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Filha de um pai com nome de morto

Zinia Rodríguez ajudou a contar a história de Pavel, o dirigente do PCP abandonado à sua sorte que teve vida nova no México.

02 de junho de 2014 às 12:00

Zinia Rodríguez não tratava o pai por outro nome que não Antonio, mesmo depois de descobrir que ele nascera Francisco de Paula Oliveira, em Portugal, onde chegou a ser o secretário-geral do Partido Comunista Português, utilizando a alcunha Pavel, retirada de uma personagem de ‘A Mãe', livro do russo Máximo Gorky.

"De tanto evitar dizê-lo, de tanto ocultá-lo, esqueceu o seu nome. Recordou-o 20 anos depois de chegar ao México", disse à ‘Domingo' a investigadora social de 58 anos, que veio a Portugal para o lançamento de ‘Pavel - Um Homem não se Apaga' (Parsifal), livro de Edmundo Pedro, companheiro de lutas do pai nos anos 30, a que acrescentou capítulos sobre a vida no país que o acolheu após ser deixado à sua sorte pelo partido a que dedicara a vida.

Vítima daquilo a que Edmundo Pedro descreve como "intrigas do partido", Pavel teve pouco ou nenhum apoio após escapar da enfermaria do Aljube, onde estava internado com tuberculose, graças ao ajudante de enfermeiro Augusto Rodrigues. Este pertencera à Juventude Comunista Portuguesa e infiltrou-se naquele local com a esperança de ajudar dirigentes apanhados pela polícia política. Fugiram a 23 de maio de 1938, com o apoio de militantes do partido, e saíram de Portugal no compartimento para carvão de um navio sueco, desembarcando no porto de Marselha. Contudo, o clima de ‘caça às bruxas' em Moscovo, onde Pavel fora representante permanente do PCP, e tinha mulher e filho, selaram o seu destino.

Os anos que pôde viver até sucumbir a uma pneumonia, em 1993, deveu-os ao governo do México e a um morto. Antonio Rodríguez-Díaz era um galego que morreu na Guerra Civil de Espanha, e de quem ‘herdou' o passaporte, no qual só foi alterada a fotografia, para ser aceite no navio ‘Flandre', dedicando-se a aprender a falar castelhano com a fluência necessária durante a viagem até ao porto de Veracruz, onde chegou a 21 de abril de 1939.

"Sou filha de um homem que morreu muito antes de eu ter nascido", refere Zinia, salientando que adoraria encontrar a família do verdadeiro Antonio Rodríguez-Díaz, para lhes revelar como ele "deu vida" ao seu pai.

FECHADA NO CONVENTO

Dois anos após chegar ao México, o estado civil de solteiro que herdou do miliciano tombado em Espanha - na verdade, casara-se na União Soviética - foi-lhe proveitoso. Ao passear numa praça da Cidade do México avistou uma jovem com o cabelo entre o louro e o ruivo, pela qual se encantou. Ela estava com a avó, e só pôde dizer ao atrevido que se chamava Teresita, estava a visitar uma irmã e vivia na cidade de Puebla. Para lá se dirigiu, descobrindo que a amada lhe mentira. Chamava-se María Antonieta, usando o apelido Toinette, era órfã de pai e mãe, ao cuidado das irmãs mais velhas, e preparava-se para a festa do 15º aniversário.

A diferença de idades, pois o ex-dirigente comunista era 18 anos mais velho, seria o menor obstáculo. Toinette fora pedida em casamento por um general, e o interesse do jornalista levou a que a família a fechasse num convento durante dois anos. Nenhum deles desistiu, e as irmãs consentiram no casamento que duraria meio século.

"Fizeram um acordo muito interessante", recorda Zinia Rodríguez. "A minha mãe disse que se casava se fosse pela igreja e se os filhos fossem batizados. O meu pai aceitou, mas pôs uma condição. Disse-lhe: ‘Não lhes vais ensinar religião.' E ela respondeu: ‘Quando os teus amigos comunistas vierem a nossa casa, não podem falar mal da Igreja nem dos católicos'". O entendimento resultou, e dois dos quatro filhos quiseram fazer a primeira comunhão, enquanto os outros, incluindo Zinia, a mais nova, a dispensaram.

Pelo contrário, só um seguiu o pai no comunismo. Foi Juan Cristóbal, assassinado por militares em 1968. A família disse que se tratara de um acidente, mas Rodríguez não mais retirou a gravata, e Zinia fez uma grande descoberta. "A minha mãe começou a falar-me do meu irmão russo e do meu irmão português [Germinal, o primogénito de Pavel] para que eu suportasse melhor a dor."

POLÍTICA POR OUTROS MEIOS

Apaixonado pela cultura do seu novo país - o primeiro filho mexicano foi Cuauhtémoc, em honra do último imperador asteca -, Antonio Rodríguez foi amigo dos pintores Diego Rivera e Frida Kahlo, também comunistas, mas absteve-se de participar na política. Em vez disso, lutou pelos direitos dos mais desprotegidos do México, dando a conhecer injustiças em reportagens ou em livros como ‘A Nuvem Estéril'.

Ao visitar Moscovo, como embaixador da cultura mexicana, tomou conhecimento dos crimes soviéticos. "Quando chegou a casa, subiu ao escritório, onde tinha um retrato de Estaline junto à máquina de escrever. Tirou-o da moldura e começou a pisá-lo", recorda a filha, explicando que o Partido Comunista do México decidiu expulsá-lo, mesmo sem nunca ter sido militante.

"Comunista até ao fim", assistiu à queda do bloco soviético. "Dizia que a mudança não seria positiva, pois o equilíbrio de poder com os EUA iria desaparecer." Mas ficou feliz quando os americanos chegaram à Lua, seu fascínio de sempre, pois era "um feito da Humanidade".

CAIXA: "ERA O MEU ÍDOLO QUANDO ERA JOVEM"

‘Pavel - Um Homem não se Apaga' é o resultado de um desafio do editor Marcelo Teixeira a Edmundo Pedro, que conviveu com Pavel nos anos 30, quando ambos eram militantes comunistas e o futuro Antonio Rodríguez estava na clandestinidade com os pais do autor do livro que procura recuperar o dirigente do esquecimento a que foi votado pelo PCP. "Era o meu ídolo quando era jovem", diz o ex-comunista, que aos 96 anos é a memória viva da resistência ao Estado Novo, tendo passado dez anos preso no campo do Tarrafal, com o seu pai, Gabriel Pedro, e o líder comunista Bento Gonçalves. "Praticamente, morreu nos meus braços", recorda Edmundo Pedro, que só reencontrou o amigo em 1976 e crê que, com Pavel no lugar de Cunhal, "o PCP não teria sido o partido sectário que foi".

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