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Esqueletos esquecidos

O comboio avança devagar, cada vez mais longe de Banguecoque, cada vez mais perto do passado. Vinte homens descansam para sempre no chão poeirento. Um elefante branco que não existe caminha devagar e um vice-rei toca a melodia grave dos sinos do Sião. Quem o ouve? Portugal e a Tailândia conhecem-se há 494 anos.

27 de março de 2005 às 00:00

“Para onde?” O condutor do tuk-tuk abre os olhos de espanto e consulta o mapa antes de aceitar a viagem. Apesar de os portugueses terem chegado à Tailândia há quase 500 anos, os primeiros de todos os europeus, não é fácil encontrar marcas dessa presença nas ruínas históricas de Ayutahya, a antiga capital do Sião. “Colonato português, certo?”, volta a perguntar, num inglês arrastado. “Certo.” E a máquina arranca, receosa. A viagem será longa rumo ao passado, por uma estrada alcatroada que se intromete às curvas entre templos budistas e palácios reais.

António Miranda de Azevedo chegou aqui, à cidade guardada pelos três rios, em 1511, como enviado do vice-rei, Afonso de Albuquerque. O monarca tailandês tivera a amabilidade de mandar apresentar cumprimentos em Malaca e Albuquerque retribuiu-os, juntando presentes e algo mais. Em Ayuthaya, Azevedo deveria preparar um acordo capaz de alargar as rotas comerciais do reino de Portugal no Oriente. E a recepção na corte não poderia ter sido melhor. Ramathibodi II, o monarca, era conhecido como o ‘Rei do Elefante Branco’.

De mapa na mão, o homem do tuk-tuk volta a hesitar. Dirige-se a um homem num alpendre, troca poucas palavras e arranca. O colonato português, recuperado pela Fundação Calouste Gulbenkian, é uma das atracções de Ayutahya – a cidade museu a 76 quilómetros de Banguecoque. O comboio parte pontualmente às 11h20, quase cheio. Turistas e tailandeses carregados de sacos preenchem as três carruagens do regional, que avança devagar da metrópole para os subúrbios, com a paisagem a ajudar ao longo da quase hora e meia de caminho: prédios, fábricas, campos de arroz, ruínas.

Ramathibodi II ficou impressionado. A tal ponto que Azevedo conseguiu ver de perto o mítico elefante branco que passeava nos jardins de Ayutahya. E no regresso a Malaca, o enviado português levava consigo um conjunto de sinos para ser tocado com varas de madeira. Dois deles, avisou-o o rei tailandês, deveriam ser usados apenas em tempos de guerra, devido ao som profundo, assustador e melancólico que produziam.

Hoje, é o silêncio que ajuda a construir o passado. À entrada do colonato português, um pequeno altar coberto de fitas coloridas guarda a imagem de dois ocidentais de barba. Um segura um cálice, outro uma espada. A relva está impecavelmente tratada, a copa das árvores preenche o céu e no cais dois namorados abraçam-se com um dos três rios em fundo. É ali ao lado, num edifício de piso térreo, com fachada de Igreja, mas igual a uma escola primária, que se guarda o que resta da presença portuguesa na Tailândia.

Diz Manuel de Faria e Sousa que a presença de portugueses na corte do Sião se tornou comum depois da visita de Azevedo. Um deles, António de Paiva, chegou a discutir com o monarca assuntos religiosos e outros considerados sensíveis, tendo conseguido que o rei aceitasse ser baptizado e assumindo o nome português de D. João, em 1554. Nos anos seguintes, cada vez mais portugueses chegaram a Ayutahya, muitos deles incapazes de encontrar trabalho nas possessões da Índia.

Além da placa na parede, com a história resumida da chegada dos portugueses à Tailândia, a visita ao colonato português é um mero exercício contemplativo. Cerca de duas dezenas de esqueletos estão espalhados pelo chão, com as mãos em posição de repouso. Há armas, mapas e pouco mais, como acabou de verificar o único visitante que por aqui passou esta manhã. É um sueco que vive há vinte anos em Banguecoque e que, uma vez por mês, apanha o comboio do passado.

Foi em 1566 que os dominicanos Jerónimo da Cruz e Sebastião do Canto chegaram ao Sião. A comunidade recebeu-os de braços abertos e as autoridades cederam-lhes casas para uma missão. Só os muçulmanos se mostraram contra e dispostos a agir. Atacaram os portugueses, forçando a intervenção dos padres e depois atacaram os padres. Jerónimo morreu, mas Sebastião, gravemente ferido, pediu clemência real para os agressores.

Os Filipes assumiram a coroa de Portugal em 1580 e nos sessenta anos seguintes, a luta pela restauração da independência fez-se por todo o mundo. E também no Sião. Acossados por holandeses e ingleses nas possessões ultramarinas, os enviados de Portugal, que chegavam de Macau, tentavam, como tentou o padre Francisco da Anunciação, em 1616, denegrir a imagem dos restantes europeus no reino de Ayutahya. Mas sem sucesso e com direito a reprimenda real.

Uma investida pela pequena comunidade que vive perto do colonato revela-se um desastre. Ninguém fala português, nem inglês. São pescadores, tailandeses e pouco dados a conversas. O mistério dos ossos cresce perante a ausência de testemunhos vivos, de alguma ligação ao passado, de algum apelido que tenha atravessado séculos com sabor a Portugal. Nada.

Apesar dos contratempos, a imagem da comunidade melhorava. E no mesmo ano da reprimenda, o rei do Sião envolve guardas portugueses na defesa de Ayutahya. Estes homens casam-se com raparigas locais e, com a ajuda de padres e mercadores, fundam o colonato português. Os seus descendentes vão morrer, em 1767, ao lado dos tailandeses, nas guerras entre o Sião e os invasores da Birmânia, que irão destruir Ayutahya. São os seus ossos que descansam no chão poeirento.

SÉCULOS DE HISTÓRIA

João Pedro Garcia, director do Serviço Internacional da Fundação Gulbenkian, lembra que a ligação de Portugal à Tailândia vai ter 500 anos em 2011. “Somos o país mais antigo a ter relações com a Tailândia, onde o português chegou a ser uma língua diplomática, na qual eram feitos os tratados. Esta será uma data importante”, referiu à Domingo Magazine.

A intervenção da Fundação Gulbenkian, com o apoio do Fine Arts Departmente da Tailândia, permitiu reconstruir e preservar o que resta da presença portuguesa em Ayutahya. “Foi um processo de cooperação que correu muito bem. Um trabalho muito bem feito. Um caso raro em que sobrou dinheiro no final”, diz.

No entanto, João Pedro Garcia admite que talvez seja hora de melhorar, embora algumas cautelas. “Justifica-se plenamente uma sugestão às autoridades tailandesas no sentido de ser fornecida uma melhor informação sobre a história e o passado comum com Portugal às pessoas que visitam Ayutahya. Mas a última palavra será sempre do governo tailandês. Afina, o momumento é deles.”

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