Investir em segurança deixou de ser um luxo. Para muitos, a videovigilância reforça o sentimento de protecção. E pode ser ferramenta de trabalho. Os pedidos para instalação de equipamentos não param de crescer. Seja para uma empresa ou particular. Para prevenir assaltos ou vigiar o cônjuge. Ou até para controlar trutas e coelhos
Se o furto dói quando toca na bolsa ou na vida, imagine quando bate ao coração. 'Fiquei com medo dos roubos quando em jovem me roubaram uma namorada! Se fosse hoje, tinha-lhe posto um GPS', diz Álvaro Valentim, que reconhece lacuna na técnica. 'Temos alarmes para tudo, menos para os grandes amores'.
Não foi só o desgosto, hoje recordado com sabor de brincadeira, que levou o rosto da empresa Valarme a fazer das fraquezas forças em 1975. 'Comparo este período actual ao pós-25 de Abril. O fluxo de procura era estonteante'. Apartamentos. Automóveis. Lojas. Bancos. Nada nem ninguém tem saído ileso. São cerca de 10 os pedidos diários de equipamentos. Se até há algum tempo 100% das solicitações surgiam depois de casa roubada, já se agiliza a tranca da porta antes que o mal esteja feito. Com uma diferença. 'Dantes havia pedidos e dinheiro. Agora há a agravante de algumas pessoas estarem aterrorizadas e não terem recursos nem para recorrer à segurança privada. Procuram, sobretudo, meios de videovigilância porque mete respeito'.
Deixou de ser novidade haver clientes em dívida, lamenta o senhor Valentim. O mercado divide-se entre 'procura e risco'. Se a primeira é cada vez mais expressiva, a oferta não lhe fica atrás. 'Ficou debilitado desde há uns 8 anos. Era preciso alvará para funcionar, ter seguro de risco e de negligência. Hoje até há pessoas a comprar equipamentos para os estudarem e proceder a assaltos'
Com uma microcâmara de 3mm já é possível dar largas às espreitadelas. São usadas em viaturas, transportes públicos, bancos, restauração e pronto-a-vestir. É caso para recear invasão de privacidade entre uma prova e outra? 'As grandes marcas não se dispõem a instalar câmaras atrás dos espelhos... agora, um simples electricista pode lembrar-se de montá-la numa casa de banho...', alerta. O rigor da captação varia em função do aparelho, claro. 'Há câmaras de alta definição em que automaticamente o sistema capta o rosto da pessoa, faz um fotograma e arquiva-o. Se houver um incidente, a procura no menu é logo pelo rosto e não pela data'.
Bem mais limitadas na minúcia do alcance são as ocultas. Em residências ou estabelecimentos comerciais encontram-se disfarçadas em altifalantes, detectores de fumo, sistemas de ar condicionado. 'A procura é relativa. Por ano, representará 10% das vendas. Nunca permitem a mesma qualidade. As lentes são pequenas e de qualidade limitada.' Mesmo assim, são eleitas por muito boa gente. Suspeita de infidelidade do cônjuge é o motivo ‘cereja no topo do bolo’ das razões. Os nomes de 'muitas figuras públicas e gente da política', permanecem no segredo dos deuses.
Optando pelas câmaras visíveis, é possível monitorizar toda a casa, estando fora dela, seguindo os passos de gente estranha ou familiar a partir do escritório ou qualquer outro local. Em assuntos mais comezinhos, há pedidos para todos os gostos. E obsessões. 'Há muitas histórias, sobretudo com senhoras. Algumas queixam-se que lhes entram em casa, que roubam e estragam coisas, que lhes vão ao frigorífico... e não vai lá ninguém. Isto às vezes parece um gabinete de psicologia. Uma pessoa traumatizada depois de um assalto está muito vulnerável ao investimento. Algumas querem câmaras em todos os lugares. Aconselhamos apenas os sítios nevrálgicos'.
O patrão também se previne. Não dispensa câmaras em casa e, por via das dúvidas, se for preciso meter medo ao susto, confia que o seu pitbull se encarregue do caso. Naturalmente, 'nunca pensamos que nos aconteça'.
O controlo de ameaças pode começar antes mesmo da compra de uma câmara. 'Hoje em dia, os clientes que estão a fazer obras em casa perguntam-me o que acho dos alarmes e câmaras e consideram logo a hipótese de instalação. Com a informatização é possível ter o mínimo de controlo', explica a arquitecta de interiores Filipa Ferreira, também ela vítima de roubo há dois anos. A sua própria casa já estava preparada para esta hipótese, com uma pré-instalação para alarme, quando a nódoa caiu no pano. Na véspera do feriado de 5 de Outubro, quando regressava de uma saída nocturna, encontrou a porta de casa aberta. A proximidade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e da presença de um polícia 24 horas por dia, não chegaram para impedir a ferida na segurança. 'Vivia sozinha naquele prédio. A porta nem sequer estava arrombada. Não tinha a casa remexida, mas levaram-me o computador, relógios, uma pen, um iPod, um MP3. Não era um cenário de caos, mas entrei um pouco em choque'. Na ressaca do episódio, não hesitou na compra de uma câmara de vigilância.
Uma coisa é certa: 'Recorrer a um sistema destes depende muito do sentimento de segurança ou insegurança da pessoa. Por andar na boca do Mundo, a videovigilância é sentida como um reforço da segurança, sobretudo para dissuadir', aponta Carlos Vaqueirinhos, director-geral da Prosegur Activa, afluente do grupo Prosegur. O responsável confirma a tendência: 'Os pedidos de orçamento aumentaram à volta de 30% no segmento residencial. No segmento de negócios, uns 15%'.
Se o padrão de procura se situava nas classes média-alta e alta, está a democratizar-se. 'Geralmente são pessoas entre os 35 e os 65 anos, com algum poder económico, que estão predispostos a investir em segurança em vez de entretenimento'. Tanto homens como mulheres. É difícil apurar o influenciador da decisão mas é fácil perceber que a preocupação com a segurança cresce consoante o nível de exposição pública. 'Temos vários sectores profissionais. Protegemos casas de pessoas conceituadas no mercado português, presidentes de bancos, quadros empresariais de topo'. Por isso mesmo, confidencialidade também é a alma do negócio, sobretudo quando a prioridade é seguir de perto os passos do companheiro ou companheira. 'As pessoas não manifestam o propósito da compra, mas admito essa intenção. Há soluções para tudo', diz o director.
O espectro do Big Brother não altera o sistema nervoso do responsável, que prefere pecados por excesso do que por carência. 'As câmaras não me incomodam nada. Tenho uma perspectiva securita'. Segurança e conforto. Carlos não descarta uma das hipóteses oferecidas por estes sistemas. 'Em situações de viagem ao estrangeiro posso ver os meus filhos'.
Na sua joalharia, Dona Tina não pode. Deve. Ver tudo e mais alguma coisa para que nenhum fio ou pulseira se ausente da loja sem licença. Leia-se: pagamento. Mesmo que as quatro câmaras instaladas reforcem os índices de segurança, todos os olhos são poucos. 'Funcionamos há 15 anos. Felizmente, até à data, nunca aconteceram roubos, mas temos que estar atentos a situações de quem tenta esconder uma peça ou puxar qualquer coisa pela porta', explica. Estabelecimento de recheio apetecível, por excelência, sempre teve alarmes. Há um ano instalou um sistema mais moderno. Faz fé no efeito dissuasor, mas como a segurança 'é relativa', não acredita em milagres. 'Com o que vemos lá fora, é mais um pró-forma. Eles actuam na mesma'.
Se dúvida houvesse que actuam, Ricardo Mateus desfá-la em bocados. 'Olhe, estou agora mesmo a chegar de uma bomba de gasolina que foi assaltada'. Foi esta semana. Como podia ser hoje. O nome do seu estaminé não engana: Watch. Na empresa de sistemas de observação, na Amadora, as câmaras de vídeo são as mais desejadas. 'Temos notado um acréscimo na procura de videovigilância. É mais usada para controlo interno de lojas'.
A carteira de clientes inclui armazéns, pastelarias, logistas. Tudo pode ser cobiçado pela retina de um meliante. Sobretudo 'negócios que metam comida. É muito difícil controlar os stocks. Também há funcionários que desviam dinheiro todos os dias'. Instalação de câmaras em prédios são igual prato do dia. Quanto a assuntos 'periclitantes', que metam marido, mulher, e câmara oculta, não mete colher.
Ricardo Mateus sempre conheceu a Amadora, 'zona complicada' onde estudou. O percurso pendular entre a casa, em Queluz, e a escola nem sempre foi escorreito. Talvez por isso, as câmaras não sejam vistas como intrusas. 'Servem para acusar, mas também para ilibar. Quem não deve não teme'. Nisto de prós e contras da sociedade Big Brother, tudo é relativo. 'Sempre pensei que se houvesse mais câmaras, tinha sofrido menos roubos e agressões. E quem sabe, teria tido uma infância mais feliz'.
ELAS ESTÃO EM (QUASE) TODO O LADO
Estima-se que em Portugal existem cerca de 7000 estabelecimentos públicos e privados equipados com sistemas de videovigilância, nem todos a funcionar legalmente. O próximo ano lectivo marca a instalação de videovigilância em 1200 escolas dos ensinos básico e secundário. Quanto aos tribunais, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, garantiu, no início de Agosto, que o sistema de videovigilância está prestes a ser uma realidade. Em Agosto de 2007 foi regulada a instalação e utilização de sistemas de videovigilância em táxis. Várias cidades avançaram com pedidos para a instalação de câmaras nas ruas. Em Maio, António Costa anunciou a instalação de câmaras a partir de Setembro no Bairro Alto. A zona da Baixa ainda espera resposta. A zona da Ribeira, no Porto, foi a primeira a receber autorização. Esperam-se 13 câmaras a funcionar até final de Janeiro nesta área.
DA EMPREGADA DA LIMPEZA À VIDA SEXUAL DOS COELHOS
Esta semana, o actor Josh Harnett foi apanhado pelas câmaras a fazer sexo na biblioteca de um hotel na muito vigiada Londres, que em 2011 será controlada com câmaras aéreas. Por cá, a videovigilância usa-se para controlar e garantir protecção. A casa, os filhos, a empregada da limpeza, as amas. E não só. 'Desenvolvemos um projecto para um estudo da vida íntima dos coelhos na Serra de Monchique. Agora preparamos um para acompanhar uma criação de trutas', conta Álvaro Valentim.
MAIS 30 POR CENTO DE PEDIDOS PARA INSTALAÇÃO
Em 2007, a Comissão Nacional de Protecção de Dados recebeu 2667 notificações para instalar sistemas de videovigilância, mais 603 (29,9%) do que em 2006. O número tem vindo a aumentar desde o início da década. Segundo as estatísticas acumuladas entre 1994 e 2007, 1381 das sete mil notificações foram apresentadas por centros comerciais, ourivesarias, livrarias, armeiros e cabeleireiros. Hotéis, restaurantes, cafés, pastelarias, bares e discotecas notificaram a Comissão mais de mil vezes, que recebeu 108 notificações de tratamento de dados através de videovigilância em 108 condomínios privados.
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