Não são ricos, mas partilham o que têm. Histórias de quem faz da solidariedade um modo de vida.<br/>
Maria João Morgado escolhe o verbo ‘partilhar’. Se fosse ‘dar’ “também teria muito significado e força”, mas o primeiro sugere-lhe de forma mais explícita a ideia de “dividir o que se tem, sejam bens, sorrisos ou afectos”.
No seu gabinete, na creche de Santa Teresinha do Menino Jesus, da Santa Casa da Misericórdia da Amadora, a solidariedade está à vista.
Há sacos de brinquedos e roupas doados por pais e funcionários para a Ajuda de Mãe, garrafões cheios de tampinhas para trocar por cadeiras de rodas, sacos de cheiro e gatos de tecido feitos à mão pelos utentes de um lar de idosos para vender.
Quando é preciso contratar um serviço externo, a educadora de infância e catequista, de 41 anos, recorre aos pais que - sabe ela melhor que ninguém - passam por dificuldades. Já houve quem lhe batesse à porta porque não tinha dinheiro para o leite, fraldas ou transportes.
Maria João reage rapidamente, passa a palavra, constrói a rede próxima, a mais fundamental. É a primeira a encher o saco, pois a solidariedade começa em casa, onde é uma preocupação diária: “Faço-o naturalmente. As roupas, os brinquedos, os medicamentos que já não se usam são para entregar na igreja”.
Matilde, a filha de oito anos, leva todos os dias para a escola no Monte Abraão, em Queluz, o seu lanche e também o de alguns colegas cuja lancheira segue vazia. Há poucos dias trouxe uma mensagem da escola, num papelinho com o sugestivo título ‘Se a Tua Mão Repartir o Coração Vai Sorrir’ que apelava para uma recolha de bens alimentares. Matilde pegou no saco e foi enchendo com o que havia na despensa.
"E ainda queria pôr mais, mas tive de lhe explicar que não podíamos dar tudo porque também nos fazia falta". Maria João também herdou dos pais o espírito solidário: "O meu pai era capaz de sentar um pedinte à mesa".
"A nossa amizade nasceu à janela. O meu marido partiu a perna e a Maria da Luz costumava perguntar, do outro lado da rua, se precisava de alguma coisa. Agora é a minha vez", diz Lurdes com um sorriso.
Reformada da função pública, casada e sem filhos, tem coração grande e vontade de ajudar. Ajuda o enteado no que pode e tomou a seu cargo a missão de acompanhar a vizinha às consultas, nas compras domésticas e, de vez em quando, lá vai uma sopa ou um prato quentinho. "Mesmo quando estou na Guarda, telefono sempre. Fico sossegada se souber que ela está bem."
Os olhos azuis de Maria da Luz brilham com a vida que tem para contar. Nasceu em Castro de Aire, chegou a Lisboa com 13 anos e desses tempos recorda dias felizes. Depois, veio o casamento com um joalheiro-relojoeiro, um filho, a separação e os "dias de pobreza".
"A vida não era fácil. Quando fiquei sozinha, com um filho de seis meses, aluguei esta casa e comecei a arrendar quartos. Conheci assim o meu segundo marido. Vendia jornais, arranjámos uma banca no Rossio e fizemos a vida". Dessa época, Maria da Luz mantém o hábito de poupar. A reforma, mínima, dá para o dia-a-dia.
Na varanda, as couves plantadas ajudam a suportar os dias mais escuros. Orgulha-se do lar decorado com quadros da sua história e só lamenta que a água da chuva escorra nas paredes. "Precisava de uma renovação, mas as obras são caras". Lurdes oferece ajuda: "Pinto-lhe a casa quando quiser, ela sabe".
Lurdes e Maria da Luz apoiam outros vizinhos da Baixa lisboeta. Em véspera de Natal, "enchemos os cabazes" com bacalhau, azeite, enchidos, compota, broa, e o cartão de assistência médica ao domicílio, oferecidos pela junta de freguesia de S. Nicolau. A rede de vizinhos é grande e calorosa. "Aqui todos ajudamos", garante Alzira Paixão, 67 anos, reformada. "Temos o cuidado de acompanhar quem está pior do que nós."
Comida para quem precisa
Alice Maia da Cunha é cozinheira e dona da churrasqueira Alice, em Braga, desde a sua fundação, há 25 anos. Todas as semanas, o seu restaurante dá sopa aos sem-abrigo da cidade e Alice ajuda, a título individual, dezenas de famílias. "Há uma mãe com nove filhos, um dos quais deficiente, a quem dou roupa, comida e a quem pago contas há mais de vinte anos. Quando a conheci, o menino deficiente tinha 11 anos e a mãe pediu-me, envergonhada, um prato de sopa para ele. Ajudo-os até hoje", diz Alice Cunha.
Esta cozinheira, que vive desafogada porque trabalha mais de 14 horas por dia, apoia dezenas de pessoas: as que vão ao seu restaurante pedir um prato de comida, vizinhos e conhecidos a quem dá roupa e mercearia ou paga medicamentos e contas de água e luz.
"Há tempos estava na farmácia e uma senhora chorava porque não tinha dinheiro para comprar um medicamento para o filho, desesperado com dores de dentes. Não podia deixar a mulher ir embora sem o remédio e paguei-lho. Ela agradeceu-me tanto, a chorar", conta. Alice Cunha rejeita louvores: "Quando temos alguma coisa devemos partilhar com os que vivem com dificuldades, sem estar à espera de recompensas e honrarias".
Professora solidária
O dia-a-dia de Hermínia Borges, de 45 anos, é passado entre Macedo de Cavaleiros, onde reside, e a Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado, em Torre de Moncorvo, onde é professora. Há sete anos que Hermínia ajuda alunos carenciados da escola.
"Alguns vivem em instituições, outros vêm de famílias problemáticas. São jovens revoltados, e eu tento fazer com que eles se sintam bem e que gostem da escola", conta.
"Se um aluno chega com frio pego no carro e vou comprar-lhe um casaco, se não tiver fato de treino para Educação Física eu arranjo". Além da ajuda, organiza viagens com os alunos ou fins--de-semana em sua casa.
O apoio do marido, Jaime Alves, tem sido muito importante. "É por uma boa causa, faz parte da vida dela ajudar pessoas. Comporto a maior parte das nossas despesas para ela poder usar o seu rendimento a fazer o bem e ajudar os outros", explica.
Não são só os alunos que recebem o apoio de Hermínia. As portas de sua casa estão sempre abertas. Daniela Morais é um exemplo desse apoio: "ela tem um coração cinco estrelas, é uma pessoa muito bondosa. Abriu-me a porta de casa, não só no Natal mas como em várias alturas do ano, tudo o que eu precisar sei que posso contar com ela" contou a jovem, de 25 anos, que vive sozinha.
Estender a mão
É conhecido como ‘Professor Felicidade’ por estar sempre disponível para ajudar. Domingos Félix, 43 anos, sabe o que é "estender a mão a alguém quando mais precisamos". Já passou por essa situação.
Sem trabalho e sem apoio familiar, este angolano dormiu vários meses ao relento no Parque Verde do Mondego, em Coimbra. "Passei muitas noites debaixo de chuva", conta. Hoje, com um rendimento de 398 euros de uma bolsa de estudos, consegue pagar um quarto e vai tendo dinheiro para "partilhar uma refeição" com quem "nem um pão tem em casa, apenas o frigorífico cheio de garrafas de água".
São pessoas que, como ele, "ficaram de repente ao Deus dará, sem trabalho nem apoio". O rendimento dá para sobreviver, mas Domingos encontra sempre "alguém em pior situação". Se tem dinheiro no bolso, não consegue ficar indiferente.
Já chegou a acolher no seu quarto, um rapaz que ficou sem tecto: "Não ficava bem comigo mesmo se não o fizesse". Se não tem dinheiro, procura orientar as pessoas para instituições. "Já encontrei gente que saiu da prisão e ficou na rua por não ter ninguém a quem recorrer. Encaminho-os para onde possam tomar uma refeição ou ter apoio". Domingos Félix é um dos casos de sucesso da Associação Integrar, que lida com gente em dificuldades. "Agora tenho de dar prioridade aos outros que precisam mais do que eu", diz Domingos.
Depois de pagar as contas, Gina Rosa, 79 anos, divide todos os meses a reforma de 140 euros com dois casais da freguesia de Santa Clara, Coimbra, que estão desempregados. "Dou 20 euros a cada um. É pouco, mas é uma ajuda para quem está desesperado, sem trabalho, e não recebe subsídios", diz Gina Rosa.
Gina Rosa não é de amealhar dinheiro.Vive numa quinta onde tem horta e cria animais. Tem o apoio de familiares. "Não guardo nada. De um momento para o outro uma pessoa deixa o mundo. O que tenho é para repartir". Não há prazer maior, garante: "É uma felicidade inimaginável".
Gina foi voluntária em Moçambique, para onde emigrou com o marido, numa instituição de apoio a crianças órfãs. Com o regresso a Portugal, após o 25 de Abril, instalou-se em Coimbra, e trabalhou numa escola. Comprava a sopa que sobrava na cantina e distribuía-a por quem necessitava.
Chegou a acolher na quinta, onde ainda hojemora,17pessoas,entre sem-abrigo e pessoas com problemas psiquiátricos, "abandonados por todos".
Hoje lamenta "já não ter forças para cuidar de ninguém". Mas quem lhe bate à porta não fica sem ajuda. "A Dona Gina fez e ainda faz um trabalho social muito importante, sem receber nada em troca", diz José Simão, presidente da Junta de Santa Clara.
Conceição de Melo, 67 anos, já conduziu um táxi em Londres e foi empregada de mesa no grandioso Hotel Hilton, em Inglaterra.
Hoje dedica grande parte do seu tempo ao voluntariado e na ajuda aos mais pobres. "Aos 60 anos, senti que não estava completaequefaltavafazer qualquer coisa. Foi nessa altura, já em Portugal, que me dediquei a outras causas", conta a reformada que vive em Sines.
Além de pertencer ao núcleo da Missão Coragem, que ajuda mulheres com cancro da mama, é voluntária da Santa Casa da Misericórdia. Faz alguns trabalhos de tricô, recolhe roupas e sapatos junto de amigas e sai para a rua à procura de quem mais precisa.
"Vou ter com as pessoas que vivem em montes, que conhecem outras que precisam", explica a ex-taxista que já perdeu a conta às vezes em que o marido chega a casa sem casaco."Se encontra alguém que precisa, despe e oferece."
"Todos temos uma vocação. Uns vão para padres, outros fazem outras coisas. A minha é ajudar os outros." É com esta simplicidade que Lídia Silva, de 57 anos, se caracteriza. Natural de Cabo Verde, veio para Portugal há 41 anos.
"Trabalhei em imensossítios,incluindo17 anos numa cozinha em Vale do Lobo e 14 anos como fisioterapeuta na Santa Casa da Misericórdia, mas sempre fiz voluntariado", conta a ‘DonaLídia’, como é conhecida em Loulé.
Há sete anos começou o projecto da Associação Esperança e Paz, uma casa de acolhimento na rua Serpa Pinto. "Abri esta casa porque via muita desgraça e queria dar resposta. Aqui não há burocracias, há resposta imediata", assume Lídia Silva.
A casa de acolhimento é sustentada financeiramente apenas por Lídia, que trabalha como fisioterapeuta e massagista ao domicílio, pelo marido, que é reformado, e "alguns apoios que aparecem de vez em quando".
Na casa recebem sobretudo idosos, mas não negam ajudaaninguém."Podemtomar banho,lavararoupa,comer. Quem puder pagar, paga. Quem não conseguir, não tem de pagar", explica. Não se arrepende: "Passo o dia e a noite a trabalhar. Se não estivesse sempre a ajudar os outros, estava rica. Mas sinto-me realizada."
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