Quando se apercebeu do clarão que tingia a madrugada,Maria Leonor cheirou a tragédia que, consumada poucas horas depois, lhe levaria a casa e a deixaria viúva pela segunda vez. E, nesse dia, há 20 anos, enquanto o Chiado ardia, capacho das chamas que comoveram o País e deixaram Lisboa em lágrimas, a idosa pensou: "Quem chega aos 76 anos não pode morrer num incêndio." Mesmo que o fogo avance galopante pela casa sem pedir licença e a única saída possível seja abrir a janela da cozinha e saltar do 4.º andar. Mesmo que pareça quase impossível conseguir escapar e que se tenha de valer de uma genica arranjada "sabe Deus onde".
Leonor sobreviveu ao maior incêndio que a cidade recorda, depois de 'uns meses' no hospital a recuperar de queimaduras graves, e tem sobrevivido à vida a cada dia: os 96 anos pesam-lhe hoje mais nas pernas do que na memória. Morava há já 40 anos na rua do Carmo, um dos palcos que o fogo não poupou, quando o 25 de Agosto amanheceu alaranjado. 'Ouvi os gritos do bombeiro a dizer para eu sair. Pus um banquinho à beira da janela da cozinha, subi por ele e depois os bombeiros mandaram-me uma corda, eu gatinhei e depois o bombeiro puxou-me...' Do marido, com ela em casa nessa madrugada, restou 'uma medalhinha com o nome que encontraram junto aos ossos'. Mário Ramires Vidal, 77 anos, não sobreviveu. 'O bombeiro disse para o meu marido: ‘salte!’ E ele disse que não era capaz.'
O relatório dos Sapadores diz que o idoso morreu ao atravessar uma tábua estendida pelos bombeiros. Terá caído no vazio das chamas. Leonor perdeu tudo. 'Toda a gente pensava que eu tinha morrido porque estive muito tempo no hospital, cheguei tão tarde que já tinham gasto os 3000 contos que eram para mim, não tive direito a nada.' O desabafo é dito em tom de gracejo – Leonor não é dada a queixumes.
Já a existência do bombeiro Joaquim Catana Ramos foi abreviada pelas chamas. Ainda era jovem, 31 anos de vida, quando o fogo lhe queimou o corpo numa extensão de 85% a 95% – feridas a que sucumbiu a 2 de Setembro, dias depois. Foi a segunda vítima mortal. Muitos dizem, burburinho de bairro, que era ele o bombeiro que tentou salvar o marido de Leonor, mas a única certeza é que as queimaduras foram provocadas pela explosão de um aparelho, pensa-se que um computador. Natural de Castelo Branco, Catana Ramos é recordado pela sobrinha, Filomena, como 'muito divertido, apesar do ar sisudo'. Os pais 'já tinham morrido na altura mas ele vivia com uma rapariga', conta a sobrinha, menina na altura do fogo – tinha 12 anos. 'Era a primeira vez que fazia o almoço em casa. Olhei para a televisão e vi a imagem da maca a passar com o meu tio, vi que era ele mas disse para mim: não, não pode ser'.
Paulo Sequeira viu a mesma imagem – o bombeiro Joaquim na maca transportada pelos camaradas – mas ao vivo. 'A altura mais marcante foi o transporte do colega dos Sapadores atingido pelos rebentamentos, imagem que ainda hoje não esqueço.' Paulo tinha então 17 anos e era cadete dos Voluntários de Alverca. 'Estava em casa quando comecei a ouvir o som da sirene do meu quartel a chamar. Sem mais delongas, peguei na minha pouca farda de ainda puto dos bombeiros e avancei para o quartel.'
Foram as mesmas chamas que Diamantina e João Santos viram, pelas 7h00, através da televisão, não querendo acreditar que era o Chiado onde moravam que estava a arder. O casal estava a passar uns dias de férias no Entroncamento quando o incêndio deflagrou. Foi com o coração nas mãos que, perante a evidência das imagens, pensaram: 'Se o Grandella está a arder, a nossa casa também está.' Estava mesmo – às 10h00, quando chegaram a Lisboa, já as águas-furtadas do prédio da rua da Assunção, onde viviam há 25 anos, desapareciam nas chamas. Restou uma chávena queimada.
'Perdemos tudo, até escolhi peças de roupa usadas que a Santa Casa nos ofereceu', recorda Diamantina. Durante um ano viveram em casa da filha, em Queluz, antes de comprarem a casa em Massamá. 'Deram-nos 1800 contos por cabeça e com o dinheiro do seguro conseguimos', sublinha João.
Maria Luísa Silveira tem saudades da 'Baixa antiga'. Não que lá morasse, mas era sítio de passeio obrigatório. Naquela madrugada, contudo, foi para lá como voluntária da Cruz Vermelha. 'Vi às 6h00 que o Chiado estava a arder e que pediam pacotes de leite. Vesti a minha farda, peguei no leite e em maçãs e fui para lá. Lembro-me de andar para baixo e para cima com o leite para os bombeiros, as botijas a explodir, os vidros a caírem aos meus pés.' Pés que ficaram sem sapatos de tanta caminhada. 'Uma senhora atirou-me de uma janela uns de homem', lembra.
Muito provavelmente, Conceição Videira terá ajudado Maria Luísa a preparar o alimento para os bombeiros. 'Trabalhava no Quartel do Carmo e a cozinha virou campanha, disponibilizei-me para ajudar as senhoras da Cruz Vermelha e formámos uma verdadeira linha de montagem: uma abria o pão, a outra punha o recheio...' João Amaral também estava de piquete. Polícia, 28 anos na altura, chefiava uma equipa – a primeira a chegar ao local do incêndio. 'Parecia que estava dentro do filme ‘Torre do Inferno’, tudo a arder e as pessoas a quererem passar. Fechámos a zona, à entrada da rua do Carmo, para não passar ninguém.'
Mas João Sales conseguiu passar. Trabalhava no largo Camões e logo percebeu 'as dificuldades que teria' para se deslocar ao emprego. 'Acorríamos às janelas tentando perceber quando o fogo ia ser controlado, havia muito fumo e muita gente', lembra.
Vítor Sousa já estava por perto quando o incêndio começou. Trabalhava na praça do Município como segurança do BPI e o sono tinha-o tomado. 'Acordei com o som de rebentamentos e sirenes e pensei que era a Marinha que estava a arder.' Não era, era o Chiado.
Como qualquer jornalista, Joaquim Condesso costuma dizer que em Agosto não acontece nada. Nada digno de notícia. Por isso, chegado de férias, concordou em dar uma boleia à mulher no dia seguinte, 25 de Agosto de 1988. Ela, analista química, entrava ao serviço, na Sumolis, em Carnaxide, pelas oito horas. Moravam em Sacavém. Levantaram-se às seis e meia. Joaquim ligou o rádio, sintonizado na TSF, a primeira rádio a dar a notícia: o Chiado ardia.
O fotojornalista deixou a mulher no emprego e ‘voou’ para Lisboa. No alto do Parque Eduardo VII viu as colunas de fumo. 'Percebi que era muito grave.' Nos Restaurantes encontrou Mário Soares. Um dos batedores do então Presidente da República não conseguira evitar que a mota em que seguia fosse contra um táxi. 'Mário Soares tinha saído do carro e estava a tentar perceber o que acontecera.'
Nessa altura, pré-digital, os fotojornalistas trabalhavam com rolos. Joaquim Condesso não sabe ao certo quantos usou. O que viu através da objectiva foram 'pessoas em pânico, que retiravam dossiês dos edifícios e, no largo do Carmo, gente aflita, sem saber o que lhe aconteceria'. As imagens que então captou fazem parte do portfolio com que, em 1993, concorreu a um prémio europeu de fotografia. Ganhou.
Há momentos na vida que parecem não ter significado até tornarem-se memória. Luís Franco, enfermeiro de 48 anos, sabe disso. No dia 24 de Agosto de 1988, ele e a mulher, casados há cinco anos, palmilharam a Baixa à procura de um faqueiro. Na Casa José Alexandre, em plena rua Garrett, encontraram um de que gostaram. Desceram a rua do Carmo, entraram na Casa Leonel e viram outro. Nada decidiram para além de voltar no dia seguinte – a Casa José Alexandre, onde agora funciona uma loja Hugo Boss, não era se não um punhado de cinzas. O faqueiro acabaram por comprá-lo na sobrevivente Casa Leonel. Não há almoço ou jantar em que se sirvam dele sem que a Luís e à mulher acuda a lembrança daquele dia.
Trabalhavam os dois como enfermeiros no Hospital de S. José, para onde foram conduzidos os feridos. Quando o turno acabou, às quatro e meia, Luís caminhou até ao Chiado, sem esquecer a máquina fotográfica. Mostrou o cartão do Hospital a quem tentou vedar-lhe o acesso. Lembra-se de estar de pé na zona onde antes tinha funcionado o Grandella, de olhar para cima e de ver o céu. Lembra-se dos bombeiros que, exorcizando a desgraça, davam toques em bolas encontradas entre os escombros dos grandes armazéns.
BOMBEIRO NÃO RESISTIU
Joaquim Diogo morreu a 2 de Setembro, não conseguindo resistir às queimaduras provocadas por um rebentamento. A imagem da maca que o transportou para o hospital correu o País. O seu nome, Bombeiro Catana Ramos, foi posteriormente, e em jeito de homenagem, atribuído a uma rua lisboeta, na freguesia de Santo Condestável. O funeral foi em Castelo Branco, a terra natal do bombeiro – em cima a página do ‘Reconquista’.
NA VARANDA DA RUA DO CARMO
Na rua do Carmo 'tinha uma varanda de nove metros e meio de onde se viam as pessoas a passar, era muito bonito'. Era lá que Leonor morava com o segundo marido, que pediu em casamento 'depois de umas farturas na Feira Popular'. Enamoraram-se quando Mário foi a casa dela 'arranjar uns fios', era electricista.
VOLUNTÁRIA NO CHIADO
Maria Luísa Silveira recorda que na véspera do incêndio estava num prédio da rua do Carmo, à espera de uma consulta, e uma senhora despertou-lhe a atenção. 'Era tão velhinha, estava à janela e eu pensei: se acontece alguma coisa como é que ela sai dali?' Muito provavelmente era Maria Leonor, a viúva do Chiado...
LISBOETAS SAÍRAM PARA A RUA FOTOGRAFARAM O DRAMA
Vítor Pinho soube do incêndio 'logo pela manhã, nos noticiários'. Lembra-se da 'angústia de uma cidade a perder o seu centro histórico, uma cidade toda ela cheia de história e também o imenso pasto de chamas a consumir locais emblemáticos'. Vítor não esquece, ao mesmo tempo, 'a luta dos bombeiros em travar as chamas na zona'. Uma luta desigual. Estava na altura desempregado e encontrava-se no centro das operações, onde aproveitou para fotografar um álbum de memórias, que guardou para a posteridade, de um dos momentos mais dramáticos vividos na capital – depois do terramoto de 1755 foi o incidente mais trágico que Lisboa conheceu. 'Este fogo flagelou o coração da cidade', considera Vítor Pinho, autor das fotografias em baixo publicadas. Muitos lisboetas fizeram como ele: saíram para a rua mal souberam do sucedido e captaram imagens da tragédia de 25 de Agosto de 1988.
ÁGUAS-FURTADAS ARDERAM
As águas-furtadas onde moravam arderam. Por isso, venderam o andar à Câmara. 'No contrato dizia que, depois de pronta, podíamos readquiri-la mas agora pedem-nos 150 000 euros e só a vendemos por 1750 contos', desabafam, garantindo que 'se subisse o preço era só até 20% a mais'.
PRIMEIRO IMPACTO NO PARQUE
'Desço a avenida? Não desço?', hesitou Joaquim Condesso, fotojornalista chegado de férias, quando, no alto do Parque Eduardo VII, avistou duas colunas de fumo perto do rio. 'Era a imagem da cidade que os turistas costumam registar em fotografias. Lindíssima. E, ao mesmo tempo, havia ali qualquer coisa terrível.' O desastre cravado no seio da beleza. Joaquim julgou que o trânsito estava cortado. Não estava. Desceu a avenida da Liberdade. Travaram-lhe o passo na rua Nova do Almada, de onde ainda se viam desvairadas labaredas.
MANOLLO BELO
'Naquele dia fui acordado muito cedo pelo meu vizinho Herculano. O Chiado estava a arder! Saltei da cama e corri para Lisboa, apresentando-me, de imediato, ao serviço da RTP, onde já se encontravam outros jornalistas. O repórter era repórter para qualquer tarefa informativa. Digo isto porque na altura estava no Desporto e o Chiado a arder estava longe de qualquer estádio. Mário Crespo já se encontrava ao comando das operações. Não hesitou: ‘Manolo, vais com o Guilherme Lima para onde muito bem entenderes.’ A caminho da Baixa confidenciei ao Guilherme que me sentia orgulhoso de ir para uma missão deste calibre com um câmara de tão elevada qualidade. O Guilherme retribuiu dizendo que ele tinha escolhido o repórter... Entrámos no inferno. Uma pérola do Mundo estava a ser consumida pelas chamas. A câmara registava metros sem fim de fogo impiedoso e maldito. As minhas palavras pouco adiantavam à enorme crueldade que se abatia sobre Lisboa. Após muitas horas de trabalho e dor, entrámos no coração do Chiado: os armazéns. O que restava. Fiz um ‘vivo’ e iniciámos uma caminhada sobre escombros e água quente. Surpreendeu-me o medo que senti ao ouvir o ranger das vigas. O cigarro da paz esperou por um isqueiro amigo em cima de um carro dos bombeiros. Ironia: não havia lume! As cassetes chegaram à 5 de Outubro levadas por anónimos. Andei anos sem passar por ali e ainda hoje o evito. O Chiado da minha infância e juventude tinha morrido naquele dia em que o meu vizinho Herculano me acordou muito cedo.'
ENFERMEIRO E TESTEMUNHA
No dia anterior ao incêndio, Luís Franco e a mu-lher tinham andado por aqui [foto ao lado tirada pelo próprio] à procura de um faqueiro.
Luís Franco era enfermeiro no Hospital de S. José, de cujo terraço foi observando as chamas e o fumo. No próprio dia, à tarde, visitou a zona da catástrofe. Lembra-se de ver uma mangueira a saltar das mãos dos bombeiros e a rodopiar com a força da água.
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