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FORCADOS: SEPARADOS PELA TRADIÇÃO

Numa tarde de chuva, juntámos na mesma arena Sidónio e João, dois forcados que vestem jaquetas de grupos rivais de Alcochete. Eles são irmãos e têm no sangue uma vontade férrea de pegar touros

20 de abril de 2003 às 00:00

A chuva que cai sobre a praça de toiros de Alcochete, naquela manhã cinzenta de Abril, parece uma bênção dos deuses. Pela primeira vez em três décadas de rivalidades, as cores das duas agremiações de forcados da vila juntam-se na mesma arena, para uma sessão fotográfica que registará para a eternidade um momento que há pouco tempo muitos julgavam impossível.

De um lado, Sidónio Rosa ostenta a jaqueta bege e dourada dos Forcados Amadores, enquanto o irmão, João António, veste o vermelho do Aposento do Barrete Verde. “Vamos a isto”, dizem em uníssono antes de saltaram para a arena. Depois, põem de lado a tradição e encostam-se um ao outro para o enquandramento. Quando as vestes se tocam, é o mesmo sangue a unir o que tantos teimaram em separar.

“Apesar das muitas discussões que já tivemos, somos de uma família que sempre se deu bem com elementos dos dois grupos e fomos educados tendo em conta tratarem-se de divergências dos mais velhos, sobre as quais não deveríamos falar”, explica João António, embora a história, que começou debaixo do mesmo símbolo, não seja tão pacífica quanto possa parecer à primeira vista.

Sidónio Rosa tem 31 anos, é o mais velho e entrou para o mundo da festa brava pela necessidade de afirmação. Tinha 16 anos e um desejo enorme de mostrar que já era homem crescido. “Os miúdos passam sempre por isso. Uns vão para a bola, outros para a música, e eu, devido às companhias, fui para os forcados”. Decidiu então que queria experimentar, e se bem o pensou, melhor o fez. Come-çou às escondidas da mãe, Mariana, e depressa tomou o gosto pela adrenalina de sentir um toiro arrancar direito a ele: “A seguir a estar com uma mulher, não há melhor sensação no mundo”, dispara com prontidão quando questionado sobre o porquê de colocar a vida em risco daquela forma.

O entusiasmo de Sidónio depressa atingiu João António, ‘benjamim’ de uma família que jamais sonhou ter dois elementos ligados aos forcados. Hoje, recorda o caricato da situação vivida no primeiro contacto com a agremiação. “O meu irmão tinha uma novilhada e foi acordar-

-me. Disse que íamos a uma festa de anos no Montijo. Estranhei, porque eu era mais novo e ele nunca queria levar-

-me a lado nenhum. Quando cheguei ao Aposento do Barrete Verde e entrei no carro é que revelou que o nosso destino era o Campo Pequeno. Tinha 13 ou 14 anos, eles fardaram-me e levaram-me para as cortesias”. E o que começou por brincadeira foi-se tornando sério devido às constantes idas aos treinos, ao gosto pelo “ambiente saudável” que rodeava o grupo, ficando desde cedo enredado no meio.

GUERRA AO JANTAR

A harmonia familiar, interrompida pelas tentativas dos pais em fazerem com que abandonassem aquele passatempo, quase foi destruída em 1991, apenas um ano após a entrada ‘a sério’ de Sidónio para os forcados. O motivo, a sua passagem para os Amadores, o eterno rival do Barrete Verde, que separava de uma forma violenta as pessoas da terra. A mudança foi difícil não só a nível pessoal como familiar. “Eu até tinha a vantagem de me dar bem com o Luís Miguel Cebola (cabo dos forcados do Aposento do Barrete Verde) e lembro-me de que foi um choque muito grande, principalmente para o pai dele”. Contudo, nada o demoveu da ideia de trocar de agremiação, uma vontade que partiu do facto de o grupo que o acolheu ser mais popular e fazer mais corridas. “Pensava: já que ando aqui a levar porrada, ao menos que falem de mim. No grupo onde estou isso era possível, porque havia uma diferença abismal entre os dois, que, hoje, já não é tão visível”, recorda.

Numa ida à Moita, Sidónio contou, então, ao melhor amigo a sua intenção. Luís foi a única pessoa do Barrete Verde que nunca deixou de lhe falar e que jurou jamais deixar de ser seu amigo. Dos outros, recebeu apenas silêncio e raiva. Junto da população, a notícia caiu que nem uma bomba. Sidónio passava na rua e as pessoas cospiam para o chão, à sua frente. E em casa foi ainda pior, pois o pai chegou a pensar pô-lo na rua. O drama durou todo o Inverno, apenas acalmando com os treinos de pré-temporada e a ideia generalizada de que já não havia nada a fazer. Dois anos depois, aconteceu o mesmo com um outro forcado, e deixou-se de falar no assunto.

Tal como o irmão, João chegou a ter possibilidade de trocar de grupo, mas já estava afeiçoado ao Aposento e preferiu ficar. Sobre esse início da década de 90, lembra uma fase de tensão e de ter visto com maus olhos a dissidência de Sidónio: “Sabia que isso iria ser aborrecido, porque eu fiquei e muita gente dizia coisas sobre ele que me custavam a ouvir. Afinal, para mim, o meu irmão está acima de qualquer grupo”.

Contudo, à mesa os toiros eram um assunto tabu, capaz de originar algumas discussões. “O Sidónio ‘picava-me’ com temas dos Amadores e eu respondia que o que ele tinha aprendido tinha sido aqui, no Barrete Verde. Mas nunca sofri muito com isso, embora da parte dos elementos que compõem o meu grupo tivesse havido o receio de que eu também saísse. Nessa altura, cheguei a ser um bocado ‘encostado’ por isso, mas pouco tempo depois, voltou tudo à normalidade”.

DOR E PRAZER

Mas afinal qual a sensação de ser forcado? João disserta: “Quando entramos para dentro da arena, tudo o que está à nossa volta deixa de existir. Só há silêncio, calma e concentração”. Mas também há muitos sustos, sangue, suor e lágrimas. “O primeiro a dizer que nunca teve medo de pegar estará a mentir”, garante Sidónio, que aprendeu a controlar o sentimento de pânico nos momentos que antecedem as corridas. A única vez em que perdeu o autocontrolo foi numa pega na Moita. “As coisas estavam a correr mal. Dois companheiros tinham ido parar ao hospital, com lesões graves, e senti que não tinha uma tarefa fácil.” O forcado dos Amadores de Alcochete tinha pela frente um touro manso, de 645 quilos. Horas antes, havia pegado dois pesados bovinos noutra praça. A sua força anímica era baixa. O animal acabou por vencer o duelo e Sidónio desmaiou na arena após o embate.

“Eu estava na bancada e tentei ir buscá-lo lá abaixo”, recorda-se João. Um fanático dos Amadores ainda tentou impedi-lo, esquecendo-se por instantes que João, para além de ser forcado do Barrete Verde, era também irmão do jovem inanimado. “Consegui contornar o homem exaltado, saltei para a arena e resgatei o meu irmão nos braços”, conta. Como consequência, Sidónio ficou dois meses sem poder tourear. “Foi a pior lesão da minha carreira”, confessa. “Todas as pessoas garantiam que não voltava a pegar.” Puro engano. O irmão mais novo tem também um historial clínico recheado. “Parti uma clavícula aos 17 anos”, lembra-se, tocando no local da lesão. “As outras mazelas não contam”. Fazem parte dos ossos do ofício de uma actividade de desgaste rápido.

Os manos Rosa contam estas histórias com olhares cúmplices. Eles acompanham de perto as corridas um do outro, chegando a fazer centenas de quilómetros para assistir ‘in loco’ à actuação da agremiação rival. “Quando o João actua, esqueço-me da cor da sua jaqueta. Só desejo que tudo lhe corra bem”, confessa Sidónio com alguma emoção à mistura.

O TOURO OU O DINHEIRO?

As corridas de touros têm afectado a vida profissional dos dois irmãos. Sidónio confessa que tem saltado de emprego em emprego devido às baixas causadas pelos touros. “Não é fácil ir trabalhar aleijado”, desabafa. Mas ele sabe que esta não é uma actividade para uma vida inteira. O seu porto seguro é o restaurante onde João e os pais trabalham durante todo o dia. “Sempre me acolheram no ‘Barrete Verde’ quando as coisas não corriam bem.”

No entanto, não é por dinheiro que ambos optaram pela festa brava. “Os forcados são amadores por vocação. Creio que se ganhássemos dinheiro, lá se ia o espírito de grupo”, confessam. Assim, ganham apenas o suficiente para custear as deslocações e o jantar, que em norma se realiza no restaurante ‘Barrete Verde’ e junta grupos de forcados que até há poucos anos se recusavam sentar lado a lado. “Quando as corridas correm bem, o ambiente é de festa. Mas quando as coisas não enveredaram pelo melhor caminho, ficamos calados durante a refeição”, afirma Sidónio Rosa que garante: “O ambiente dos forcados é saudável, longe de drogas e onde se cria um espírito de amizade e entreajuda.” O ideal para um filho seu crescer? “Sim”, responde de pronto. “Se Deus quiser, gostava que um dia um rebento meu fosse forcado”, suspira.

“Se Deus quiser”. A expressão inicia muitas das frases dos manos Rosa. Ou não fossem a superstição e a religião estarem sempre presentes na vida de um forcado. Sidónio, por exemplo, coloca o barrete em cima da cama antes das corridas e tem uma figura da Nossa Senhora de Fátima que o acompanha para todo o lado. João, por seu turno, também não sai de casa sem os seus santinhos. Houve uma vez que se esqueceu deles e não fez a corrida. “Somos muito crentes a Deus”, diz Sidónio que acredita ter o destino traçado desde que nasceu. “Se um dia tivesse de morrer novo, não me importava que isso acontecesse dentro de uma praça”, declara enfaticamente.

Os dois nutrem uma única mágoa. O facto dos pais nunca os terem visto a pegar um touro. A mãe, Mariana, abana a cabeça com o discurso do filho e desabafa que só ela sabe o que já sofreu pela carreira dos rebentos. “Sofro em silêncio”, garante com a voz trémula.

O filho mais velho declara meio a brincar: “Se ela for assistir a uma corrida até desisto disto tudo”. Mariana responde prontamente: “Ele, que foi eleito ‘Forcado do Ano’ em 2002, devia aproveitar este prémio para abandonar a vida de forcado no auge da sua carreira. Seria uma saída em glória.” Sidónio não esconde um sorriso matreiro. Ele sabe que pelo menos este ano ainda vai fazer sofrer a progenitora. “Deixei tudo para pegar touros”, declara com orgulho. “Não será ainda desta que arrumo a jaqueta e o barrete.” Será que teremos direito a assistir a um duelo de irmãos este ano?

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