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Correio da Manhã

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Foram presos políticos num país dito livre

MRPP celebra os 40 anos da prisão – e libertação – de mais de 400 militantes.
Ana Maria Ribeiro 14 de Junho de 2015 às 13:00
Mural celebra saída da cadeia de Arnaldo Matos, secretário-geral do MRPP em 1975
Mural celebra saída da cadeia de Arnaldo Matos, secretário-geral do MRPP em 1975

Desembarcaram de chaimites, armados de G3, entraram pelas nossas sedes adentro aos tiros, começaram a destruir e a saquear tudo, a agredir quem resistia. Depois, empurraram-nos para dentro de berliets [viaturas militares], de onde só saímos para entrar na prisão de Caxias."

Eis como Carlos Paisana recorda o dia 28 de maio de 1975, quando, por ordem do governo provisório e do Movimento das Forças Armadas, o COPCON – braço armado do regime – prendeu 432 militantes do MRPP, que tinha sido suspenso a 17 de março e impedido de participar nas primeiras eleições ditas livres em Portugal [a 25 de abril de 1975].


Paisana, na altura com 27 anos, foi um dos presos, ao lado do secretário-geral do partido, o histórico Arnaldo Matos,  e de Fernando Rosas, outro dos fundadores do MRPP – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado. A reação geral às prisões foi de estupefação.

"Sinceramente, pensei que tinha chegado o fim. Que assim que saíssemos das camionetas nos fuzilariam. E que tudo estaria acabado", diz Ângela [nome fictício da magistrada que não quer ser identificada neste artigo]. "Inicialmente, até pensei que se tratava de um golpe fascista, contrarrevolucionário, mas não. Era a expressão do poder naquilo que tem de pior."

Com 21 anos à época e acabada de casar-se, diz que ainda tem pesadelos com o que viveu atrás das grades. "Estive 64 dias presa sob condições horríveis. Molhavam-nos e não nos davam toalhas. Nem pensos higiénicos nos davam", lembra. "Deixou marcas e não foram só psicológicas. Deixei de menstruar. Conseguiram que deixasse de poder ter filhos", lamenta.


Quarenta anos decorridos sobre os acontecimentos, Garcia Pereira diz que é tempo de contar uma história que hoje pouco se conhece e reuniu em Lisboa dezenas de militantes e ex-militantes para falar sobre "a tentativa deliberada para liquidar o MRPP". "A operação turbilhão foi aprovada na Coordenadora do MFA, na Assembleia Geral do MFA e no III Governo Provisório. Era comandada pelo PCP e visava destruir o Partido e eliminar fisicamente o seu secretário-geral e os demais dirigentes", garante o advogado, de 62 anos, atualmente o elemento mais conhecido do PCTP/MRPP.


PRISÃO SEM REGRAS

Se os alvos diretos do ataque reagiram com surpresa às prisões, a opinião pública, essa, mobilizou-se e foi para a rua exigir a "libertação imediata dos presos antifascistas". O historiador Fernando Rosas, hoje um dos rostos do Bloco de Esquerda, diz que "o golpe do setor mais radical e descontrolado" do PCP viria a revelar-se fatal para o próprio.

"Houve resistência, com manifestações à porta das cadeias, reprimidas a tiro. E as pessoas ficaram com medo desta prepotência. Foi a primeira de muitas derrotas que o PC viria a sofrer. Como se viu, não é possível acabar com um partido à paulada."


Ele próprio preso por duas vezes pela PIDE antes do 25 de Abril, Rosas diz que foi a "pura arbitrariedade" que mais chocou. "Entravam nas celas e apontavam armas à cabeça dos presos. Não mudavam a roupa das camas, não davam papel higiénico. Não havia regras algumas. Depois do 25 de Novembro houve um inquérito para apurar responsabilidades, mas acho que não deu em nada. Deve estar arquivado."

Entretanto, sem saberem das demonstrações de apoio cá fora, dentro das cadeias os presos resistiam de forma "espantosamente organizada". Mesmo isolados nas celas e divididos [alguns tinham sido enviados para Pinheiro da Cruz, as mulheres para Tires], as reuniões continuavam, cada um encostado às grades a falar alto para o corredor e  dirigindo-se aos outros com pseudónimos. Também se entoavam canções revolucionárias, para dar ânimo aos espíritos. É o que lembra Leopoldo Mesquita, professor do ensino secundário na Guarda e que foi apanhado no dia 28 de maio na sede do MRPP na calçada do Combro, em Lisboa.


"Estivemos um mês sem poder tomar banho – só o fizemos uma vez em todo o tempo da prisão –, e não podíamos sair da cela, que media apenas seis metros quadrados. Mas estávamos motivados. E quando veio a direção, do camarada Arnaldo Matos, de dentro da cadeia, para entrarmos em greve de fome, estávamos dispostos a levá-la até às últimas consequências", garante.


Como nas piores condições se revelam muitas vezes as melhores almas, Carlos Paisana, hoje advogado, recorda com agrado que um dos guardas tomou o lado dos presos. Percebeu-o mesmo sem terem trocado qualquer palavra. "Era um paraquedista que fazia sentinela na guarita que dava para o terreiro defronte da ala onde eu me encontrava, com dezenas de outros camaradas, e que acompanhava as reuniões que realizávamos diariamente, de manhã e à noite, de cela para cela. Ouvia tudo e não dizia nada. Mas quando estava de sentinela à noite levava com ele uma telefonia e sempre que havia noticiários aumentava o volume para que pudéssemos saber o que se estava a passar. Em especial a respeito das nossas prisões. Mais tarde passou a participar nos nossos comícios..."


ADVOGADOS EM FORÇA


Mas não foram só as sedes do MRPP a ser invadidas a 28 de maio de 75. Foram-no também a Associação Amizade Portugal-China e a Faculdade de Direito. Os advogados viriam mesmo a ser um elemento fundamental da luta – e da vitória – do MRPP em todo o processo. A eurodeputada socialista Ana Gomes, que então militava no partido, diz que se salvou "por estar nos últimos meses da gravidez" e que o marido da altura, o advogado António Monteiro Cardoso, também esteve à beira da prisão.

"Foram buscá-lo à faculdade, mas conseguiu-se que eles não o levassem", conta. "Mas prenderam a mulher do Garcia Pereira, a Natália, que tinha crises de asma terríveis, e muitas outras pessoas. Até a filha do Arnaldo Matos, que só tinha seis anos de idade, foi naquela enxurrada."


Monteiro Cardoso guarda memórias vivas dos acontecimentos. "Fui surpreendido na faculdade e só não me levaram porque já era professor assistente", conta, acrescentando que a contestação não tardou. "A mobilização chegou ao próprio bastonário dos advogados, mas também do estrangeiro. Recebi, em Lisboa, um advogado belga da Associação dos Direitos do Homem, que veio a Portugal elaborar um relatório sobre o que se estava a passar."


Independentemente da filiação política, os advogados portugueses lançaram-se em massa na defesa dos presos. Garcia Pereira foi um deles, mas também João Araújo, que recentemente ganhou notoriedade por ser advogado de José Sócrates e que na altura militava no MRPP.

"No fundo, os advogados perceberam que aqueles presos eram apenas as primeiras vítimas de um ataque generalizado. Que amanhã seria a vez deles. Daí a mobilização, que teve ecos lá fora. Grandes intelectuais europeus, com Sartre à cabeça, subscreveram abaixo-assinados a exigir a libertação dos presos", conclui Monteiro Cardoso.


Por cá, também houve protestos de gente conhecida. Natália Correia, Ruy de Carvalho, Sophia de Mello Breyner, David Mourão-Ferreira ou Mário Cesariny foram alguns dos que juntaram o nome aos protestos. Ao lado da sua assinatura, o ator Jacinto Ramos (1917-2004) fez saber do seu "repúdio por toda a violência, venha de onde vier".


TRIUNFO E CELEBRAÇÃO

A greve de fome dos presos durou 18 dias, mas teve um final feliz. As reivindicações – nomeadamente o direito a receberem visitas de familiares, de médicos e advogados – foram satisfeitas e a saída das cadeias começou a ser negociada. Entretanto, perante o agravamento do estado de saúde de Arnaldo Matos, que tinha uma úlcera, o secretário-geral do MRPP teve de ser hospitalizado, na Estrela, e evadiu-se, dia 11 de julho, com a ajuda dos guardas.


"Eu não fugi, fugiram-me", contou o próprio em sessão pública já este ano, na Biblioteca Municipal da Amadora. "Fui de Caxias para o hospital militar com um buraco no estômago, às portas da morte. Um belo dia a polícia militar que me estava a guardar meteu-me dentro de um jipe e levou-me onde eu precisava de ir. No dia seguinte já estava a fazer um comício", recorda o ex-líder do partido.


Finalmente, a 18 de julho de 1975, dia histórico para o MRPP, dá-se a libertação. Não isenta de confusão. "Saí dois dias depois de terminar a greve da fome, mas, como todos os outros, recusei-me a sair sem a garantia de que todos os camaradas seriam libertados. Ou saíamos todos ou não saía nenhum. A mim acabaram por me tirar da cela à força...", recorda o professor Leopoldo Mesquita.


O sentimento geral era de alívio. E de exultação. "Tirámos um grande ensinamento desta luta", diz Garcia Pereira. "Só uma direção à prova de bala e uma correta política de massas permitiu a um partido pequeno como o nosso vencer um inimigo aparentemente muito mais forte." E se Fernando Rosas lê hoje o sucedido com "uma certa filosofia" Ângela insiste na importância de espalhar a palavra. "Não podemos continuar a permitir este silêncio. Nunca ninguém assumiu a culpa do que aconteceu e nunca ninguém nos pediu desculpa. Pelo sofrimento que nos foi infligido a nós e às nossas famílias. É preciso falar antes que ninguém se lembre disto."

PCTP/MRPP VEM PARA AS RUAS DE LISBOA

Após saírem das prisões, a 18 de julho de 1975, os militantes do MRPP dirigiram-se de imediato ao Campo Pequeno, em Lisboa, para celebrar, juntos, a libertação. Encheram o recinto de bandeiras vermelhas, punhos no ar e gritos de "liberdade". Fernando Rosas diz que foi um momento exaltante, sobretudo o discurso de Arnaldo Matos que, muito fragilizado pela greve de fome, e com muitos quilos abaixo do normal, discursou entusiasticamente para a multidão.

No encontro do passado dia 28 de maio, num hotel da capital, Garcia Pereira prometeu que o partido – fundado em 1970 e que desde 1976 passou a designar-se PCTP/MRPP (acrescentando Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses) – vai sair para as ruas dia 18 de julho, "provavelmente em torno da zona do Rossio", para assinalar o dia da vitória e confraternizar com presos e familiares que viveram os acontecimentos.
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