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Correio da Manhã

Domingo

Fora do buraco, dentro da Cova

Johnson Semedo já viveu entre drogas e cadeias. Agora dedica-se ao futuro de dezenas de jovens.
Leonardo Ralha 28 de Novembro de 2014 às 18:12
Johnson Semedo junto à casa dos pais, onde ainda vivem irmãos
Johnson Semedo junto à casa dos pais, onde ainda vivem irmãos FOTO: Sérgio Lemos

Fez questão de cortar o cordão umbilical de William na noite de 25 de outubro, aproximando ainda mais da centena o número daqueles de que Johnson Semedo se considera pai. Neste caso é mesmo, pois é o terceiro filho do motorista de 42 anos, que vê de igual forma o enteado, pri-mogénito da sua mulher, e os 80 jovens apoiados pela associação que criou. "Anseio para eles aquilo que anseio para os meus", diz à ‘Domingo’, no bairro da Cova da Moura, na Amadora.

 

Elogiado por Marcelo Rebelo de Sousa devido ao livro ‘Estou Tranquilo’ (Alêtheia), no qual relata o percurso sinuoso que o levou de menino de rua a toxicodependente e de toxicodependente a presidiário, perdendo uma década  de vida atrás das grades e em recaídas. Depois de ter dado a volta, graças a uma comunidade terapêutica, luta agora para que jovens da Cova da Moura, e de outros bairros da Grande Lisboa, não passem pelo mesmo. A Academia do Johnson tem equipas de futsal em diversos escalões etários e não se esgota dentro das linhas do campo.

"O objetivo não é que sejam doutores, mas sim que consigam ser donos das suas vidas", diz o cabo-verdiano nascido João Semedo Tavares, a 27 de julho de 1972, em São Tomé e Príncipe, onde a família vivia. Quando tinha dois anos, viajou com a mãe e irmãos, juntando-se ao pai em Portugal.

Além da prática de desporto e do apoio na escola, os jovens de quem se encarrega, alguns dos quais filhos daqueles que "foram pistoleiros comigo", recebem regras nem sempre fáceis de acatar. "Houve miúdos que quando perceberam a metodologia de trabalho, dentro de normas, orientação, transparência e honestidade, saltaram fora do barco. Quando é assim, pouco podemos fazer."

Mais do que encontrar Ronaldos e Messis do futsal, Johnson quer servir de ponte entre famílias, escolas e futuros empregos. "Temos de estar todos a falar a mesma linguagem para que um miúdo possa sorrir e ter sucesso", diz, pois alguém que "não sabe estar e não sabe conviver, pode ter pezinhos mas não consegue ir mais longe".

PERGUNTA MILIONÁRIA

Como concilia o horário de trabalho na agência noticiosa Lusa com treinos das várias equipas de futsal, palestras em cadeias e a família? "Essa é sempre a pergunta dos cinco milhões", diz Johnson, com um sorriso. "Costumo responder que o meu tempo é o tempo onde estou. Para mim, o tempo é a pertinência. Estou aqui, sou preciso aqui, é o tempo que tenho", acrescenta, admitindo que a única que lhe podia cobrar o tempo seria a esposa, mas não o faz.

Conheceu Susana depois de uma década a percorrer o sistema prisional, entre Lisboa, Caxias, Setúbal, Leiria, Linhó, Coimbra e Vale de Judeus, depois de uma primeira desintoxicação no Alentejo, da recaída após a morte da mãe, e de estar no fim de dois anos no projeto Vale de Acór. Não lhe contou o passado de uma vez só, mas antes de viverem juntos – mais tarde viria o casamento, na igreja da Buraca – ficou tudo em pratos limpos.

Admitir erros é algo que fazia muito antes de lançar o seu livro. "A minha história é uma história resolvida. Parto do princípio de que ninguém me pode cobrar", diz, aplicando igual princípio a quem o acompanhava quando, nas suas palavras, "espalhava o terror", roubando para viver. "Não deixei dívidas... E se deixei, e vierem cobrar, estamos aqui para resolvê-las", assegura, salientando que aprendeu a não resolver problemas com violência. Aliás, ocorre o contrário. "Dizem-me: ‘Gostava de fazer o que fizeste, mas não consigo.’"

Aconselhou ex-presidiários pela primeira vez ao ser escolhido como monitor de uma casa de transição, num concurso da Santa Casa da Misericórdia. Não mais parou, visitando quem se encontra atrás das grades para conversas "terra a terra", procurando convencê-los de que no final da pena não sairão "com o rótulo na testa".

Também é sem rodeios que fala do que para si foi uma realidade antes dos dez anos, quando começou a cheirar cola. "Não gostam da droga mais do que eu", diz-lhes, recordando que consumir "é achar que se pode preencher o vazio que dói e a confusão que não se percebe". Depois vêm as consequências, que o levaram a deixá-la. Durante anos, nem café tomou.

RASTILHO DE PÓLVORA

Pode parecer um paradoxo que alguém dedicado a mudar a Cova da Moura – trabalhou antes com a associação Moinho da Juventude – assuma que pretende mudar-se. "Os meus filhos viverem aqui pode ser um rastilho de pólvora, para eles e para mim, tendo em conta como a nossa comunidade está", afirma, referindo-se à "perda de valores" de novas gerações com "valores e princípios atrofiados", que cometem crimes no próprio bairro.

Um passeio pela Cova da Moura ilustra aquilo de que fala. Poucos passos após uma conversa animada com vizinhos que fazem um churrasco junto à escola construída no terreno em que Johnson jogava à bola na infância – é desde então sportinguista, por influência do irmão Fernando Jorge, júnior do clube, que acabou morto pela polícia, festejando golos de Jordão num bairro em que Eusébio era rei e o Benfica hegemónico –, segue-se uma rua que deve ser atravessada em passo rápido e de olhar alheado caso não se esteja à procura daquilo que ali se encontra.

Permanecendo ou não no bairro, inevitável é o dia em que Johnson terá uma conversa a sério com o filho mais velho: "Vou ter de explicar-lhe muito bem o meu percurso. E talvez ele perceba."

"VEJO A ASSOCIAÇÃO A DAR OS PRIMEIROS PASSOS"

A Academia do Johnson tem 80 jovens, incluindo algumas meninas, nas equipas de futsal, das quais já saíram atletas para vários clubes. "Vejo a associação a dar os primeiros passos, como um bebé", diz Johnson Semedo, que conta com a ajuda de voluntários e de patrocinadores para garantir a sustentabilidade de um "laboratório onde as pessoas entram e se transformam".

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