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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Família milionária recebe agora rendimento mínimo

Em 2001 uma quantia astronómica entrava na conta da família Almeida. Apesar das duas casas e três carros, vivem à conta do subsídio estatal e esperam por mais apoios.

08 de novembro de 2009 às 00:00

São donos de um património invejável. Têm duas moradias, avaliadas em setecentos mil euros, e três carros topo de gama. Foram bafejados pela sorte em 2001, ganharam numa sociedade 600 mil euros no Totoloto. Oito anos volvidos vivem à conta do Estado.

Para a Segurança Social, é tudo legítimo. A família Almeida não tem liquidez e a ajuda é fundamental. Todos os meses entram 365,56 euros na residência familiar. A mãe e o filho também aguardam por nova ajuda da Segurança Social.

"Trata-se de um agregado desestruturado, com um quadro familiar muito complexo. Enriqueceram subitamente e não demonstraram ter as competências necessárias à gestão do património, bem como à perspectivação do seu futuro. Para além da falência da empresa que criaram, viram-se sem qualquer tipo de rendimentos líquidos, embora com património", explica à Domingo fonte do Instituto de Segurança Social (ISS), ao enquadrar a decisão de dar a esta família o Rendimento Social de Inserção (RSI).

Tudo legal segundo o Estado, mas também segundo a família. Os populares que conhecem a história é que não percebem e criticam a decisão. Fábio, o filho do casal, responde com simplicidade: "Isso que as pessoas dizem não interessa, porque a Segurança Social sabe de tudo o que se passa, está lá tudo escrito". Todavia, o filho do casal garantiu à Domingo que o pai não recebia Rendimento Social de Inserção: "É só uma pensão de invalidez de 190 euros, nada mais. Se ele não trabalha tem direito". Maria Augusta também fica indignada com a desconfiança: "Ainda estou à espera de receber, porque tenho direito. O meu filho também está à espera e as técnicas da Segurança Social já me disseram que seria beneficiado. Eu é que preferia que ele fosse trabalhar e ganhasse melhor. 190 euros não chegam para viver".

Jorge Queiroz, proprietário do café em que o boletim foi registado, não quer polémicas. Para ele tudo é comercial, não há lugar a opiniões. "Foi bom ter dado o prémio. Agora a vida deles é só deles. Não me quero meter".

PATRIMÓNIO SEM RENDIMENTO

Mãe e filho reconhecem que o património que têm hoje é, porventura, mais valioso do que o prémio que ganharam em 2001. Tudo está a venda, dizem. O objectivo está definido: uma vida nova, longe daquele lugar, e diferente, se possível. França pode ser o destino, pois há mais trabalho e mais adequado para José, que tem limitações físicas. "Lá o trabalho é mais leve e ele não se pode esforçar muito. Cá não pode trabalhar, faz só uns biscates, umas coisas tipo servir churrasqueiras, em que ele é perito", justifica Fábio.

As preocupações com a saúde de José Carlos são justificadas. Tem uma bala alojada junto à medula. Qualquer movimento brusco pode ser fatal. Uma discussão há dois anos terminou quase em tragédia familiar. José e Maria voltaram a entender-se, mas ficaram as sequelas. "Agora estamos bem", disse secamente Fábio, sem se querer alongar no tema.

O histórico da família do Vale do Sousa com o Instituto da Segurança Social tem quase cinco anos. "A Sr.ª D. Augusta requereu pela primeira vez a prestação do Rendimento Social de Inserção em Outubro de 2005. Este requerimento foi indeferido por falta de preenchimento das condições específicas de atribuição (inscrição em centro de emprego). A prestação foi requerida novamente em Outubro de 2007, tendo sido deferida, uma vez que se enquadrava nos requisitos legalmente exigidos", relata fonte do ISS.

"As duas casas que o agregado familiar possui encontram-se à venda numa imobiliária, uma delas já desde 2007. A segunda habitação, que não a residência actual, foi considerada no cálculo da prestação do RSI", acrescentou a mesma fonte. De assinalar que Maria requereu há três meses a pensão de invalidez, mas foi considerada apta pela junta médica.

Fábio e Maria Augusta assumem alguns erros, que trouxeram desgostos à família, mas mesmo nesses falhanços parecem unidos. "Fizemos sempre tudo com a concordância de todos. Sentávamo-nos, discutíamos e decidíamos. Sempre foi assim", conta Maria Augusta. Preferiram arriscar, à estabilidade dos juros. Os sonhos foram maiores do que a segurança. "Há coisas que não gosto nada de recordar", finaliza Maria.

OITO ANOS E TUDO MUDOU

Passaram oito anos o tempo suficiente para tudo mudar. A exuberância da noite mágica em que os seis números bateram certo com as seis cruzes e multiplicaram a conta bancária da família Almeida para números milionários não se apaga da memória. O tempo passou, mas os problemas familiares graves, uma falência, dinheiro esbanjado e a incapacidade para trabalhar do homem que era "um artista nas obras" roubaram os sorrisos. Dos milhões do prémio, o ganho mensal destes "excêntricos" vem agora da Segurança Social, na forma do Rendimento Social de Inserção.

"Foi um grande dia, como é normal. Até fui eu que fiz a chave. Mas ao quinto número, não vi mais. Não aguentei. Mostrei ao meu pai e ele viu que tínhamos os seis números: o Totoloto completo. Foi uma alegria. Fomos a correr para casa dos meus tios para festejar", relembra à Domingo Fábio, de 21 anos, mas ainda com o frenesim dos 12 que na altura tinha.

As possibilidades ganharam número proporcional às vontades na pequena localidade rural de Várzea da Ovelha e Aliviada, Marco de Canaveses. Os pais, José Carlos e Maria Augusta, só queriam uma casa maior– tipo vivenda – para sair do pequeno anexo em que viviam. Também gostavam de carros, e o pequeno Peugeot já não servia. Na garagem, deu lugar a um potente Rover, um Mazda e, depois, a um Mercedes. A empresa de construção que sempre ambicionaram podia agora nascer.

Eles sonharam e tudo surgiu. Mas não da forma que imaginaram. O caminho para a felicidade teve inúmeros percalços. "Se fosse hoje preferia não ter ganho porque apesar de o dinheiro trazer coisas boas, também nos prejudicou muito", diz, peremptória, Maria Augusta.

Fábio abana com a cabeça, em sinal de desaprovação. "Não sou da mesma opinião. O dinheiro é bom. Não traz felicidade mas ajuda. Para se ser feliz pode-se ou não ter dinheiro, isso depende de nós", atira o jovem.

PERFIL

Fábio Almeida tem 21 anos e namora há dois. Quer casar e estabilizar.

REVOLTA

Não perdoa os que o pai ajudou e lhe viraram as costas.

MIÚDO

Tinha 12 anos e foi ele que preencheu o boletim.

"A CASA JÁ ESTEVE À VENDA POR 500 MIL EUROS"

Imponente e majestosa, a vivenda é bem visível a quem se aproxima da encosta. Quem a vê de fora percebe automaticamente que aquela é uma moradia faustosa e imagina que não seja barata. Fábio, o filho do casal, desfez as dúvidas à Domingo e revela que a casa já esteve à venda por "500 mil euros".

A família tem ainda outra casa, feita anos depois de serem bafejados pela sorte. Fica em Tabuado, a poucos quilómetros da casa em que vivem. A nossa reportagem visitou a casa e a placa "Vende-se" é bem visível. A habitação está ainda por acabar. Ainda assim o valor pedido para a compra não é baixo. "Essa está avaliada em 240 mil euros", diz o jovem de 21 anos. "Se precisássemos mesmo, tínhamos de baixar o preço para vender".

"ERA MUITO MIÚDO E QUIS UMA MOTO 4"

A excitação de ter nas mãos o prémio do Totoloto é difícil de esquecer. Um momento único na vida. A felicidade transborda e todos as vontades e planos surgem à velocidade da luz. Ainda para mais, era apenas um rapaz de 12 anos. "Era muito miúdo e quis uma moto 4. Acho que é normal", diz o jovem, agora com 21 anos, à espera de aprovação. Esses momentos de alegria misturam-se agora na cabeça de Fábio com algum ressentimento. Mágoa com aqueles a quem o pai deu e não souberam agradecer. "Há muita gente invejosa e que nos quer mal. Mas eu com esses posso bem", concretiza, com o olhar perdido na paisagem.

"SOMOS O PAÍS QUE MAIS GANHA A SEGUIR À FRANÇA" (Pires Antunes, Santa Casa da Misericórdia )

- Qual a utilidade do Gabinete de Apoio ao Alto Premiado?

- Desde Março de 2005 que este grupo dá ajuda aos vencedores de prémios de mais de um milhão de euros. Actualmente, a prevalência vai para os casos do Euromilhões, mas temos também apoiado jogadores do Loto 2, Lotaria e Totoloto. Aliás, este tipo de experiência já existe um pouco por toda a Europa como, por exemplo, no Reino Unido, Espanha e França.

- Como é que se concretiza o vosso trabalho no terreno?

- A partir do momento em que somos contactados servimos de mediadores. Estabelecemos o contacto com o premiado e analisamos o caso. De qualquer modo, oferecemos sempre protecção ao felizardo. Se for caso disso, e se houver ameaças, avisamos também as forças de segurança. Noutras situações asseguramos ainda apoio jurídico e psicológico.

- Já ajudaram alguém a nível psicológico?

- Sempre que nos é solicitado, fazemo-lo. Mas, na realidade, só uma vez isso sucedeu. Tratou-se do familiar de um dos premiados, mas nem sei se os problemas nasceram com o prémio ou se já vinham de trás.

- Os vossos serviços são muito requisitados?

- Repare que Portugal é, a seguir à França, o país como mais vencedores. Já contabilizamos 30 excêntricos. Os pedidos mais frequentes são de nos deslocarmos a uma instituição bancária para entregarmos o prémio.

"NÃO CONCORDO QUE RECEBAM OS SUBSÍDIOS"

O conhecimento profundo das gentes de Várzea da Ovelha e Aliviada, no Marco de Canaveses, que os oito anos à frente da junta de freguesia lhe deram, permitem a Carlos Monteiro apontar certeiro na sentença. "São boas pessoas, isso é inquestionável. Mas a verdade é que ganhar tanto dinheiro deu-lhes a volta à cabeça".

A vaidade é outra das justificações para que a felicidade não durasse para sempre. "Sabe como é, construíram uma casa de luxo e depois fizeram outra. O negócio começou a correr mal e não conseguiram vendê-las". No entanto, quando o tema é o rendimento mínimo, Carlos Monteiro abana a cabeça e o desagrado é evidente. "Não concordo que recebam subsídios".

NOTAS

MILHÕES

Em 2001, o prémio da sociedade feita em Várzea da Ovelha foi de cerca de 1 milhão e 200 mil euros.

EXEMPLO

O sócio da família Almeida é apontado pelo presidente da Junta como um exemplo na gestão.

BISCATES

O autarca, Carlos Monteiro, diz que José Almeida faz uns biscates, mas que não declara esses rendimentos.

VÍCIO

Um milhão de portugueses teve problemas com o jogo ao longo da vida e 200 mil caíram no vício.

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