Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
7

ESPERANÇA: OS SENHORES QUE SE SEGUEM

José Azevedo e Sérgio Paulinho são os grandes nomes do ciclismo, numa altura em que a modalidade não atravessa o seu melhor momento
27 de Julho de 2003 às 15:00
ESPERANÇA: OS SENHORES QUE SE SEGUEM
ESPERANÇA: OS SENHORES QUE SE SEGUEM FOTO: Arquivo CM
Há quem diga que o mítico Joaquim Agostinho pode ter agora um sucessor à altura. Sérgio Paulinho, de 23 anos, tem dado nas vistas em toda a Europa e já é apontado como uma das grandes promessas da modalidade. “Ele foi o primeiro português a vencer uma medalha de bronze num campeonato do mundo”, sustenta Artur Lopes, Presidente da Federação Portuguesa de Atletismo.
“Sou um contra-relogista e trepador por natureza”, define-se o próprio Sérgio Paulinho, que este ano vai participar pela primeira vez numa Volta a Portugal. O atleta, filho do ciclista Jacinto Paulinho, confessa estar “um pouco ansioso” com a sua estreia mas tem a certeza de que “o nervoso miudinho irá passar” com o decorrer da Volta.
Sobre as incontornáveis comparações com Joaquim Agostinho, o jovem discorda com humildade: “Ninguém pode igualar os seus feitos. Ele foi e continuará a ser o maior ciclista de todos os tempos”.
Para além de Sérgio Paulinho, outros nomes prometem fazer história. “De Hêrnani Broco, Edgar Anão, Jorge Torre e Bruno Pires aguardo grandes vitórias num futuro próximo”, profetiza Artur Lopes.
AZEVEDO E COMPANHIA
Quem já deu provas da sua destreza em cima do selim foi José Azevedo, de 30 anos. O ciclista, que passou pelo Recer-Boavista e pelo Maia e que se encontra actualmente ao serviço dos espanhóis do ONCE, é considerado o melhor corredor português da actualidade. Azevedo parece estar talhado para as grandes voltas, tendo-se já classificado no sexto lugar no ‘Tour’ de França, em 2002, e na quinta posição no ‘Giro’ de Itália, no ano anterior.
‘Equipeer’ por excelência, Azevedo só não atinge outros resultados porque trabalha fielmente para os seus chefes-de-fila, tal como ficou demonstrado nesta edição do ‘Tour’ de França. “Ele é um excelente montanhista”, declara Artur Lopes. “E além fronteiras, ainda pode ir muito longe, tal como aconteceu a Joaquim Agostinho”, remata.
Mas os veteranos Orlando Rodrigues que esteve presente nos três principais palcos do ciclismo (o ‘Tour’, o ‘Giro’ e a ‘Vuelta’) e venceu por duas vezes a Volta a Portugal (1994 e 1995) — ou Vítor Gamito, que coleccionou quatro segundos lugares na Volta e uma vitória em 2000, ainda têm algo a dizer. Cândido Barbosa, um ‘sprinter’ que já participou no ‘Giro’, é também outro valor seguro. “Apesar de tudo, Portugal continua a ser uma potência do ciclismo”, defende Artur Lopes.
MALDITO DOPING
Há atletas que recorrem a estimulantes, anfetaminas, analgésicos, esteróides anabolizantes, betabloqueantes, ou corticóides para melhorar as suas performances. “Os adeptos, treinadores e patrocinadores exigem-lhes resultados e muitas vezes os ciclistas deixam-se levar pela pressão”, afirma Artur Lopes. As substâncias proibidas apareceram em grande escala nos anos 50. “Habituei-me às ‘bombas’ e só assim é que ganho”, confessou então, com alguma dose de ingenuidade, o ciclista Eduardo Nicolau. No estrangeiro, surgiam os ecos das primeiras mortes relacionadas com as drogas. Em 1969, e depois de ser acusado de consumir substâncias proibidas, Joaquim Agostinho defendeu-se de forma pouco convincente: “Só tomei as vitaminas do costume”. Resultado? Perdeu o primeiro lugar da Volta a Portugal na secretaria. Quatro anos depois, outro controlo anti-‘doping’ positivo retirou-lhe mais uma vitória na prova. Na Volta de 1978, foi a vez de Fernando Mendes se enredar nas malhas do ‘doping’. O ciclista foi desclassificado e castigado. Em 1984, o fenómeno alastra-se e são detectados 14 ciclistas com análises positivas.
SARREIRA, O AZARADO
Há ciclistas sem sorte. Luís Sarreira, 31 anos, é um desses casos. O atleta do Cantanhede nunca ganhou uma etapa da Volta a Portugal e nem sequer guarda na prateleira qualquer troféu de renome. “Tenho tido muito azar desde o início da carreira”, confessa. Sarreira começou a correr em 1993, no Tavira, e logo nessa altura as lesões no joelho teimavam em aparecer nos seus picos de forma. “Mas a pior época deu-se em 1998, com o emblema do TroiaMarisco. Uma tendinite obrigou-me a desistir nessa edição da Volta a Portugal”, conta. Dois anos mais tarde, ao serviço do Benfica, o azar voltou a bater-lhe à porta. Desta vez, um problema hemorroidal obrigou-o a nova desistência na terceira etapa da prova. “Foi um martírio. Durante seis dias, mal conseguia andar e sentar”, recorda. O ciclista passou por um período de depressão e chegou mesmo a ponderar a hipótese de desistir da profissão. “É desmotivante não ter resultados”, desabafa. No ano passado, ficou na cauda da tabela da Volta, em 104.º lugar, ao serviço da sua actual equipa, o Cantanhede.
Apesar de ter esperança de que esta seja a sua melhor época, Luís Sarreira não se ilude: “Aos 31 anos, não tenho muito mais para dar ao ciclismo. Já estou a passar para o lado de lá”, ironiza. “Para se ser ciclista profissional é necessário estar-se muito bem fisicamente e mentalmente. E eu nem sempre estive a cem por cento”.
Actualmente, o seu salário não foge da média dos seus colegas de profissão, mas prefere não revelar números: “Posso dizer que é pouco para um esforço tão grande. Mas não me queixo porque nos dias de hoje já é bom ter uma equipa para correr.” E remata com desalento: “Acho que passei ao lado de uma grande carreira”.
Ver comentários