Em 2001 uma quantia astronómica entrava na conta da família Almeida. Apesar das duas casas e três carros, vivem à conta do subsídio estatal e esperam por mais apoios.
São donos de um património invejável. Têm duas moradias, avaliadas em setecentos mil euros, e três carros topo de gama. Foram bafejados pela sorte em 2001, ganharam numa sociedade 600 mil euros no Totoloto. Oito anos volvidos vivem à conta do Estado.
Para a Segurança Social, é tudo legítimo. A família Almeida não tem liquidez e a ajuda é fundamental. Todos os meses entram 365,56 euros na residência familiar. A mãe e o filho também aguardam por nova ajuda da Segurança Social.
"Trata-se de um agregado desestruturado, com um quadro familiar muito complexo. Enriqueceram subitamente e não demonstraram ter as competências necessárias à gestão do património, bem como à perspectivação do seu futuro. Para além da falência da empresa que criaram, viram-se sem qualquer tipo de rendimentos líquidos, embora com património", explica à Domingo fonte do Instituto de Segurança Social (ISS), ao enquadrar a decisão de dar a esta família o Rendimento Social de Inserção (RSI).
Tudo legal segundo o Estado, mas também segundo a família. Os populares que conhecem a história é que não percebem e criticam a decisão. Fábio, o filho do casal, responde com simplicidade: "Isso que as pessoas dizem não interessa, porque a Segurança Social sabe de tudo o que se passa, está lá tudo escrito". Todavia, o filho do casal garantiu à Domingo que o pai não recebia Rendimento Social de Inserção: "É só uma pensão de invalidez de 190 euros, nada mais. Se ele não trabalha tem direito". Maria Augusta também fica indignada com a desconfiança: "Ainda estou à espera de receber, porque tenho direito. O meu filho também está à espera e as técnicas da Segurança Social já me disseram que seria beneficiado. Eu é que preferia que ele fosse trabalhar e ganhasse melhor. 190 euros não chegam para viver".
Jorge Queiroz, proprietário do café em que o boletim foi registado, não quer polémicas. Para ele tudo é comercial, não há lugar a opiniões. "Foi bom ter dado o prémio. Agora a vida deles é só deles. Não me quero meter".
PATRIMÓNIO SEM RENDIMENTO
Mãe e filho reconhecem que o património que têm hoje é, porventura, mais valioso do que o prémio que ganharam em 2001. Tudo está a venda, dizem. O objectivo está definido: uma vida nova, longe daquele lugar, e diferente, se possível. França pode ser o destino, pois há mais trabalho e mais adequado para José, que tem limitações físicas. "Lá o trabalho é mais leve e ele não se pode esforçar muito. Cá não pode trabalhar, faz só uns biscates, umas coisas tipo servir churrasqueiras, em que ele é perito", justifica Fábio.
As preocupações com a saúde de José Carlos são justificadas. Tem uma bala alojada junto à medula. Qualquer movimento brusco pode ser fatal. Uma discussão há dois anos terminou quase em tragédia familiar. José e Maria voltaram a entender-se, mas ficaram as sequelas. "Agora estamos bem", disse secamente Fábio, sem se querer alongar no tema.
O histórico da família do Vale do Sousa com o Instituto da Segurança Social tem quase cinco anos. "A Sr.ª D. Augusta requereu pela primeira vez a prestação do Rendimento Social de Inserção em Outubro de 2005. Este requerimento foi indeferido por falta de preenchimento das condições específicas de atribuição (inscrição em centro de emprego). A prestação foi requerida novamente em Outubro de 2007, tendo sido deferida, uma vez que se enquadrava nos requisitos legalmente exigidos", relata fonte do ISS.
"As duas casas que o agregado familiar possui encontram-se à venda numa imobiliária, uma delas já desde 2007. A segunda habitação, que não a residência actual, foi considerada no cálculo da prestação do RSI", acrescentou a mesma fonte. De assinalar que Maria requereu há três meses a pensão de invalidez, mas foi considerada apta pela junta médica.
Fábio e Maria Augusta assumem alguns erros, que trouxeram desgostos à família, mas mesmo nesses falhanços parecem unidos. "Fizemos sempre tudo com a concordância de todos. Sentávamo-nos, discutíamos e decidíamos. Sempre foi assim", conta Maria Augusta. Preferiram arriscar, à estabilidade dos juros. Os sonhos foram maiores do que a segurança. "Há coisas que não gosto nada de recordar", finaliza Maria.
OITO ANOS E TUDO MUDOU
Passaram oito anos o tempo suficiente para tudo mudar. A exuberância da noite mágica em que os seis números bateram certo com as seis cruzes e multiplicaram a conta bancária da família Almeida para números milionários não se apaga da memória. O tempo passou, mas os problemas familiares graves, uma falência, dinheiro esbanjado e a incapacidade para trabalhar do homem que era "um artista nas obras" roubaram os sorrisos. Dos milhões do prémio, o ganho mensal destes "excêntricos" vem agora da Segurança Social, na forma do Rendimento Social de Inserção.
"Foi um grande dia, como é normal. Até fui eu que fiz a chave. Mas ao quinto número, não vi mais. Não aguentei. Mostrei ao meu pai e ele viu que tínhamos os seis números: o Totoloto completo. Foi uma alegria. Fomos a correr para casa dos meus tios para festejar", relembra à Domingo Fábio, de 21 anos, mas ainda com o frenesim dos 12 que na altura tinha.
As possibilidades ganharam número proporcional às vontades na pequena localidade rural de Várzea da Ovelha e Aliviada, Marco de Canaveses. Os pais, José Carlos e Maria Augusta, só queriam uma casa maior– tipo vivenda – para sair do pequeno anexo em que viviam. Também gostavam de carros, e o pequeno Peugeot já não servia. Na garagem, deu lugar a um potente Rover, um Mazda e, depois, a um Mercedes. A empresa de construção que sempre ambicionaram podia agora nascer.
Eles sonharam e tudo surgiu. Mas não da forma que imaginaram. O caminho para a felicidade teve inúmeros percalços. "Se fosse hoje preferia não ter ganho porque apesar de o dinheiro trazer coisas boas, também nos prejudicou muito", diz, peremptória, Maria Augusta.
Fábio abana com a cabeça, em sinal de desaprovação. "Não sou da mesma opinião. O dinheiro é bom. Não traz felicidade mas ajuda. Para se ser feliz pode-se ou não ter dinheiro, isso depende de nós", atira o jovem.
PERFIL
Fábio Almeida tem 21 anos e namora há dois. Quer casar e estabilizar.
REVOLTA
Não perdoa os que o pai ajudou e lhe viraram as costas.
MIÚDO
Tinha 12 anos e foi ele que preencheu o boletim.
"A CASA JÁ ESTEVE À VENDA POR 500 MIL EUROS"
Imponente e majestosa, a vivenda é bem visível a quem se aproxima da encosta. Quem a vê de fora percebe automaticamente que aquela é uma moradia faustosa e imagina que não seja barata. Fábio, o filho do casal, desfez as dúvidas à Domingo e revela que a casa já esteve à venda por "500 mil euros".
A família tem ainda outra casa, feita anos depois de serem bafejados pela sorte. Fica em Tabuado, a poucos quilómetros da casa em que vivem. A nossa reportagem visitou a casa e a placa "Vende-se" é bem visível. A habitação está ainda por acabar. Ainda assim o valor pedido para a compra não é baixo. "Essa está avaliada em 240 mil euros", diz o jovem de 21 anos. "Se precisássemos mesmo, tínhamos de baixar o preço para vender".
"ERA MUITO MIÚDO E QUIS UMA MOTO 4"
A excitação de ter nas mãos o prémio do Totoloto é difícil de esquecer. Um momento único na vida. A felicidade transborda e todos as vontades e planos surgem à velocidade da luz. Ainda para mais, era apenas um rapaz de 12 anos. "Era muito miúdo e quis uma moto 4. Acho que é normal", diz o jovem, agora com 21 anos, à espera de aprovação. Esses momentos de alegria misturam-se agora na cabeça de Fábio com algum ressentimento. Mágoa com aqueles a quem o pai deu e não souberam agradecer. "Há muita gente invejosa e que nos quer mal. Mas eu com esses posso bem", concretiza, com o olhar perdido na paisagem.
"SOMOS O PAÍS QUE MAIS GANHA A SEGUIR À FRANÇA" (Pires Antunes, Santa Casa da Misericórdia )
- Qual a utilidade do Gabinete de Apoio ao Alto Premiado?
- Desde Março de 2005 que este grupo dá ajuda aos vencedores de prémios de mais de um milhão de euros. Actualmente, a prevalência vai para os casos do Euromilhões, mas temos também apoiado jogadores do Loto 2, Lotaria e Totoloto. Aliás, este tipo de experiência já existe um pouco por toda a Europa como, por exemplo, no Reino Unido, Espanha e França.
- Como é que se concretiza o vosso trabalho no terreno?
- A partir do momento em que somos contactados servimos de mediadores. Estabelecemos o contacto com o premiado e analisamos o caso. De qualquer modo, oferecemos sempre protecção ao felizardo. Se for caso disso, e se houver ameaças, avisamos também as forças de segurança. Noutras situações asseguramos ainda apoio jurídico e psicológico.
- Já ajudaram alguém a nível psicológico?
- Sempre que nos é solicitado, fazemo-lo. Mas, na realidade, só uma vez isso sucedeu. Tratou-se do familiar de um dos premiados, mas nem sei se os problemas nasceram com o prémio ou se já vinham de trás.
- Os vossos serviços são muito requisitados?
- Repare que Portugal é, a seguir à França, o país como mais vencedores. Já contabilizamos 30 excêntricos. Os pedidos mais frequentes são de nos deslocarmos a uma instituição bancária para entregarmos o prémio.
"NÃO CONCORDO QUE RECEBAM OS SUBSÍDIOS"
O conhecimento profundo das gentes de Várzea da Ovelha e Aliviada, no Marco de Canaveses, que os oito anos à frente da junta de freguesia lhe deram, permitem a Carlos Monteiro apontar certeiro na sentença. "São boas pessoas, isso é inquestionável. Mas a verdade é que ganhar tanto dinheiro deu-lhes a volta à cabeça".
A vaidade é outra das justificações para que a felicidade não durasse para sempre. "Sabe como é, construíram uma casa de luxo e depois fizeram outra. O negócio começou a correr mal e não conseguiram vendê-las". No entanto, quando o tema é o rendimento mínimo, Carlos Monteiro abana a cabeça e o desagrado é evidente. "Não concordo que recebam subsídios".
NOTAS
MILHÕES
Em 2001, o prémio da sociedade feita em Várzea da Ovelha foi de cerca de 1 milhão e 200 mil euros.
EXEMPLO
O sócio da família Almeida é apontado pelo presidente da Junta como um exemplo na gestão.
BISCATES
O autarca, Carlos Monteiro, diz que José Almeida faz uns biscates, mas que não declara esses rendimentos.
VÍCIO
Um milhão de portugueses teve problemas com o jogo ao longo da vida e 200 mil caíram no vício.
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