Usam a net para publicitar as festas da noite júnior. Pela tarefa receberam o título de RP. ganham dinheiro. podem Tirar mais do que o salário mínimo nacional.
O relógio da estação de Algés marca 21h40. Devidamente trajada e maquilhada, Marta Aguilar aguarda o comboio, que teima em não cumprir o horário, enquanto dactilografa no telemóvel. Dentro de menos de meia hora tem de estar na discoteca Loft e juntar-se ao resto da equipa da Elite Night. Sexta-feira sim, sexta-feira não, a história repete-se. De vestido encarnado e tacão alto, alheia aos piropos que provoca, Marta está pronta para ser a anfitriã de mais uma noite de festa. Tem 17 anos mas já é uma autêntica profissional. Com direito a título de ‘melhor RP’ da promotora onde trabalha e um recorde pessoal de 500 euros numa só noite.
Estreou-se como relações públicas (RP) há cerca de três anos. Uma amiga lançou-lhe o repto. Decidiu experimentar. O arranque não foi fácil, 'era nova no meio e muitas pessoas não sabiam que era RP'. Agora, 'são elas a virem ter comigo'. E se há um ano ‘meter’ 100 pessoas 'era o auge, actualmente trazer 200 é razoável, nada de especial!' Prestes a entrar para a faculdade, está indecisa entre Publicidade e Gestão, acalenta o sonho de, um dia, abrir a sua própria promotora. Entretanto, vai tentando conciliar da melhor forma possível os estudos e o seu ‘ofício’. 'É uma questão de organização, ser RP já interferiu muito com a escola. No início estava no mundo da lua, só queria saber de noitadas. Claro que as notas caíram e a minha mãe chegou a proibir-me. Até que acordei para a vida e comecei a estudar mais'. Quando percebeu que conseguia fazer as duas coisas, a mãe sossegou um pouco. 'Não gosta mas deixa'.
Também os pais de Joana Ferreira – da mesma idade de Marta – não se opõem a que a filha trabalhe à noite, até 'porque entendem que é uma maneira fácil de ganhar o meu próprio dinheiro'. Como mora em Cascais, foi na discoteca Bauhaus, famosa pelas matinés para os mais novos, que deu os primeiros passos enquanto RP. 'Safei-me bem e fiquei'. Depois surgiu a oportunidade de entrar no projecto BeAlive, 'para substituir um amigo que ia sair'. Fazer parte da equipa de RP da BeAlive não a fez baixar as notas. Contudo, reconhece, 'nas fases em que me dedico mais à noite, os estudos ressentem-se sempre'. Todas as terças-feiras à tarde reúne-se com os coordenadores. Fazem o balanço da festa passada, distribuem os convites para a próxima e saldam contas. A seguir é pôr mãos à obra, 'começo a enviar sms, crio uma frase gira com informação sobre a festa e digo que tenho convites'. Convites que Joana marca com o seu código. Todos os RP têm um, para que no final da noite seja possível contabilizar quantas pessoas ‘meteu’ cada um. Joana explica que 'a regra costuma ser um euro por pessoa que vem da nossa parte'. No entanto, na BeAlive há uma cláusula e só os três melhores RP da noite, ou seja, os que conseguem trazer mais gente, vêem os seus esforços recompensados monetariamente. Não sendo frequente, houve já vezes em que saiu do Buddha, onde decorrem as festas, de mãos a abanar. 'Sei quando não vou receber nada porque depende do meu esforço, se queremos ganhar dinheiro temos de nos empenhar.' O objectivo é claro – encher a casa – e só lucra quem mostrar resultados. Para garantir lugar no top 3, Joana desenvolveu o seu próprio esquema, que assenta na ‘subcontratação’ de colaboradores. Espalhados pelas secundárias de diferentes zonas de Lisboa e da Linha de Cascais, são uma preciosa ajuda.
Ao contrário de Joana, que não tenciona continuar a ser RP por muito mais tempo, 'só até entrar para a universidade', Francisco Abecassis encara este trabalho de modo mais sério. A meio do curso de 'Relações Públicas, Marketing e Publicidade' no INEPI (Instituto de Ensino Profissional Intensivo), ser RP não se limita a 'estar com os amigos e ganhar algum dinheiro', uma vez que acaba por lhe 'dar currículo'. Sabe, porém, que os RP da noite da sua idade 'não têm nada a ver com os das empresas'. É tudo muito mais levado na descontracção. Entrou nisto há um ano e tem-se mantido no bar Lobby. Situado em Santos, zona de excelência dos mais novos, não há sexta-feira que não encha. O bar, explorado pela promotora Night Project, é um sucesso. Talvez pelo peculiar sistema de todos pagarem à porta com bar aberto. Às raparigas são cobrados 8 euros e aos rapazes 12, o resto é por conta da casa. Dentro das suas funções, o Francisco tem de ligar aos amigos e conhecidos, mandar sms e chegar mais cedo à discoteca para receber quem lá ‘mete’. Apesar de 'ser tudo feito entre amigos', sente o peso da responsabilidade. 'A noite depende de nós, do número e do tipo de pessoas que metemos lá dentro'. E, a verdade, é que não são todos os que conseguem ser bem sucedidos. Quem não atrai muita gente ou 'faz porcaria' no bar, normalmente vai para a rua. Em média, cada noite costuma render-lhe entre 50 a 60 euros, o que, do seu ponto de vista, compensa 'a parte chata de ter de insistir com as pessoas, passar das mensagens aos telefonemas, ligar e voltar a ligar'.
Francisca Gaivão é colega de Francisco, no Lobby. A sua entrada no mundo dos RP foi ligeiramente diferente. 'O meu primo era colaborador num bar e uma vez faltou uma pessoa que lá trabalhava.' Nesse dia encontraram-se por acaso e ele perguntou-lhe se não queria ir substitui-lo. Pela piada, disse que sim. 'Entretanto avisei os meus amigos e acabou por aparecer lá imensa gente. A seguir a isto convidaram-me para ser RP'. Após algumas festas no Loft e no Garage, em que chegou a receber 150 euros por uma noite, entrou para a Night Project. Ao feitio extrovertido e despachado Francisca soma o entusiasmo por motas e a ginástica rítmica. A seu ver, a noite está muito mudada. 'Há cada vez mais alternativas e as pessoas dispersam-se mais.' Com uma ponta de saudosismo, recorda o 'por favor, põe-me na tua guest list' de antigamente. A par do aumento da concorrência, também o discurso mudou. 'Agora é mais do tipo: por favor, deixa-me pôr o teu nome na minha guest!' Sem papas na língua, Francisca desabafa que está um pouco farta da noite e do facto de a verem 'como uma pessoa fútil, que só quer saber de copos'. Como quase tudo na vida, ser RP tem o reverso da medalha. 'Sinto que me canso mais rápido da noite, chega a uma altura em que já não posso ver discotecas'. O fim do capítulo ‘sou RP’ adivinha-se para breve, mas um novo já está a ser escrito. 'Ando a fazer trabalhos de hospedeira em eventos, é uma boa alternativa'. Para quem ainda tem tanto pela frente, o crepúsculo é apenas o prenúncio de um qualquer novo dia.
CRISE CHEGOU À NOITE. O QUE RENDE É IR AO SUPERMERCADO
Francisca Gaivão começou a sair cedo à noite, acompanhada pelos irmãos mais velhos. Pertence a uma família numerosa. Todos juntos, a contar com os irmãos dos segundos casamentos dos pais divorciados e a irmã adoptada, perfazem dez. Estuda na Sec. Maria Amália, em Lisboa, e diz ser uma aluna média. RP há quase dois anos, alerta que a crise já se sente no bolso dos que vão para os copos. A moda é comprar garrafas no supermercado e ficar a beber na rua. Além de RP, Francisca trabalha como hospedeira. O dinheiro que recebe é gasto no que mais gosta: viagens. A última foi a Londres.
PERFIL
Nome: Francisca Gaivão
Idade: 17 anos
Estudos: 12.º ano, Esc. Secundária Maria Amália
Hóbis: Ginástica rítmica e acrobática
A VETERANA DAS SEXYSSA NA LOFT
'Ser simpática e levar tudo na boa onda' é a fórmula do sucesso de Marta Aguilar. A primeira vez que saiu à noite tinha 15 anos. Pouco tempo depois era RP. Filha de pais divorciados, ambos funcionários da TAP, Marta vive com a mãe em Algés. O pai está pouco a par desta faceta da filha, enquanto a mãe 'não gosta mas deixa'. Estudou durante dez anos no Instituto Espanhol até mudar para a Escola Sec. de Miraflores. Adora o que faz mas lamenta que a noite seja tão falada. 'Quando és minimamente conhecida toda a gente gosta de inventar.'
PERFIL
Nome: Marta Aguilar
Idade: 17 anos
Escola: 11.º ano, Escola Sec. de Miraflores
Hóbis: Ir à praia, estar com os amigos e viajar (nunca paga passagem)
SIMPATIA E SENTIDO DE OPORTUNIDADE
Joana Ferreira fez questão de ser fotografada ao lado dos amigos. Também eles ajudam a encher o Buddha Bar às sextas-feiras. Mais do que isso, garantem a diversão que Joana afirma desfrutar sempre que sai à noite. A partir das duas da manhã, o trabalho está terminado e Joana pode ficar à-vontade. Para trás fica uma semana de contactos e convites, num eficaz sistema que a própria desenvolveu. Empreendedora e dinâmica, a RP não se fica por menos. Este ano vendeu 37 viagens por entre amigos e colegas do liceu e teve direito a uma semana 'à borla' em Benidorm. Quando as oportunidades aparecem, não se faz rogada. E 'safa-se' sempre bem.
PERFIL
Nome: Joana Ferreira
Idade: 17 anos
Escola: 12.º ano, Escola Sec. de São João do Estoril
Hóbis: Ir à praia e estar com os amigos
'TRABALHAR À NOITE SERVIU PARA AFASTAR IDEIAS MÁS QUE TINHA'
Ainda novo nestas lides, Diogo Schaefer divide-se entre as aulas de ténis, no Lisboa Racket Center, a faculdade e as noites como RP. Estreou-se na discoteca BBC e rapidamente assegurou o seu lugar na equipa de RP da promotora Kitsch. De início teve de lutar contra a relutância dos pais. Mas, para Diogo, 'trabalhar à noite serviu para afastar algumas ideias más que tinha deste mundo'. O que mais gosta neste trabalho é 'conhecer muita gente, poder oferecer regalias aos amigos e, claro, a diversão'. Números redondos, 'são cento e tal euros' à noite.
PERFIL
Nome: Diogo Schaefer
Idade: 20 anos
Universidade: 3.º ano de Economia, Lusíada
Hóbis: Ténis, póquer, estar com os amigos e futebol
Motivação: Palavra-chave do sucesso
UM HÓBI QUE DÁ 'TROCOS'
Hugo Antunes está à frente da promotora Be Alive e do bar Alive. Defende que os novos RP são apenas "distribuidores de propaganda, apesar de adorarem o título". No fundo, o que procura são ‘opinion leaders’, "miúdos que, dentro do seu meio, tenham a capacidade de atrair outros". Esta é uma actividade que, na sua opinião, tem de ser vista como um hóbi que dá uns trocos. Dinheiro esse que depois é canalizado para diversos fins.
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