Perguntámos a cinco personalidades como foi crescer com uma figura pública.
É diferente ser-se criança quando se tem um pai ou uma mãe famosos? É, mas quem
cresceu sob o brilho de uma estrela ou teve de conviver dentro de portas com uma figura pública acaba por se habituar, por achar normal ter de partilhar o progenitor com o País. Por ocasião do Dia Mundial da Criança, a ‘Domingo’ falou com cinco personalidades que passaram pela experiência e todas o assumem: até às ausências dos pais se acostumaram. O orgulho de ser filho de "fulano tal" também andou por ali. Só as críticas – a que se sujeita qualquer pessoa que se movimente em praça pública – fizeram doer. E muito.
Maria Antónia Almeida Santos, deputada do PS e filha do histórico do partido António Almeida Santos, recorda uma infância "muito feliz" e lembra-se de ter percebido "muito cedo" que o pai era "alguém que suscitava o interesse das pessoas". "Eu era uma miúda, tinha sete anos, e estava na escola, em Moçambique, isto antes do 25 de Abril, quando me apercebi de que as pessoas falavam do meu pai. Porque ele era contra Salazar, porque a Pide o queria prender… Às vezes estas coisas diziam-se em surdina, mas eu apercebia-me."
A jurista, e atual presidente da Comissão Parlamentar de Saúde, nunca deixou de se sentir "uma criança igual às outras", mas admite que a exposição permanente da figura paterna se tornou mais exigente com o tempo. Sobretudo depois da Revolução dos Cravos. "Vinha um senhor de bigode lá a casa que o levava umas horas e o voltava a trazer. Os meus pais explicaram-me o que era uma revolução, que havia revoluções boas e revoluções más, e que esta tinha sido uma revolução boa. Que o meu pai estava a ser chamado a contribuir para que Portugal se tornasse num país mais livre e mais desenvolvido."
Sempre que, enquanto político, António Almeida Santos assumia posições mais polémicas, lá estava a família a sentir o embate. A deputada lembra-se de ouvir criticar o pai, muitas vezes, e de se "obrigar" a acatar as divergências com um sorriso nos lábios. "Percebi rapidamente que não podia reagir de forma emocional quando ouvia comentários menos simpáticos sobre ele. Até porque sempre aprendi lá em casa que as pessoas tinham o direito de se exprimirem como quisessem. Isso obrigou-me a praticar a contenção. Não foi fácil, mas revelou-se um exercício muito útil", garante.
DIREITA E ESQUERDA
A mesma contenção foi praticada, até à exaustão, por Domingos Amaral. O jornalista e escritor, filho de Freitas do Amaral, tinha seis anos no 25 de Abril e lembra-se de ter ganhado consciência do peso do pai na sociedade portuguesa quando este fundou o CDS – Centro Democrático e Social e "começaram a aparecer notícias nos jornais". "A partir de certa altura, o meu pai começou a faltar aos jantares. Jantávamos só com a minha mãe e é evidente que me senti roubado do contacto com ele", recorda. "Mas não me parece que possa funcionar de outra forma: um político no ativo desempenha a sua função necessariamente em prejuízo da vida familiar."O pior veio depois. Quando, dado o fervor revolucionário que tomou conta do País, Freitas do Amaral passou a ser visto como ‘inimigo do povo’. "Nessa altura vivíamos na alameda Dom Afonso Henriques, que passou a ser o grande palco dos comícios em Lisboa, e havia manifestações semana sim, semana não. Senti-me em perigo. A hostilidade era grande e durante algum tempo tivemos de sair da capital."
Foi esta "crueldade" no mundo da política que o afastou desse caminho e o levou, em vez disso, a estudar Economia. Só mais tarde viriam os jornais e as revistas e, finalmente, os romances. Com a aprovação do pai e o aplauso da mãe, que também é escritora (Maria Roma). "Os meus pais nunca me exigiram nada – nem sequer que tivesse boas notas na escola – e nunca me empurraram para qualquer profissão. O meu pai sempre me disse para procurar aquilo de que gosto e foi exatamente o que fiz", conclui Domingos Amaral.
A mesma liberdade teve Maria Antónia Almeida Santos, que, aos 24 anos, quando se filiou no Partido Socialista, ouviu lá em casa um "tu é que sabes". "O ambiente familiar proporcionava conversas de teor político, mas nunca me tentaram influenciar, nem dissuadir, dessa atividade. Como pai atento e tolerante que era – até me deixava dizer asneiras em casa –, o meu sempre me deu espaço para ser o que eu desejava ser."
Hoje, aos 52 anos e mãe de três filhos, Maria Antónia assume que tem "muitos sentimentos de culpa pelo tempo roubado à família", mas pensa no pai e toma-o como exemplo. "O sentimento de segurança é o maior património que um pai pode legar a um filho. O meu pai transmitiu-
-mo e eu espero poder fazer o mesmo pelos meus filhos."
FAMÍLIA DE ARTISTAS
João de Carvalho, filho do ‘grande Ruy de Carvalho’ e Rita Lello, filha da ‘enorme Maria do Céu Guerra’, cresceram nos bastidores do teatro, deram os primeiros passos em cima das tábuas de um palco (como foi, literalmente, o caso do ator, que aprendeu a andar num teatro de Felgueiras). Nunca se sentiram roubados do afeto dos pais por terem de o repartir com o público e sempre tiveram consciência de serem filhos de quem são. "Foi tudo muito natural. O meu pai trabalhava para o público e o público adorava-o. Eu não sentia que ficava a perder no meio. Até fiquei embevecido, quando o percebi." As tournées, essas sim, tornavam a vida familiar complicada, obrigando Ruy de Carvalho a deslocar-se durante grandes temporadas.
Ainda assim, o ator conseguia contornar o problema. "Sempre que tinha uma folga o meu pai vinha por aí abaixo ter connosco. Estas são as minhas memórias: sempre tivemos uma vida muito estruturada. Tanto que eu, apesar de me ter estreado na televisão com quatro anos, fiz o percurso escolar normal."
Já Rita Lello guarda das digressões da mãe, Maria do Céu Guerra, as recordações mais delirantes. "Quando ela chegava das tournées prolongadas ao Brasil ou a Moçambique vinha cheia de presentes e ficávamos noite fora a ouvi-la contar histórias dessas paragens." De uma infância e adolescência vivida no seio de uma "família de atores, jornalistas, escritores e cenógrafos", a atriz, de 45 anos, lembra-se de ter por mãe (ou quase) a avó, Maria Carlota, jornalista e chefe de redação da revista ‘Crónica Feminina’. A ‘Babá’, como lhe chamavam os netos, e que sempre os tratou "com muito miminho e leitinho à noite". "A minha mãe era a mana mais velha de cabelo de fogo, que chegava cheia de vento, com histórias para contar. Uma mulher que crescemos a amar como era. Com as suas presenças e ausências."
Quando Rita Lello e João de Carvalho decidiram seguir as pisadas dos pais e tornarem--se atores de voz própria, a escolha foi aceite em casa com "naturalidade" e nenhum teme ser comparado ao progenitor. "Não penso nisso assim. Que me chamem a filha da Maria do Céu Guerra... A minha mãe é quem é e ser filha dela é um privilégio", diz Rita Lello. "Quando o meu desejo de teatro foi crescendo, nunca deixou de me acompanhar. Viu todos os meus espetáculos e sempre me deu uma opinião."
E tal como Maria Antónia Almeida Santos, João de Carvalho diz que só espera ser, para os seus próprios filhos, o pai que Ruy de Carvalho foi para ele. "É o legado que fica: a nossa forma de estar na vida também tem a ver com o exemplo que nos foi dado. E, tal como o meu pai, também eu me esforcei para ser atento e presente. Os meus filhos nunca sentiram amargura quando eu estava fora."
VOZ DE OURO
Aos 42 anos, o cantor Gil do Carmo diz que desde que tem consciência de si próprio que se lembra de ver o pai, Carlos do Carmo, no papel de vedeta. Nacional e internacional. E acrescenta que isso nunca o perturbou – antes pelo contrário. "Sempre tive um orgulho imenso por ser filho de alguém tão acarinhado. Porque o meu pai sempre foi muito acarinhado pelo público, o que é uma sensação muito reconfortante."
O único momento menos bom de um percurso "fantástico" aconteceu a seguir ao 25 de Abril, quando afirmações políticas mais radicais foram "mal compreendidas pelas pessoas" e Gil viu o pai ser publicamente criticado. "O meu pai esteve silenciado durante dez anos", sublinha."Entre meados da década de 70 e meados da de 80 ele esteve afastado da televisão." Garantindo que não se sente magoado, Gil acha que o tempo veio dar razão ao pai. "Na altura houve quem pensasse que ele se estava a aproveitar do impulso revolucionário para benefício próprio, mas a situação em que o País e o Mundo se encontra atualmente – em que vale mais o dinheiro do que as pessoas – mostra bem que se devia ter tomado opções diferentes."
E embora diga que não tem "razões de queixa" da fama paterna, Gil espera vir a ser um pai mais presente para os seus próprios filhos. Quando os tiver. "Quero proporcionar aos meus filhos uma vida o mais normal possível."
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