Impedida de participar em 2012, Emília David está de volta às festas de Almeirim com o pão típico, cujo nome faz corar quem o compra.
Fazer caralhotas parece ser mais fácil do que pedi-las sem esboçar um sorriso, rebentar em gargalhadas ou até ficar corado. Pelo menos é mais fácil para Emília David, de 64 anos, cujas últimas três décadas e meia foram passadas junto ao forno de lenha da sua casa, perto da praça de touros de Almeirim, onde faz o pão típico da cidade ribatejana.
Maiores do que os papos-secos e carcaças que fazem parte dos pequenos-almoços e lanches noutras partes de Portugal, as caralhotas têm cerca de 15 centímetros de diâmetro, são ligeiramente mais salgadas e só irão desapontar quem estiver à espera de observar um pão de formato fálico.
"Caralhota é como se chama ao borboto das camisolas. Havia uma velhinha que estava a cozer pão e a filha raspou o alguidar e fez uma bolinha com os restos. Quando a senhora perguntou o que estava a fazer, respondeu: ‘Uma caralhota, mãe.' E ficou assim", relata a padeira.
Também não foi por causa do nome do pão - tão típico de Almeirim quanto a sopa da pedra - que a dona da Caralhotas da Caldeira teve o desgosto de ser excluída das Festas da Cidade no ano passado, depois de marcar presença em todas as edições anteriores. As coletividades ligadas à Câmara Municipal votaram a favor da exclusão de comerciantes privados.
"Como eu tenho a casa aberta durante o ano inteiro, eles queriam aproveitar aquelas semanas só para eles. Foi uma injustiça. Tenho divulgado tanto a caralhota de Almeirim e não merecia o que me fizeram", explica Emília David, ainda magoada com o que aconteceu, embora já tenha sido informada pelo vereador José Carlos Silva de que este ano pode voltar a participar nas Festas da Cidade, que arrancam no próximo sábado, dia 15, mantendo-se até ao domingo da semana seguinte no Jardim da Biblioteca.
A padeira garante que a impossibilidade de estar na edição anterior deu azo a muitas críticas da população: "Eu até chorava a ouvir as crianças a dizer que não iam por não haver o meu pãozinho com chouriço, pãozinho com bacalhau, pãozinho disto e daquilo."
SEGREDO PARA A FAMÍLIA
Enquanto pousa junto ao balcão um tabuleiro de caralhotas doces, recheadas de açúcar, canela e nozes, e cobertas de maçã, Emília prepara mais uma fornada, repartindo a massa que ficou a levedar de véspera em duas dúzias de pães. Acerca dos ingredientes, mais do que a farinha ou o sal, realça a necessidade de "nunca esquecer 150 gramas de carinho". Assim terminam todas as receitas no livro que está a fazer "para deixar aos filhos, porque está tudo na minha cabeça". Foi mãe seis vezes, mas Paula é a única que a ajuda "nos bolos e no pãozinho". Ainda assim, não duvida de que os filhos e os dez netos "se orgulham de uma grande portuguesa".
Numa parede da padaria, junto à caixa registadora, tem escrita a história de uma vida passada a fazer pão, sete dias por semana, todos os dias do ano - "No Natal e no Ano Novo estou sempre a trabalhar", assegura, avisando que "se um dia parar, não sei se não morro logo" -, numa série de quadras que terminam com a rima que serve de resposta aos clientes mais curiosos: "O segredo da caralhota, nunca vos hei de dizer/ Porque hei de ser velhinha e continuar a cozer."
Mantendo o mistério acerca das quantidades dos ingredientes, revela algumas pistas, como a forma como fura a massa com os cinco dedos da mão, "que é para crescer", e a obrigação de manter o forno "muito quentinho", atirando-lhe farinha para avivar as chamas, mesmo que disso resultem ligeiras queimaduras nos braços. Ou fazer "como os antigos", virando costas ao forno e fazendo o sinal da cruz enquanto diz: "Que Deus te acrescente, e que cresças tanto como as abas do meu cu."
TROCADILHOS DA CARALHOTA
A jornada de trabalho começou às seis da manhã, cinco horas antes de António Seabra entrar na Caralhotas da Caldeira. Habituado ao produto tradicional de Almeirim, acredita que "ninguém liga" ao nome tirando os forasteiros, e deixa uma devida homenagem à padeira: "Quando às duas e três da manhã já se beberam umas cervejitas e começa a dar a fome, o que nos vale é esta senhora."
Emília David faz grande parte do seu negócio num restaurante de Almeirim, onde vende ainda mais ao fim de semana, quando "gente de norte a sul" descobre o produto das suas mãos, e do "amor e carinho que põe nas coisas". É também aí que sucedem algumas das situações mais caricatas, como aquela vez em que uma senhora hesitava em chamar o pão tradicional pelo nome. "Dê-me aí uma coisinha dessas...", hesitava a freguesa, até que a padeira ajudou: "Uma caralhota, menina?". Ao ouvir o nome, meteu a mão à boca, expondo o seu embaraço, mas depois comeu-a "com uma satisfação que não imagina" e ficou com tanta vontade de repetir que se equivocou ao pedir mais uma meia dúzia. "Dê-me aí seis cara...", pediu, motivando uma gargalhada contagiante.
Para quem começou a fazer pão aos 30 anos, ensinada pela sogra, distribuindo-o de bicicleta nos saquinhos que ainda hoje tem expostos na padaria, Emília não dá sinais de cansaço. "Eu falo com a massa e com o pãozinho, quando estou a pô-lo dentro do forno, e tenho sempre Jesus ao meu lado", garante.
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