Não vem nos manuais de História, mas é verdade: em meados do século XIX, Portugal expulsou dois mil dos seus filhos, por serem protestantes. Ferreira Fernandes narra a diáspora deles em ‘Madeirenses Errantes’.
Para Ferreira Fernandes, a Madeira não era mais do que um pedaço de terra a meio do Atlântico, por onde passava o navio que em tempos o trazia da sua Luanda natal para Lisboa. Sem ligações à ilha de Alberto João Jardim, o cronista embrenhou-se nela depois de descobrir, do outro lado do mundo, que de lá partiu uma diáspora fascinante.
“Fui confrontado com a história dos exilados madeirenses quando fazia uma reportagem nos Estados Unidos. Não saber que Portugal expulsou duas mil pessoas por uma questão religiosa, em pleno século XIX, irritou--me. Foi um acontecimento tão importante que eu exigia ao país a que pertenço que mo tivesse contado desde a escola primária”, afirma o jornalista de 55 anos, actualmente na revista ‘Sábado’.
Tudo começa em 1838, com a chegada ao Funchal do médico escocês Robert Kalley, motivado pela fama dos ares madeirenses: dizia-se, então, serem milagrosos para os tuberculosos, o que era o caso da sua mulher... Tornou-se benemérito, fundando escolas e assistindo doentes, ao mesmo tempo que difundia a Bíblia – naquela que é considerada a maior evangelização do mundo da igreja protestante presbiteriana.
Quando a filantropia do escocês começou a levantar suspeitas, quase duas mil almas se tinham rendido à ‘nova’ cristandade. Para as autoridades de Portugal, reino de religião única católica, tornou-se imperioso perseguir e expulsar aquela gente, mesmo sabendo que, no meio dela, havia homens cultos, senhoras respeitáveis e famílias ricas.
BONS TRABALHADORES
“Esta é uma história simples mas longa, pois atravessa 150 anos”, realça Ferreira Fernandes, explicando que o seu novo livro começa na Madeira e termina no Havai, onde se toca o ‘ukelele’ (derivado da viola chuleira portuguesa) e onde muitos assinam com apelidos lusitanos.
Pelo meio, há mais duas etapas: “Estes filhos de portugueses estão também presentes em Trindade e Tobago, tendo sido essenciais para a sua independência. E também são fundadores da grande cidade de Chicago, pois foram trabalhar para as pradarias americanas do Illinois, substituindo a mão-de-obra negra da escravatura.”
Diluíram-se nas paisagens “porque não se agarraram ao bolinho de bacalhau”. E ficaram com fama de honestos, além de bons trabalhadores. Mas isso não espanta o jornalista: “Ninguém emigra porque quer. Sai-se da terra porque se é obrigado e os que partem são os mais determinados. Por isso, as imigrações deviam ser sempre apaparicadas. Em Portugal, por exemplo, as cabo-verdianas são as primeiras a chegar à paragem do autocarro, às cinco da manhã... e não vão passear.”
NA PRIMEIRA PESSOA
Ferreira Fernandes sabe do que fala. Ele próprio foi obrigado a lavar pratos e a carregar betão quando esteve exilado, entre 1969 e 1974, em França. Trotskista convicto, fazia intervenção à distância, mas tinha de trabalhar para comer... De tal modo se enredou na política que só aos 32 anos, já na década de 80, chegou ao jornalismo. “Já tinha a escola da vida, que é o mais importante nesta profissão, e sabia exactamente o que queria e como queria escrever”, conta.
Por isso, o seu estilo marcou a diferença: “Ao arrepio das regras, sempre fiz as minhas reportagens na primeira pessoa. Metendo-lhes o ‘eu’, dou uma garantia a mais ao leitor, avisando-o que aquilo me está a acontecer a mim, é apenas a minha visão dos factos e que pode duvidar do que estou a dizer. Além disso, aprendi com a imprensa brasileira a usar a língua de uma forma coloquial, para que seja entendido. Para mim, a função do jornalista é traduzir em palavras o que vê... de um modo simples e claro... para ser lido.”
Claro que seguiu o mesmo método em ‘Madeirenses Errantes’, livro de um género que diz ser comum nos países civilizados, “onde os jornalistas contam histórias e a informação factual não é desprezada como neste País dos poetas e das rimas”, que gostaria de ver exposto nos escaparates das crónicas de viagem, em vez de arrumado na Antropologia, como numa livraria que visitou. E, já agora, no Aeroporto do Funchal: “Se estivesse de passagem pela Madeira e visse este título, comprava logo.” Você não?
Duas passagens do livro, escolhidas por Ferreira Fernandes
“Em meados do século XIX, o arquipélago do Havai e o seu açúcar insaciável de mão-de-obra importaram dezenas de milhares de asiáticos, a que se seguiram portugueses da Madeira e dos Açores. A infância de Manuel Pereira Martins foi passada numa companhia açucareira (…) entre “coolies” chineses, japoneses que faziam “saké” e portugueses que coziam pão em pequenos fornos.
(…) A plantação cruzou século e meio e consumiu a vida de trabalho de Manuel, as dos seus avós micaelenses e madeirenses, as dos pais e dos oito irmãos. Ainda antes da Segunda Guerra Mundial, ele começara como ajudante de camionista no transporte da cana macerada, para fazer o rum.
Quando me levou à sua antiga fazenda só alguns hectares ainda eram dedicados à plantação. No pátio depositava-se o restolho da cana, um monte em cone cheirava a mosto. Sou luandense. Recordei-me da minha infância, atravessando a fazenda Tentativa, no camião de meu pai. “Cheira a bagaço”, disse eu. Manuel não falava português e repeti-lhe a palavra que eu não conhecia em inglês: “Bagaço.” Ele foi ao monte do restolho que se destacava da terra negra. Pegou num pouco que esfarelou entre os dedos, levou ao nariz e fez um trejeito. “É, isto é ‘bagasse’. ‘Bagasse’ são também os protestantes portugueses. É assim que lhes chamamos…”
Em Lisboa, um dicionário deu-me um significado que eu desconhecia para bagaceira, de que ‘bagasse’ era uma corruptela: “Gente baixa, de maus costumes”. O havaiano Martins dissera uma palavra insultuosa, que ele próprio não sabia insulto. Já passara a ser uma simples qualificação significava “protestantes portugueses” e mais nada. Mas nascera certamente para marcar acinte. Porque aquela palavra bebia numa ferida, com século e meio, aberta num povo com a mesma origem.
Foi aí que cruzei, pela primeira vez, o fio desta história. Foi aí, já na ponta final do fio. Houve um dia, eu viria a saber mais tarde, em que, para evangelizar agricultores católicos portugueses e imigrados, desaguaram no Havai pastores presbiterianos de origem portuguesa, de Springfield e Jacksonville, no Ilinóis, Estados Unidos da América. Missionários cujos pais ou avós tinham ido para essas cidades americanas depois de terem passado por Trinidad-Tobago, nas Caraíbas. Para onde se tinham exilado, às centenas, homens, mulheres e crianças, em 1846, expulsos da católica Madeira por se terem deixado evangelizar pelo protestante escocês Robert Reid Kalley.
Uma história que, passeando-se por mares e continentes, começou num arquipélago do meio do Atlântico, viajou para ilhas das Caraíbas, emigrou para a pradaria americana, para se reencontrar, gerações depois, num arquipélago do meio do Pacífico. Onde netos dos expulsos da Madeira tinham ido doutrinar os netos daqueles que os expulsaram. Um planeta pequeno para tão viajada história.”
Cristiano Ronaldo - ninguém adivinhava o seu sucesso quando nasceu, há 19 anos, na Ribeira Brava, mas muitos suspeitaram que se tornaria um craque quando o viram jogar no Andorinhas da Madeira; hoje, ganha 150 mil euros por mês no Manchester United.
Fátima Lopes - a famosa estilista, que criou a sua etiqueta há uma dúzia de anos e hoje vende colecções para todo o mundo, da Europa ao Japão, passando pelos Estados Unidos, Líbano e Porto Rico, nasceu no Funchal em 1997.
Joe Berardo - o empresário e grande coleccionador de arte moderna, nasceu pobre na ilha da Madeira e ainda jovem partiu em busca de fortuna na África do Sul, onde começou por vender legumes para as explorações de minas.
Marina Rodrigues - nascida na madeirense Ribeira Brava em 1985, foi votada pelos telespectadores da SIC como a mulher mais bela do País: o sorriso simpático e o corpo de sonho valeram-lhe o título de Miss Portugal 2004.
Sam Mendes - o realizador de ‘Beleza Americana’ ganhou um Óscar, mas antes já pertencia a uma família de notáveis, com destaque para o avô Alfie Mendes, escritor neo-realista que fundou a literatura de Trindade (pátria do Nobel V. S. Naipaul).
Albert Gomes - descendente dos emigrantes da Madeira, sobre os quais escreveu em ‘All Papa’s Children’, este político visionário construiu a independência de Trindade, defendendo uma identidade nacional baseada na miscigenação e o Carnaval.
John dos Passos - autor de ‘Paralelo 42’ e de outras obras emblemáticas do século XX, nasceu em Chicago e combateu ao lado dos Aliados contra os nazis; é um americano com costela madeirense: o seu avô partiu da Ponta do Sol, em direcção ao Illinois.
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