O que têm em comum Zé Pedro dos ‘Xutos’ e a cabeleireira Maria Teresa? A estudante Susana, a secretária Catarina e o piloto José? Para eles, ‘(I Can’t get no) Satisfation’ tem mais significado.
Namoros, charros, a primeira bebedeira ou uma noitada inesquecível. A música dos Stones já serviu de banda sonora para tudo, ou quase tudo. A febre é transversal e continua a ser mais adictiva do que os livros do Tintin, que segundo a velha estratégia ‘marketing’ atinge todo o tipo de pessoas dos 7 aos 77 anos. A explicação é simples: os Rolling Stones, em vez de viagens à lua ou de peregrinações ao deserto, dedicaram-se ao ‘rock n’roll’. E se hoje, a música que eles fizeram ao longo dos últimos quarenta anos, nos aparece condensada em inofensivos cd’s, a verdade é que estamos a falar de material explosivo: acordes a rasgar, mensagens de contra-poder, muito sexo, drogas e, claro, a bandeira da rebeldia.
ZÉ PEDRO, MÚSICO, XUTOS E PONTAPÉS
Aos 13 anos, depois de ouvir muitas músicas dos Beatles, Zé Pedro descobriu o poder dos Stones. E as festas de garagem ganharam mais brilho. Para ele, como para milhares de jovens em todo o mundo, ‘(I Can’t Get No) Satisfaction’ tornou-se num hino. Aos 14 anos, em complemento do filme de culto ‘Easy Rider’, viu ‘Gimme Shelter’, o registo de uma ‘tournée’ da banda nos EUA e, algum tempo depois, não perdeu uma única exibição de ‘Let’s Spend The Night Together’ no antigo cinema Roma: “Lembro-me de chegar a casa e de tentar imitar as poses do Keith Richards”.
Perguntar-lhe se vai ver o espectáculo em Coimbra é, no mínimo, descabido. Só desta ‘tournée’, o concerto em Portugal é o quarto que o guitarrista dos Xutos assiste: o primeiro foi em Filadélfia, há cerca de um ano, os seguintes em Paris, o que para um fã são coisas absolutamente diferentes. “Os Stones são a banda mais poderosa que alguma vez vi em cima de um palco. Trata-se de um espectáculo grandioso a todos os níveis. Ver pessoas que conseguem ter tanta vitalidade aos 60 anos, dá-me um enorme alento.” Se um dia fizesse um ‘cover’ de uma música do grupo, Zé Pedro escolheria ‘Sister Morphine’, “uma música que fala da ressaca das drogas e que me ajudou num dos períodos mais difíceis da minha vida”.
MARIA TERESA, 59 ANOS, CABELEIREIRA
No dia em que os bilhetes foram postos à venda, Maria Teresa decidiu que não podia ir trabalhar como de costume. Partiu cedo: de Anadia, onde vive, em direcção a Coimbra e, às nove horas da manhã, ‘quis o destino’ que fosse a primeira a comprar o ingresso para o espectáculo com que sempre sonhou. Foram anos e anos, a vê-los pela televisão e a dançar ao som das cassetes que comprou na adolescência. Agora, chegou a altura de os ver ao vivo: “Sei que me vou sentir imensamente feliz e que a noite de 27 de Setembro vai ficar marcada como uma das mais felizes da minha vida”.
A paixão começou muito cedo: “Conheci-os através do meu primeiro namorado que era louco por eles”. De então para cá, Mick Jagger é ‘para além de muito ‘sexy’’, o homem responsável pela alegria que raramente sente no dia-a-dia. Embora a filha e o genro também tenham bilhetes para o concerto, Maria Teresa já avisou: “Quero ir sozinha. É um momento só meu, não quero ter ninguém a observar-me”.
SUSANA MENDES, 18 ANOS, ESTUDANTE
“Não cresci com as músicas dos Rolling Stones a passarem na rádio ou nas discotecas, mas a ouvir histórias fantásticas sobre eles. Sempre que o meu pai se juntava com o grupo de amigos, lá vinham os relatos de mais uma ousadia de um tal Mick Jagger.” Aos 12 anos, pela primeira vez, a curiosidade fê-la interessar-se pela colecção dos velhos ‘vinis’ do pai. A primeira música que ouviu, ‘Start Me Up’, confundiu-a e fascinou-a: “Será que por trás da imagem certinha e conservadora, o meu pai foi um adolescente irreverente?”. O pai apenas sorriu. Susana acredita que muita da cumplicidade que se estabeleceu entre os dois se deve à “melhor banda da história da música”. Para lhe retribuir esse sorriso de que nunca se esqueceu, tentou arranjar bilhetes para o pai. Mas chegou tarde demais. Para compensar, na noite do concerto, os amigos de um e de outro vão juntar-se num jantar (in)formal. “Os vizinhos já foram avisados.” É que o limite para o volume é “o que as colunas conseguirem aguentar”.
JOÃO SIMÕES, 56 ANOS, PILOTO
Já os viu em Londres e em Nova Iorque e não os vai perder em Coimbra. Ao seu lado terá o núcleo duro da família: a mulher, arquitecta, e os dois filhos estudantes - Nuno, 23 anos e Rita, 17 anos. “Sou um melómano compulsivo e um verdadeiro fanático dos Stones.” A prová-lo, para além de todos os discos da banda, João tem uma colecção de cartazes e de entrevistas: “Se um dia fizesse um filme sobre a minha vida, a banda sonora já estava defenida: ‘Angie’, ‘Gimme Me Shelter’ e ‘Brown Sugar’ são algumas das músicas que marcaram os momentos mais importantes”. O contágio familiar não lhe exigiu nenhum esforço: “Quando conheci a minha mulher, ela era louca pelo Mick Jagger. Achava-o o homem mais ‘sexy’ do mundo e eu perdoei-lhe porque não tendo aquela boca, nem aquela voz, ganhei a parada, ela escolheu-me a mim” (risos). Os filhos herdaram a paixão dos pais e embora tanto um como o outro prefiram os U2, sabem de cor as letras da maioria das canções dos Stones. “Não é para um pai se encher de orgulho?”. Os Rolling Stones continuam de boa saúde: “Devolvem-me o melhor de mim: a energia, a ousadia e a vontade de lutar contra a hipocrisia. Quem é que já não fumou um charro ao som de ‘Brown Sugar’?”.
CATARINA NUNES, 33 ANOS, SECRETÁRIA
“Nunca fui muito adepta dos anos 60. Nem da música, nem da estética. O culto do passado irrita-me um bocadinho. Cresci a ouvir as bandas dos anos 80 e tento estar informada sobre o que se faz agora.” Os Stones e, algumas coisas dos Doors, são a excepção à regra. Como quase toda a gente, Catarina conhecia algumas canções mas foi uma noite no ‘Jamaica’, um bar do Cais do Sodré, em Lisboa, que a fez mudar de ideias: “Dei por mim a dançar com um entusiasmo e uma euforia que pensava ter perdido. À terceira, ‘(I Can’t Get No), Satisfaction’, percebi: “Bolas, estes tipos são mesmo intemporais!”. Quando soube que os rapazes que lhe tinham devolvido o prazer da dança estavam de malas feitas para voltarem a Portugal, nem pensou duas vezes: “É agora ou nunca”. Mas na bilheteira, a palavra mais temida: ‘Esgotado!’. “Talvez volte ao ‘velhinho’ Jamaica e só saia de lá quando o corpo começar a ceder”.
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