O poeta oficial da I República também escreveu versos (muito) marotos.
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850-1923) estudou para padre, mas acabou por trocar Teologia por Direito. A formação jurídica abriu-lhe as portas da carreira de burocrata, chegando a secretário do governo civil de Angra do Heroísmo, nos Açores, e de Viana do Castelo.
Ao mesmo tempo começa a dar nas vistas a sua obra poética, caracterizada por uma oratória grandiloquente, dada a exageros retóricos. Daí à política foi um passo: deputado por Macedo de Cavaleiros e por Quelimane (Moçambique), aderiu ao Partido Progressista, a que pertencia o seu amigo Oliveira Martins. Com ele fez parte do grupo dos Vencidos da Vida, integrado também por Eça de Queiroz e Antero de Quental, entre outros intelectuais.
Indignado com a cedência ao Ultimato inglês, em 1890, escreveu poemas que eram panfletos antimonárquicos: ‘Finis Patriae’, ‘Canção do Ódio’, ‘Pátria’. Em ‘O Caçador Simão’ (1890) chega a sugerir o regicídio – com 18 anos de antecedência.
É desta fase a sua incursão erótico-satírica, com o célebre poema ‘A Torre de Babel ou a Porra do Soriano’. Retirou-se depois para as suas propriedades no Douro, onde compensou o anticlericalismo de ‘A Velhice do Padre Eterno’ com poemas eivados de religiosidade, como ‘Os Simples’ ou ‘Oração do Pão’. Gerações de alunos do básico recitaram os versos de ‘A Moleirinha’: "Pela estrada plana, toc, toc, toc/ Guia o jumentinho uma velhinha errante"... Morreu em 1923, consagrado como poeta ‘oficial’ do regime republicano.
Do livro ‘Poesia Portuguesa Erótica e Satírica Séculos XVIII-XIX’, Edições Afrodite
A Torre de Babel ou A Porra do Soriano
"Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e para o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!
Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem colhões que idéia vaga
das nádegas brutais do Arcebispo de Braga.
Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo
do Mundo!
Mastro de Leviathan! Iminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel
Caralho singular! É contemplá-lo
É vê-lo teso!
Atravessaria o quê?
O Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder a Terra, Eva no Paraíso!!
É uma porra infinita, é um caralho insone
que nas roscas outrora estrangulou
Laocoonte.
Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!
Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
O Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
– Nada, nada contém a porra do Soriano!!
Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita??
– Uma fenda do globo, um sorvedouro
ignoto
que lhe dá de abrir talvez um dia um
terramoto
para que desague, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical
langonha!!!
A porra do Soriano, é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra,
pergunto?
Onde é que ela começa?
Onde é que ela termina
essa porra, que estando em Braga, está
na China,
porra que corre mais que o próprio
pensamento,
que porra de pardal e porra de jumento??
Porra!
Mil vezes porra!
Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmo num
minuto!!!"
--
Freixo de Espada à Cinta
Na sua terra natal, Freixo de Espada à Cinta, Guerra Junqueiro é homenageado pelo município, que tem aberta ao público a Casa do Poeta, onde se recorda a sua obra.
Bandeira azul e branca
Em 1910, o poeta propôs que a República mantivesse a bandeira azul e branca, substituindo a coroa por uma esfera armilar cercada por cinco estrelas em arco.
Embaixador de Portugal
Logo a seguir à implantação da República, Guerra Junqueiro foi nomeado Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Portugal em Berna, na Suíça.
Junqueiro no Panteão
Em 1966 foi trasladado para o Panteão Nacional, onde se encontra ao lado de figuras da cultura e da política, como Humberto Delgado, Amália ou Eusébio.
Jardim da Estrela
Jardim Guerra Junqueiro é o nome oficial do parque conhecido por Jardim da Estrela, junto à basílica da Estrela, na freguesia lisboeta do mesmo nome.
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