Foi referida dez vezes nas revistas analisadas. Quem a convida sabe que tem na lista uma figura de primeira linha. Teresa Pinto Coelho aproveita para "passar um fim-de-semana de dois ou três dias, voltar a casa, e ir de novo quando apetece. É uma ideia muito simpática".
A mudança que Portugal e a sociedade sofreram é "resultado de um processo de evolução, positivo e refrescante. Há mais gente e ainda bem. Nunca me considerei elitista e acho que as pessoas devem dar-se sobretudo com quem têm afinidades. A minha família tem mais de 900 anos, mas não vejo nisso um factor importante a não ser que, por acaso, é equilibrada, séria, não tem escroques e isso talvez dê segurança a quem lida connosco", diz Teresa Pinto Coelho, que não se choca com os ‘emergentes’.
"Há regras sociais que não se improvisam, mas há pessoas inteligentes que apreendem bem. E a discrição apaga muitas lacunas. Se a pessoa não for espalhafatosa, souber estar no seu lugar, mais como observador do que protagonista, mesmo que tenha falhas essas passam despercebidas".
Abel Dias tem opinião contrária: "Se não tens vergonha, o mundo social é teu. Quem quiser ser falado pode puxar o sutiã da Bárbara Guimarães numa festa: posso levar um estaladão, mas vou ser falado de certeza".
OS GRANDES AUSENTES
Adaptar-se aos tempos é algo que acontece também neste meio, nota Alexandre Alves Ferreira, cuja experiência de 18 anos como RP o leva a notar que este Verão "o mais marcante foi quem não apareceu". "Pessoas e famílias mais tradicionais, como Jorge e Kiki Espírito Santo, Batata Cerqueira Gomes ou o banqueiro Ricardo Salgado e a mulher não foram vistos nas festas de Verão, nem mesmo no T-Club. E isso quer dizer alguma coisa. Ou foram para fora ou estão resguardados na Quinta do Lago, a marcar uma posição de distinção", explica. "De repente, há uma tendência do género ‘não quero ir, não quero ser misturado com determinado segmento’". Ainda assim, a eleger uma figura assídua escolhia Maria José Galvão de Sousa. "Foi presença durante todo o ano. Fartou-se de aparecer, foi uma loucura".
Por ser "bem-disposta por natureza" e gostar de encontrar pessoas de quem gosta, Maria José Galvão, 56 anos, divorciada, filha de um médico e de uma escultora naturais da Madeira, aceita "imensos convites". Licenciada em Filologia Germânica, deu aulas e entrou no social graças à sua personalidade festiva. "Vamos conhecendo pessoas, somos convidadas para determinados ambientes, profissionalmente estive ligada à publicidade, marketing, faço consultoria e também aí há contactos. É uma bola de neve".
Do início recorda uma sessão fotográfica para a ‘Nova Gente’, quando vestiu "duas mudas, um vestido comprido, de festa, e um fato desportivo. Fiz uma fotos junto à lareira, na minha casa". Actualmente, a residir noutra casa no Restelo e a conduzir um Mercedes classe A, admite que as presenças mais não são do que "marketing".
"Apareci em várias situações mas na realidade fui três fins--de-semana alargados ao Algarve que coincidiram com a aberturas de novos espaços. Cada vez há mais inaugurações de restaurantes, hotéis, galerias, lojas... Os RP já perceberam que é bom promover eventos e convidar pessoas que podem ser ‘opinion leaders’. É uma forma de publicidade. A abertura de um espaço tem um preço em página de publicidade mas tem mais retorno com um evento, porque sai, pelo menos nessa semana, em todas as revistas do género. O custo/rentabilidade é muito melhor".
Maria José não se livrou do rótulo ‘Papa Festas’ da ‘Flash’, mas foi, por outro lado, considerada ‘Perfeita para Dançar’ pela mesma revista. Chamar novos públicos surte efeito, "mas há presenças obrigatórias. Não podem ter só os miúdos das novelas. Hoje em dia, o cliente, de acordo com o produto, também selecciona, ou são moranguinhos e cantores ou então pessoas do meu target que podem dar outro tipo de retorno". O que pagam? "Pelo menos, o hotel".
Se o investimento na vida social favorece quem convida, quem aceita também ganha. "Lucro imenso. Faço marketing dos quadros do meu marido, vendo livros, dou conferências e workshops’", admite Paula Bobone, 66 anos, que começou a aparecer na década de 19 80 na extinta ‘Olá!’. "Foi o Marcelo Rebelo de Sousa quem criou o social chique em Portugal", na revista do ‘Semanário’, que então dirigia. "Depois o social baixou o nível... e isso é um fenómeno mundial. Aparece uma geração de pessoas descartáveis, que procura a fama por razões várias, com uma falta de vergonha e uma exposição excessiva, de provocação até".
A falar de Londres, onde foi comprar "acessórios para dar nas vistas", recorda David Mota, "o filho daquela que matou o marido para lhe ficar com o dinheiro. Ele é muito original e surgia em diversas revistas. Há muitas pessoas famosas por um escândalo, por falta de vergonha, ou porque estão ligadas a dinheiros ou a lobbies, futebol... são artistas, criminosos, banqueiros, há histórias engraçadas". E, diz, um elemento comum alimenta estas pessoas: "O glamour dos flashes".
Apesar dos famosos estarem a nascer por efeito de autopromoção no Twitter, Facebook e blogues, os fotógrafos e as revistas continuam a ser fundamentais. "Vamos uma vez e outra, reconhecem-nos, fotografam e acabam por ser sempre os mesmos a aparecer. A revista selecciona, mas se não for fotografada fica logo abortada a hipótese de aparecer. E pessoas que fazem tudo para aparecer, que se colam, haverá sempre", diz Maria José Galvão. Isso e quem "pague aos promotores das festas para os porem lá dentro. Assim têm uma hipótese de sair nas revistas", nota Abel Dias.
Conhecido de fotógrafos e RP, Bruno Martin era assíduo nas festas de Verão mas este ano "apareceu menos", diz Flávio Furtado. O advogado, de 34 anos, garante que a idade e o investimento em novos projectos profissionais desaconselham o social. Ainda assim, esteve em três festas no Algarve e apareceu cinco vezes nas revistas.
APROVEITAR O BOM
Susana e António Lacerda Nobre, 38 e 41 anos, são das grandes interrogações no social. "É preciso gente para aparecer nas revistas e eles adoram, por isso aproveitam", diz Abel. Susana confirma. "Não vou mentir e dizer que não gosto de ser fotografada, porque gosto. Se não gostasse não ia. Aproveitamos coisas boas, temos um bom retorno, nada desagradável para contar".
Fazendo um esforço de memória, recorda que ainda adolescente, com convites arranjados pelos tios, foi a festas de aniversário de discotecas badaladas. Filha de um oficial da Marinha, Susana tem em Mico da Câmara Pereira e na mulher deste, Joana (outro casal assíduo das revistas), companhia habitual nos eventos. António é comercial da BMW, Susana foi gestora de recursos humanos mas na segunda gravidez optou por ficar em casa. Quanto às festas, "acho que nos fotografam tanto porque somos divertidos e temos boa energia".
Já Isabel Nogueira, que foi assistente de bordo antes de começar a escrever uma crónica social para a revista ‘Eles e Elas’, apareceu pela primeira vez num evento de solidariedade com "um vestido de renda Valentino" a convite de Carlos Castro. "O meu casamento não estava bem e comecei a ir a festas para descontrair. Na altura tinha muitos amigos jornalistas e um deles era o Carlos Pissarra, sobrinho-neto da Vera Lagoa, muito conhecida no social. Através dele entrei nas listas das festas", refere.
Nos últimos anos apareceu frequentemente nas fotografias ao lado de Dom Henrique de Bragança – com quem se chegou a dizer que ia casar –, que apenas considera "um grande amigo", e criou um blogue, onde relata todas as festas onde vai, com fotografias tiradas por si e consigo. "Não salto de uma festa para a outra: encadeio eventos, principalmente aqueles que são de amigos".
Para Rui Santoro, Margarida Rebelo Pinto também é "uma amiga especial. Fui apanhado desprevenido com as fotos na praia, pois queria manter a minha privacidade ", conta o filho de um engenheiro e uma designer de moda. "A minha mãe liga-me sempre quando apareço nas revistas e também é a ela que pergunto, pelo telefone, que cor usar nas festas. Ela está feliz porque faço o que gosto e, claro, toda a gente precisa de aparecer; para o meu trabalho como DJ não deixa de ser importante".
ANITA, JONATHAN E FILIPA: CASOS DO VERÃO
A presença no Manta Beach de Anita Costa, a última namorada de Angélico Vieira (actor e cantor falecido em Junho), e de Filipa Valente (ex-Sabrosa) e Jonathan como casal são os ‘casos’ do Verão, destacam a RP Maya e Luísa Jeremias, directora da ‘Flash’ e ‘TV Guia’. "O facto de aparecerem já revela algo. Gostava de saber quanto custa assumir, quais são os preços, pois neste meio as presenças são pagas", diz Luísa Jeremias.
Maya, em cujos eventos só entram convidados até aos 35 anos, explica que "Anita Costa, pela maneira de estar, pode ser uma figura com continuidade". A estudante foi notícia na ‘Nova Gente’ por cobrar 400 euros para figurar numa festa no Porto. Cristina Paiva, ex-agente de Angélico que estabelece contacto entre os RP, imprensa e a aspirante a actriz, diz: "Ela saiu apenas para se divertir".
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