Nenhum jornalismo deve ser panfletário, mas a reportagem que se segue toma um partido intencional. E por quem? Por homens e mulheres acusados de loucura, que afinal não passam de seres fragilizados por uma sensibilidade acima do ‘normal’.
Dr. Jekill & Mr. Hyde" – esta é a primeira ideia que vem à cabeça de quem ouve falar de esquizofrenia, mas, na verdade, esta grave doença psicótica conhece contornos bem diferentes dessas linhas romanescas e, apenas nalguns casos, diz respeito a uma dupla personalidade. Em primeiro lugar, tal como alertará ‘Luís’, um dos doentes com quem conversámos, "cada caso é um caso" e, em segundo, existem nela subtipos irreconciliáveis entre si: paranóide, desorganizada, catatónica, indiferenciada e residual.
Do grego ‘skhico’ (separo) ‘phren’ (mente), esta enfermidade caracteriza-se pela perda de contacto com a realidade e por perturbações profundas — ao nível dos pensamentos e dos sentimentos —, afectando o comportamento exterior, mas não apresentando qualquer relação com a capacidade intelectual. Um terço dos esquizofrénicos sofre apenas uma crise em toda a sua vida; outro terço, várias, alternadas com períodos de ausência de sintomas; o restante concerne aos doentes crónicos, condenados a padecer deste ‘mal’ a vida inteira.
Todos eles, contudo, requerem diagnóstico e tratamento precoces, medicação permanente, assistência psiquiátrica e apoio emocional. Perda das noções do real, identidade e objectivo, negação, delírios e alucinações são sintomas fundamentais: um esquizofrénico acredita que toda a gente lhe está a ler os pensamentos mais íntimos e ouve vozes estranhas, que ora o insultam, ora lhe dão instruções.
"Começamos a sentir-nos irreais e passamos horas ao espelho, a certificarmo-nos de que ainda existimos…"
Com falsas crenças (persecutórias, auto-referenciais e de grandeza), vozes atribuídas à Virgem Maria ou a Deus, aspecto descuidado e comportamento sexual inadequado, bem como aparência imóvel na face, expressão corporal reduzida e diminuição ou ausência de afectos, um esquizofrénico isola-se e pode passar a maior parte do dia na cama. Ele perdeu o interesse pelo trabalho e o prazer nas actividades lúdicas, sentindo no vazio da exclusão a ameaça permanente da morte
Mas, e como facilmente se constata, a esquizofrenia pode bem morar ao nosso lado: segundo o Relatório Mundial de Saúde de 2001, poucas famílias são poupadas a este problema.
Se a maioria das doenças está directamente relacionada com condições de vida, serviços de saúde ou conjuntura económica, esta parece desenvolver-se independentemente dos factores sociais.
Ainda que estudos recentes sugiram que as áreas urbanas podem ser mais férteis nestes casos, a esquizofrenia, como qualquer doença mental, não depende de ninguém e não escolhe geografias.
‘PORQUÊ EU?’
No seio da comunidade médica, não existe consenso quanto às causas desta doença. Julga-se que partirá de uma conjugação de factores: genéticos, bioquímicos e acontecimentos da própria vida. Uma pessoa com uma predisposição natural pode não saber como ultrapassar, por exemplo, a perda de um ente querido ou do emprego, e só nessa altura desenvolve a doença.
A facção mais académica observa deficiências orgânicas: alargamento dos ventrículos laterais, diminuição do tecido cerebral, alargamento dos sulcos corticais, diminuição dos volumes da massa cinzenta e massa branca, assim como do lobo temporal, entre outros. Já a facção da Psicanálise, considera elementos como a ausência de uma mãe afectuosa ou outras experiências de sofrimento. Em qualquer das leituras, a esquizofrenia só é declarada por volta do final da adolescência, princípio da idade adulta.
Experiências de reabilitação têm sido realizadas com sucesso em Portugal: tendo em conta que a doença é caracterizada pelo isolamento e pelo desinvestimento social, efectuam-se, para lá da medicação, tratamentos de reabilitação psicossocial. Uma das responsáveis por este progresso é a ARIA – Associação de Reabilitação e Integração Ajuda, instituição não-governamental criada há 11 anos por um grupo de técnicos de saúde, sem fins lucrativos. A ARIA dispõe de três unidades de vida: autónoma, apoiada e protegida – em residências onde coabitam doentes, dos estáveis aos crónicos (conforme a unidade), aprendendo os cuidados de higiene, a gestão do dinheiro, o cumprimento de horários e rotinas e a preparação de refeições. No seu fórum sócio-ocupacional, a associação apoia a formação com actividades culturais, desportivas, ateliers de arte e inglês, jogos lúdico-pedagógicos e sessões de cidadania, entre outras.
Esta e outras instituições lutam por evitar a estigmatização dos esquizofrénicos. Porque se é comum falar do alcoolismo, poucos aceitam a doença mental.
"A loucura é acessível a qualquer homem. Chamamos loucos apenas àqueles que não regressam dela", escreveu Vergílio Ferreira, em Aparição. E se há algo que as conversas seguintes comprovam, é justamente que nenhum esquizofrénico possui uma característica distintiva de qualquer outro ser humano. Na verdade, ele apenas sente mais, pergunta mais, emociona-se mais e acumula mais dor…
SENTIMENTOS EM EXCESSO
‘BRUNO’ 31 ANOS: UM HOMEM NORMAL
Bruno nasceu em África e, como tantos outros, teve de deixar o seu país. Chegou ao Porto ainda miúdo e, entre os 16 e os 18 anos, teve de enfrentar a solidão de perder ambos os progenitores. Cansava-se sistematicamente dos trabalhos que encontrava, até ao dia em que se tentou matar: a cicatriz que tem no pulso esquerdo recorda-o disso, mesmo que o queira esquecer e, mais grave ainda, parece torná-lo menos ‘apetecível’ que qualquer outro aos olhos dos seus futuros empregadores. Mas "desde que eu tenha a noção daquilo que é real e daquilo que não é, está tudo bem", assegura.
Bruno consumiu drogas e conheceu as primeiras crises, o que o levou a ser internado no Hospital Magalhães de Lemos, onde esperou sete intermináveis meses por uma solução. Agora, insiste para que publiquemos o seu agradecimento ao Dr. Queirós – graças a ele, foi colocado nesta residência e está mais perto do seu sonho: "uma vida normal", já que "ser piloto de Fórmula 1" não é uma actividade acessível à maioria dos indivíduos. Paralelamente, dá constantes sinais de preocupação social: "Em Portugal, tudo se passa muito lentamente. Há milhares de pessoas a sofrer nas ruas, mendigos, alcoólicos e ninguém os ajuda, ninguém."
‘JORGE’ 27 ANOS: “SER FORTE”
Vê-se que é respeitado dentro da casa: é alto, forte e tem uma expressão dura no rosto, por debaixo da sombra do boné. Jorge poderia liderar uma revolução, porque cada frase sua confessa a raiva que lhe vai num "coração bom", como diz Rita, médica naquela instituição. Nasceu em Lisboa, viveu no ‘bairro dos índios’, foi feirante, empregado de restaurante e chegou a tirar a carta de condução. Disseram--lhe que era esquizofrénico aos 19 anos, quando as pernas lhe tremiam e parecia que alguém lhe amassava a cabeça, e receitaram-lhe seis ‘xanax’ por dia. Hoje, não o deixam conduzir, e sempre que chove dói-lhe a cabeça, o que prejudica a actividade em que se está agora a formar: jardinagem.
Jorge perdeu a mãe há poucos anos e tem vergonha das confusões que o pai arma no bairro. Sempre que entra num café, sente que todos o olham e julgam, mas sabe que tem uma doença crónica e que não faria nada sem os comprimidos. Além disto, ou por causa disto, perde-se inúmera vezes em perguntas do género: "Porque é que as pessoas morrem? Porque é que eu sofro? Porque é que as pessoas me gozam? Porque é que não me mato? Porque é que tem de ser assim?"
"Por vezes, choro intensamente em frente ao espelho, porque sinto muito as coisas. Choro, choro, choro intensamente e tento desabafar… No final, gosto um pouco mais de mim. Isso é a esquizofrenia. O nosso problema não vai passar nunca, mas, às vezes, alivia", desabafa.
‘LUÍS’ 31 ANOS: “QUEM ME DERA A PAZ”
A sua história, diz, "é um livro com muitas páginas". Sentado num canto da sala, Luís tem olhar e sorriso de criança e uma certa dificuldade em admitir que os seus problemas começaram antes de tomar medi
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