Ataque informático à Sony Pictures revelou milhares de conversas privadas.
Laura Brown, Harry Lauder, Neil Deep, Robert Fenton, Olwen Williams, Mr. Perry e até Cash Money. Todos estes vultos de Hollywood foram apanhados pelos piratas informáticos que se infiltraram nos servidores da Sony Pictures. Não sabe quem são? Nem ficaria a sabê-lo se o mega-ataque cibernético não tivesse acontecido.
São os pseudónimos de Natalie Portman, Tom Hanks, Tobey Maguire, Clive Owen, Daniel Craig, Jude Law e Jessica Alba, respetivamente – os nomes, até há dias secretíssimos, que costumam – ou costumavam – usar para se registar em hotéis ou encomendar serviços.
E esta nem é da informação mais sensível que tem sido revelada aos jornalistas pelos Guardiões da Paz, o grupo que reivindica a ação. Na informação confidencial despejada para a internet há números de segurança social, moradas, telefones e endereços de email de atores, realizadores e produtores – e até dados médicos de funcionários da Sony e dos seus filhos.
Mas nenhuma destas coisas suscita tanto interesse como os milhares de emails privados que foram tornados públicos desde que no dia 24 de novembro os servidores da empresa foram invadidos. Enquanto o gigante da indústria cinematográfica tentava recompor-se – só ao fim de vários dias os computadores voltaram a trabalhar e houve filmagens que tiveram de ser suspensas por impossibilidade de processar pagamentos –, os hackers iam enviando para o ciberespaço centenas de conversas entre algumas das mais poderosas figuras do cinema norte-americano.
Principais protagonistas deste filme: Amy Pascal, copresidente da Sony Pictures, e Scott Rudin, superprodutor tão conhecido pelo mau feitio como por alguns dos maiores êxitos do cinema da última década, como ‘Haverá Sangue’, ‘A Rede Social’ e ‘Este País não é para Velhos’.
Figurante: Angelina Jolie (dispensa apresentações). Argumento: Angie fica furiosa quando sabe que a Sony convidou David Fincher para realizar o filme sobre a vida de Steve Jobs – ela quer que Fincher dirija o seu remake de ‘Cleópatra’. Rudin fica furioso – é ele que quer Fincher para o filme sobre o fundador da Apple – e escreve a Pascal: "É melhor calares a Angie antes que ela torne muito difícil para o David fazer o Jobs." Pascal fica furiosa e riposta: "Não me ameaces. Há semanas que te peço para te empenhares nisto comigo." Rudin fica para lá de furioso: "Não há nenhum filme da Cleópatra para fazer (…). Não vou destruir a minha carreira por causa de uma fedelha mimada com um talento mínimo." Fim: David Fincher não fica em nenhum dos projetos e nenhum se transformou ainda em filme, sendo que a Sony já desistiu da produção cinematográfica sobre Jobs. A Universal agarrou-a.
GENITAIS DE FASSBENDER
Antes de tudo isto, a biografia já tinha dado muito que falar por email. Leonardo DiCaprio foi apelidado de "desprezível" pela copresidente da Sony por ter recusado representar o fundador da Apple. Christian Bale ainda foi uma hipótese; a terceira foi Michael Fassbender – mas não foi consensual.
Aaron Sorkin, o argumentista, pressionava para que o papel principal fosse para Tom Cruise: "Não sei quem é o Michael Fassbender e o resto do mundo também não vai querer saber", escreveu a Amy Pascal e a Scott Rudin.
O produtor Michael De Luca meteu-se na conversa para elucidar Sorkin, sublinhando aquilo que de maior o ator evidenciou com o seu nu frontal no filme ‘Vergonha’: ele é o tipo que "nos faz sentir mal por termos genitais de tamanho normal".
Conversas banais, se tivermos em conta que nem sequer o presidente dos Estados Unidos escapou à má-língua dos altos responsáveis do megaestúdio de Hollywood.
Na véspera de um encontro de angariação de fundos em outubro de 2013, Amy Pascal quis aconselhar-se com Scott Rudin sobre que temas poderia abordar com um dos homens mais poderosos e inacessíveis do planeta. De todos os assuntos possíveis, aquilo que lhe veio à cabeça foi: "Devo perguntar-lhe se gostou do ‘Django’?", referindo-se à obra de Tarantino cujo tema é a escravatura. "‘12 Anos’", responde-lhe Rudin, mencionando a produção de Steve McQueen sobre o mesmo tema. E os dois prosseguem citando um rol de filmes, todos protagonizados por atores negros.
O ataque informático sem precedentes que se calcula ter recolhido 11 terabytes (mais de 11 mil gigabytes) de material confidencial dos servidores da Sony foi desde o início atribuído à Coreia do Norte como retaliação pela comédia ‘A Entrevista’.
No filme, cuja estreia estava prevista para o dia de Natal mas que a Sony já cancelou, um jornalista e um apresentador de televisão norte-americanos são incumbidos pela CIA de assassinar o líder norte-coreano Kim Jung-un. O regime de Pyongyang caracteriza o filme como "um ato terrorista", mas nega a autoria da ação.
Acontece que esta semana o FBI confirmou que a origem do ataque está mesmo na Coreia do Norte e revelou que o programa malicioso é tão sofisticado que provavelmente teria passado por 90% dos sistemas de segurança usados hoje em dia.
Um agente da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA), apontado como um proeminente especialista em segurança cibernética, defende em entrevista ao 'Business Insider' que o ataque deveria ser encarado como um ato de guerra. E compara: "Afinal, o que teríamos feito se eles tivessem feito explodir as instalações da Sony Pictures mas sem causar vítimas? É este o contexto em que estes ataques têm de ser colocados."
E JÁ NÃO É A PRIMEIRA VEZ
Tudo isto acontece depois de em 2011 a PlayStation, da própria Sony, ter sido atacada e os dados pessoais de milhões de utilizadores terem sido ilicitamente apropriados.
Este verão, uma intrusão não reivindicada na iCloud da Apple revelou ao mundo fotografias privadas – e despidas – de celebridades como a atriz Jennifer Lawrence. No ano passado, o antigo funcionário da NSA Edward Snowden assumiu a autoria do envio para os jornais de milhares de documentos secretos sobre o modo como os EUA espiam comunicações telefónicas e via internet em todo o globo.
E em 2010 o site WikiLeaks, fundado por outro dos mais famosos hackers do mundo, Julien Assange, publicou uma série de relatórios confidenciais militares e diplomáticos dos Estados Unidos.
Mas, ao contrário do que aconteceu dessas vezes, a natureza criminosa e despudorada destas últimas revelações não tem levantado tanta celeuma e indignação como o conteúdo das mensagens privadas que agora se tornaram públicas. A exposição da hipocrisia nos bastidores de Hollywood tem-se suplantado a outras preocupações.
A ciberhumilhação já dura há quase um mês e pode não ficar por aqui. No último fim de semana, os jornalistas que têm recebido a informação pirateada receberam também o aviso de que o grupo está a preparar "um grande presente de Natal".
Não há como saber o que aí vem mais, além dos dados e conversas pessoais, da divulgação de cachets, orçamentos e receitas de filmes e até de guiões ainda em fase de produção. É o caso do próximo 007: uma versão inicial do argumento de ‘Spectre’ está entre o material roubado. A trama da 24ª aventura de James Bond ainda não foi desvendada, mas o seu custo já: 240 milhões de euros.
Depois das primeiras fugas de informação, a copresidente da Sony assumiu em comunicado que o conteúdo dos seus emails é "insensível e inapropriado", mas defendeu que não é "um reflexo exato" de si própria e pediu desculpa a toda a gente que ofendeu. Scott Rudin também se desculpou publicamente. "Fiz uma série de comentários cuja única intenção era serem engraçados, mas que, vistos assim, são na verdade imponderados e insensíveis – e sem nenhuma graça."
Dois dias depois da divulgação dos emails, a executiva da Sony cruzou-se num evento público em Hollywood com a "fedelha mimada com um talento mínimo". Pascal, sorriso largo, como se nada fosse, ainda tentou abraçar Jolie. Mas parou por aí. O olhar da atriz, tão direto como gélido, não a deixou ir mais longe.
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