A voz da rádio “está no ar” – e no imaginário daqueles que dela se alimentam. “Tem aquela magiazinha que – mesmo sendo mal pago – quando a gente lá se mete não quer de lá sair”, personaliza o ‘lobo’ da locução, António Sérgio.
E depois há o outro lado; as colunas do aparelho que funcionam como um apêndice de companhia; um quebra-solidão. “Se há magia neste meio, tem a ver com os filmes que as pessoas fazem na cabeça”, reforça Pedro Ribeiro, um dos animadores do ‘Programa da Manhã’ da Comercial. Há um estar dentro e fora do estúdio que chama a atenção para novos talentos: os animadores de programas. Desapareceram os radialistas.
Não foi para desistir do curso de Enfermagem que Inês Gonçalves abriu o microfone da Cidade FM Ribatejo. “Mas é o melhor emprego do Mundo se a pessoa gostar de música e de falar”, defende. Foi um casting que a prendeu. “Estava na esplanada com os meus amigos. Eles ouviram que a Cidade procurava uma nova voz, e disseram-me: tu és uma fala-barato, estamos sempre a mandar-te calar, participa.”
Do lado de lá ninguém lhe vê o sorriso a cada palavra, mas imagina-se. É jovem na voz – ao estilo dos seus ouvintes, que andam entre os 18 e os 20 anos. Inês tem 23. Nas vésperas do Natal de 2005, abriu-se a porta para também ela ‘estar no ar’. “O choque foi quando ouvi a gravação da minha voz: o quê, sou eu?” A mãe não a reconheceu, mas era ela. Há quem lhe diga que parece mais velha quando fala, mais madura até. Só que o pior surgiu mais tarde, quando se viu sozinha no estúdio: “estava ali eu, a falar para o boneco. Não conseguia ser eu própria. Ao início foi tudo muito difícil. Chegava a casa de rastos.”
Mesmo que seja para passar por tudo isto, há milhares de pessoas a querer preparar uma ‘play list’ de músicas, alinhar um programa, sentar-se frente à mesa de mistura, abrir a via do microfone e gritar – quanto mais não seja – “Good Morning Portugal!”
Que o diga o director de Programas da Comercial, que recebeu 4000 candidaturas ao primeiro casting, lançado em Junho, para uma única vaga de animador. Pedro Ribeiro não descansou nem nas férias de Verão. Ouviu desde uma cozinheira de uma escola preparatória a um cirurgião; licenciados em Comunicação Social e “vozes da TSF, Mega FM, da Nova Era”; modelos fotográficos que até anexaram um portefólio; ou gravações de duas horas para só se conhecer a voz.
“Não importa a idade (e receberam candidaturas desde os 14 aos 62 anos), se têm uma voz potente (a voz colocada da rádio). Não podem é ter problemas de fala. E convém que tenham conhecimentos mínimos da área musical em que a rádio se movimenta” – explica.
Para além disso, o animador tem de ser simpático e divertido. Sem esquecer que estar na rádio não é igual a fazer ‘stand-up comedy’. “Quando chego aqui às 06h00, estou como toda a gente de manhã. Não estou eufórico. Mas com os anos de profissão (e faltam poucos meses para fazer 18), aprende-se a ser descontraído. A animar os outros logo pela manhã” – acrescenta Pedro Ribeiro, aos 36 anos.
A Comercial escolheu 12 finalistas e cada um deles terá a sua oportunidade de fazer rádio para que os ouvintes ajudem a escolher a voz que irá integrar a equipa. Dia 21 de Dezembro, a última sexta-feira antes de Natal, será revelado o nome do mais recente animador.
O PIRATA DA RÁDIO
O pirata da rádio, que já não é pirata porque a rádio deixou de o ser, nunca esquece o passado: “A nossa geração aprendeu sozinha a ouvir quem admirávamos e a fazer como eles. A locução rápida de Luís Filipe Barros, Carlos Cruz no programa ‘Pão com Manteiga’, Herman José” – recorda João de Sousa, 37 anos, professor de Rádio no curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL).
Descontracção e sentido de oportunidade para ‘atacar’ o microfone são características que João de Sousa destaca para quem se inicia na rádio. Se não é fácil fazer rir, pelo menos, o animador deve fazer sorrir.” E depois, aprende-se a ter poder de síntese, a não atropelar a Língua Portuguesa – como trocar restaurante por “restôrante”; empresa por “impresa”. Ou seja, um bom nível de cultura é o que também se exige no curso livre de Animação de Rádio, da UAL, que o professor coordena.
Entre os seus alunos, há um que especialmente lhe reconhece os ensinamentos. A determinação de Pedro Moreira Dias, com 23 anos, já conquistou espaço de antena na rádio Radar. Diariamente põem no ar algumas das promessas musicais portuguesas, no programa ‘Agência Lusa’, e, das 23h00 à meia-noite, de segunda a sexta, embala a escuridão com o ‘Bairro do Amor’. Semanalmente, apresenta a ‘Hora do Bolo’ – onde o ouvinte escolhe as músicas e dá voz a uma hora de emissão. A somar a esta vida preenchida, Pedro, que ainda tem umas cadeiras penduradas do curso, faz informação na Marginal, também na Grande Lisboa.
“Não gosto muito do epíteto de animador. Parece, qualquer coisa do género, ‘ah, vamos animar a malta’”, confidencia Pedro Moreira Dias. Depois de um estágio de três meses na Radar, o director chamou-o e disse-lhe que tinha trabalho planeado para si. A alegria encheu o rosto do estagiário: “disse-me é que não me podia pagar muito [o salário mínimo nacional]. Mas se fosse de graça, até assim ficava”, diz. Mais tarde, seguiu-se o contrato e o aumento.
RÁDIO UNIVERSIDADE DE COIMBRA
Bem diferente – mas com muita tradição – funciona a RUC, Rádio Universidade de Coimbra. António Sérgio, homónimo da grande voz que passou pela Best Rock FM com ‘A Hora do Lobo’, dirige os programas. “Sendo uma rádio pequena, a RUC exige um desdobramento constante dos seus sócios em várias actividades que escapam à do típico locutor”, diz António, com 21 anos. Assinam protocolos, fazem passatempos, entrevistas, spots, organizam concertos. Tudo pela movida coimbrã.
“Nenhum locutor é monetariamente recompensado” e, mais, para chegar ao microfone precisa de fazer formação. A 15 de Dezembro começa o curso de Locução e Realização. “Todos os locutores da RUC são movidos pela paixão, seja pela música, pela comunicação, ou pela própria onda radiofónica”, resume o estudante de Medicina Dentária. Para António, a força de vontade que os une é o melhor pilar para se tornarem grandes profissionais. Mesmo que seja só enquanto o curso universitário durar.
ANTÓNIO SÉRGIO CONFESSA QUE SER TRATADO POR ANIMADOR DE RÁDIO É "BAIXAR DE NÍVEL"
- Mais música e menos locução é assim que se caracteriza a rádio dos dias de hoje?
- Infelizmente há uma formatação, que já não é de agora. Acentuou-se em 1998. Temos praticamente a mesma música a tocar, quase simultaneamente, em várias rádios. Deve-se, por um lado, à contratação de estudos de mercado. Por outro, às batalhas de audiências.
- E isso muda o conceito de rádio?
- O ouvinte precisa alimentar o seu imaginário.
- Acabaram também os programas de autor...
- A rádio de autor continua, para mim, a ser muito importante. Cheguei até a duvidar que o programa de autor poderia voltar. Hoje, a questão de ter sido afastado da grelha da Comercial acabou por não ser tão negativa. Acredito que seja necessário haver programas de mensagem.
- Nas rádios nacionais ou locais?
- As rádios locais estão a conseguir recuperar, não diria que a rádio de autor, mas a de mensagem. O problema são as ‘playlist’, que encurtam a hipótese de fazer programas de autor.
- O termo radialista morreu?
- Já não existe um locutor de rádio ou se usa o termo radialista - utilizado por alguma imprensa e que é suficientemente vasto para eu não passar nenhuma vergonha. No meu cartão da RDP eu era realizador de rádio. Passei a ser animador, na Comercial. Desanima-me ser tratado por animador. É um baixar de nível em termos de funções…
- Gosta de ouvir os animadores de rádio mais novos? Exprimem-se bem?
- Oiço boas vozes, mas também há uma série de gente que não devia ter acesso aos microfones. Falar bem português é uma boa regra para mim. E muitos não o fazem.
QUEM QUER SER ANIMADOR
A rádio Comercial abriu o seu primeiro casting, para um lugar de animador, a 2 de Julho. Receberam cerca de 4000 candidaturas. Bastava uma gravação curta e um perfil, também ele, sintético.
O anúncio fez sonhar, por exemplo, uma professora de História que nunca fez rádio na vida; um jovem açoreano disposto a pagar a passagem aérea do seu próprio bolso para fazer os testes, em Lisboa, mesmo não sabendo se seria seleccionado; um candidato que colocou no currículo que já foi trapezista; ou várias raparigas que são manequins e juntaram o seu portefólio fotográfico.
PEDRO MOREIRA DIAS
Idade: 23 anos
Estação: Tem três programas na Radar (Lisboa), já deu voz nas cinco rádios da Luso Canal.
INÊS GONÇALVES
Idade: 23 anos
Estação: É uma das vozes da Cidade FM, no Ribatejo. Venceu um casting e em finais de 2005 soube que ia ser animadora de rádio. Inês nunca tinha pensado ter uma profissão fora da área da Saúde – a prova é que frequenta o curso de Enfermagem.
PEDRO RIBEIRO
Idade: 36 anos
Profissão: Director de programas da Comercial. Faz o ‘Programa das Manhãs’ na mesma emissora. Começou a trabalhar na rádio há quase 17 anos.
ANTÓNIO SÉRGIO
Idade: 21 anos
Estação: Director de programas da RUC, Rádio Universidade de Coimbra.
ANTÓNIO SÉRGIO
Programa: Estreia amanhã o programa ‘Viriato 25’, na Radar FM (em 97.8 – Lisboa). Na Best Rock fez ‘A Hora do Lobo’.
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