O maestro Álvaro Cassuto só tinha um sonho: reger orquestras. Mas o pai, um refugiado judeu alemão de ascendência portuguesa, desconfiado que a Música não desse ao filho uma forma de subsistir, advertiu-o que só apadrinhava a ideia, no caso de, também, estudar Direito.
Quando se quer, tudo se faz, podia ser outra lei de Lavoisier. E um ano após ter cumprido a vontade paterna, diploma-se no Conservatório em Viena.
Insatisfeito com a visão cultural portuguesa, abandona o cargo de maestro assistente da Gulbenkian, e em 1968 vai para os Estados Unidos da América. É na terra do ‘tio Sam’ que a sua carreira se expande aos quatro ventos. Em 1986, regressa com uma pronúncia nova-iorquina e com baterias: funda a Nova Filarmonia Portuguesa e mais tarde, a Orquestra do Algarve.
Enquanto a Intifada pulverizava o Médio Oriente, dirigiu a Israel Raanana Orquestra sem que as notas musicais tremessem. Arreda a fama de "mau feitio" com um adágio germânico que ouvia da boca do seu avô: "cinco minutos antes da hora é a pontualidade do soldado", diz com a serenidade estampada no rosto. Desde 2004, é o Director Artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa.
- É um maestro licenciado em Direito....
- É verdade! A razão explica-se rapidamente; o meu pai disse-me que só me ajudava na carreira de maestro, caso eu completasse um curso superior. Pareceu-me a maneira mais eficaz de atingir o meu objectivo. E eu não tinha nada a perder. Além do mais, nos anos 50, em Portugal, as perspectivas musicais eram menos que poucas. Nada indicava que a Música me garantisse um modo de ganhar a vida. Claro que não foi fácil conciliar as duas coisas.
- Como geriu dois cursos em simultâneo?
- Metade do ano ficava em Portugal para me dedicar ao Direito, e nos outros seis meses, com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, estudava Direcção de Orquestra em Berlim e em Viena. Quando finalizei os estudos na Universidade, dediquei-me exclusivamente à parte musical. Fui para Viena terminar o curso no conservatório, onde obtive o diploma de Director de Orquestra. Tinha 22 anos, era um jovem! Mas já dirigia a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional.
- Qual foi a razão de, entre 1968 e 1986, ter ido viver para os Estados Unidos da América?
- Fui-me embora de Portugal porque verifiquei que as saídas cá continuavam a ser quase nulas. Apesar de quando regressei em 1965, de Viena, já ser maestro assistente da Gulbenkian, senti que não ia sair da "cepa torta". Se hoje Portugal ainda é uma província da Europa, naquela altura era muito mais... acreditava que era mais eficaz para o desenvolvimento da minha carreira ir para os EUA do que ficar cá. Logo que lá cheguei participei num concurso para chefes de orquestra. Ganhei o Koussevizky Prize em Tanglewood, o mais importante galardão atribuído a um jovem chefe de orquestra. Este prémio abriu-me imensas portas. Por essa altura, fui nomeado subdirector da Orquestra Sinfónica da Radiodifusão Portuguesa. Mas vinha a Portugal de quando em quando. Em 1974, convidaram-me para ser Director Artístico e maestro titular da Orquestra da Universidade da Califórnia, cargo que exerci durante cinco anos. Depois fui Director da Rhode Island Philharmonic (1979-1985) e da National Orchestra de Nova Iorque (1981-1986).
- Curiosamente, em 1986, quando regressa de vez a Portugal, a Orquestra da Radiodifusão é extinta e o seu cargo desaparece...
- Na verdade a sua extinção foi anunciada nesse ano, embora ainda sobrevivesse por algum tempo. Fiquei no desemprego... e eu que tinha regressado a Portugal a convite do ministro da Cultura Coimbra Martins, para integrar uma comissão com o objectivo de resolver os problemas das Orquestras da Radiodifusão. Mas o Governo caiu e o seguinte decidiu acabar com as Orquestras. Sobravam-me duas alternativas: voltar para os EUA ou criar uma iniciativa por minha conta e risco.
- Refere-se à Nova Filarmonia Portuguesa?
- Sim. Pus-me em campo para obter as verbas necessárias, através de patrocínios empresariais, ao abrigo da Lei do Mecenato que acabara de ser aprovada. O então recém-eleito presidente da República, dr. Mário Soares atribuiu o seu Alto Patrocínio à iniciativa e a dr.ª Maria Barroso foi sua Presidente de Honra. Contratei músicos em Portugal e no estrangeiro. Trouxe um núcleo que já conhecia dos EUA. Fiz concursos nos países do Leste europeu, onde havia excelentes profissionais e que tinham a vantagem de vir por salários razoáveis. E claro, também inseri jovens portugueses.
- Que acabou por determinar o convite do Governo, que lhe atribuiu a responsabilidade de formar a Orquestra Sinfónica Portuguesa... no entanto, em 1998, quando esta foi integrada no Teatro Nacional de São Carlos, o seu cargo evaporou-se...
- Na verdade, o meu cargo de Director Artístico da OSP foi eliminado. A razão era simples: eu defendia uma Orquestra Sinfónica Portuguesa não só no nome mas também em actividade – a principal orquestra do País sediada na capital. Os meus adversários defendiam uma orquestra ao serviço de um teatro de ópera, o Teatro Nacional de São Carlos. Foram eles que ganharam. Tornei a ficar no desemprego! Porém, esta situação ainda hoje não está resolvida... Pouco tempo depois, fui convidado para Director da Israel Raanana Symphony Orquestra.
- Em plena Intifada...
- Essa situação não me incomodava muito. Como eu dizia, morriam muitíssimas mais pessoas nas estradas portuguesas do que durante a Intifada. Era mais perigoso andar de carro em Portugal do que numa rua em Israel.
- E então, porque saiu?
- É que a Intifada afectava a vida das pessoas, a vida da Orquestra. Os músicos mais jovens eram, constantemente, chamados para o serviço militar. Muitas vezes faltavam músicos e não havia a possibilidade de os substituir.
- Mal chegou a Portugal já tinha uma nova ideia: Orquestra do Algarve...
- Havia um projecto antigo, do tempo em que Pedro Santana Lopes era secretário de Estado da Cultura, que consistia em criar uma rede nacional de orquestras. Contactei alguns autarcas algarvios com a finalidade de criar uma orquestra no Algarve. Se já existia uma no Norte e outra nas Beiras, faltava uma no Sul! O Ministério da Cultura abriu um concurso para a criação de uma Orquestra no Algarve. O meu projecto, aprovado e submetido pelas entidades locais, ganhou o concurso. A nomeação de Director Artístico recaiu sobre a minha pessoa e por três anos mantive esse cargo. A princípio, a orquestra desenvolveu-se de forma espectacular. Porém, pouco a pouco, as vicissitudes e forças locais impuseram-se.
- E enquanto exercia esse cargo, surge o desafio de ser Director Artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, e optou por deixar o Sul...
- Porque é um trabalho com muito mais interesse do que dirigir uma Orquestra no Algarve. Por muito boa que ela fosse, não deixa de ser uma orquestra sediada na província. E eu vivi sempre em grandes cidades. Neste contexto, o Algarve é bastante limitado. Por outro lado, vivo na Malveira da Serra, a minha mulher está aqui, e na minha idade prefiro concentrar as minhas energias e não perder tempo andando de um lado para o outro.
- Como está a Música em Portugal?
- Estamos muito mais desenvolvidos na medida em que, hoje, existem mais iniciativas culturais do que há 40, 30 anos atrás. E há muito mais público do que dantes. Um público muito mais interessado e mais desenvolvido. Há muitos jovens. As salas enchem. Mas não nos podemos esquecer de um factor extremamente importante: Lisboa, como cidade, tem 600 mil habitantes mas a área metropolitana tem cerca de três milhões. E as actividades culturais de maior envergadura desenvolvem-se em Lisboa, designadamente no Teatro Nacional de São Carlos e na Fundação Gulbenkian. Ora, as pessoas que vivem (e muitos trabalham) fora de Lisboa, não têm tempo para, regularmente, assistir a espectáculos.
- Considera que as autarquias, fora da cidade de Lisboa, não possuem meios?
- Possuem meios, mas carecem de infra-estruturas adequadas! Basta dizer que o Teatro Nacional de São Carlos, criado em 1793, é o único edifício que existe em todo o país que se dedica à Ópera. Devia haver alternativas.
- Os organismos estatais não ajudam?
- Claro que ajudam! No entanto, nas nossas entidades públicas não são muitos os responsáveis que têm um ‘background’ em gestão artística. Há também uma constante mudança a nível governamental, e esta instabilidade reflecte-se nas instituições – na Educação, na Saúde, em coisas mais fundamentais do que a Música. Mas também se nota nas instituições musicais. Julgo que deveria haver "pactos de regime" para determinadas áreas, como é o caso da Cultura.
- Os concertos da Orquestra Metropolitana de Lisboa saem da capital?
- Claro que sim. As orquestras devem ir ao encontro do público. E como, para além do apoio da Câmara Municipal de Lisboa, a Orquestra Metropolitana de Lisboa também tem o apoio de muitas outras instituições estatais como também de várias autarquias, podemos abranger mais pessoas, aquelas que habitam fora de Lisboa-cidade.Por isso, também fazemos concertos aos sábados e aos domingos à tarde... Para outros públicos, para além da minoria dos "habitués"!
- Por exemplo, este ano realizaremos séries mensais de concertos na Sociedade de Geografia, no Casino Estoril e na Aula Magna da Reitoria da Universidade. Mas iremos também a muitas outras localidades para além da cidade de Lisboa.
- Qual é o critério da vossa programação?
- Cativar e conquistar novos públicos. Para tal abrimos a época com Mozart, por ocasião do 250.º aniversário do seu nascimento. Mas a nossa escolha é bastante vasta. Tocaremos obras clássicas e outras contemporâneas. Claro que estão incluídos Haydn, Schubert, Beethoven, Tchaikovski e dezenas de outros compositores, incluindo muitos do século XX. E também portugueses, abrangendo vários do século XXI!
- É verdade que tem mau feitio e que não perdoa um atraso?
- Não! O que eu tenho é certos princípios de que não prescindo. Sou um profissional e oriento-me por certas regras. Já em casa, aprendi a ter muita disciplina. Os meus pais eram judeus alemães, e impuseram-me uma educação em que o rigor, o sentido de responsabilidade, acima de tudo a disciplina, são dados adquiridos. Depois, vivi perto de vinte anos nos Estados Unidos. Se está marcada uma reunião para as 11 horas, não é às onze e cinco, não é? O meu avô citava um provérbio alemão que dizia "Cinco minutos antes da hora é a pontualidade do soldado." Nasci em Portugal e sei que a forma de estar aqui é muito diferente da educação que eu tive e dos hábitos que adquiri fora. No entanto, a maneira de viver no nosso país é, por vezes, prejudicial à eficácia e aos resultados que se pretendem atingir. Se eu sou responsável pelos resultados, naturalmente tenho de seguir um certa disciplina de funcionamento. Daí dizerem que eu tenho mau feitio...
- A sua discografia é extensa e variada. Julga ser importante "eternizar" a Música?
- As grandes orquestras internacionais são conhecidas fora dos seus países através das gravações, porque elas não estão sempre a viajar. Enquanto estive na Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra gravou 2 CD, e desde aí, nunca mais. Com a Nova Filarmonia gravámos mais de 20 CD para as etiquetas Movieplay Portuguesa e EMI Classics. Gravei 5 CD para a Marco Polo (NAXOS), com a Integral das Sinfonias de Joly Braga dos Santos.
- Por quem, particularmente, nutre uma especial dedicação...
- Sim. É verdade. E a melhor homenagem que posso fazer a este grande mestre da Música, é internacionalizar o seu prestígio. A editora Marco Polo tem uma difusão mundial sem paralelo. Joly Braga dos Santos é ouvido por esse mundo fora. E pelas críticas (e prémios) que os seus CD mereceram, pode afirmar-se sem hesitação que ele é mais apreciado fora de Portugal do que cá. "Santos da casa...".
UM PAÍS
Portugal... mas reformado e revitalizado!
UMA PESSOA
A nível pessoal, meu pai. A nível profissional, Herbert von Karajan.
UM LIVRO
O que me apetece no momento...
UMA MÚSICA
Impossível... são tantas!
UM LEMA
Levar o barco a bom porto.
UM CLUBE
Demasiado limitado, claustrofóbico...
UM PRATO
Felizmente são vários...
UM FILME
Aquele que me agrada.
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