Nova fotobiografia de Álvaro Cunhal documenta a vida do líder do PCP, desde a infância até à morte, sempre de forma militante.
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Antes de Cunhal se tornar numa das figuras do século XX já existia Álvaro, um rapaz nascido três anos depois da implantação da República e quatro anos antes da revolução comunista que deu origem à União Soviética. É esse jovem, que começou por ser o mais novo, passando a mais velho devido à morte prematura dos irmãos António José e Maria Mansueta e ao nascimento tardio de Maria Eugénia, que constitui a principal mais-valia de ‘Álvaro Cunhal - Fotobiografia', lançada pelas Edições Avante.
Os primeiros anos deste homem, que mais tarde seria preso durante 15 anos pela ditadura de Salazar, viveria na clandestinidade, tornar-se-ia secretário-geral do PCP e teria de passar décadas ausente de Portugal, ocupam as primeiras 20 páginas de um volume com 300, elaborado para celebrar o centenário do seu nascimento. Mas são as mais surpreendentes e aquelas que agradarão a quem não partilhar da ideologia a que Álvaro Cunhal dedicou praticamente toda a vida.
Nascido em Coimbra, a 10 de novembro de 1913, o terceiro filho do advogado Avelino Cunhal - que mais tarde defendeu Álvaro e outros prisioneiros políticos - e de Mercedes Barreirinhas Cunhal aparece como um menino de olhar vivo, muitas vezes sorridente, até porque escapou à escola primária de Seia que descreveria mais tarde, em texto que acompanha as fotos, como "um espetáculo de selvajaria, a darem violentas palmatoadas e reguadas aos miúdos". Perante tal cenário, Avelino encarregou-se de ensiná-lo em casa, preparando-o para o exame de admissão ao liceu.
Clique na foto em baixo para ver a fotogaleria de Álvaro Cunhal
É no então chamado Liceu Camões, em Lisboa onde nesta quinta-feira decorreu o lançamento da fotobiografia - com o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, e o membro do Comité Central Manuel Rodrigues, que coordenou uma obra cuja existência foi decidida em reunião desse órgão do partido -, que começa a intervenção política de Cunhal. Mas ainda há tempo para a fotografia em que Álvaro tem "uma expressiva manifestação da alegria de viver" durante uma ida à praia.
A vida privada do futuro líder comunista ainda existe no capítulo seguinte, marcado pela entrada na Faculdade de Direito de Lisboa, em simultâneo com a adesão ao PCP. Mas os piqueniques tornar-se-ão incompatíveis com a tarefa de reorganizar a Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, de que se tornará secretário-geral.
PRISÃO E EXÍLIO
A primeira prisão e as primeiras torturas chegam em 1937, quando Álvaro Cunhal tem 23 anos. Fica quase um ano encarcerado e em 1939 é forçado a fazer o serviço militar, regressando à prisão no ano seguinte, para uma pena de três meses, durante a qual se apresenta a exame do 5º ano de Direito, com a tese ‘O Aborto - Causas e Soluções'. Terá 16 valores, apesar de defender a liberalização do aborto.
Já está a viver na clandestinidade em 1942, quando o secretário-geral comunista Bento Gonçalves morre no campo de detenção do Tarrafal. Também ele será preso, em 1949, encontrado numa casa clandestina no Luso poucos dias antes da constituição da NATO, com Portugal entre os fundadores da aliança que sobreviveu ao fim da Guerra Fria. "A ditadura fascista portuguesa recebe o apoio das potências imperialistas", lê-se no volume.
ESQUECIMENTOS
A retórica é natural, tendo em conta as circunstâncias que levaram à existência da obra lançada pelas Edições Avante, mas também se verificam omissões em temas incómodos. É o caso da invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, em 1968, esmagando a ‘Primavera de Praga'. Cunhal foi o principal defensor da intervenção de Moscovo entre os comunistas ocidentais, mas o acontecimento - e essa tomada de posição - não se encontra na detalhada cronologia que acompanha as fotografias ao longo das centenas de páginas.
Também os principais adversários de Cunhal primam pela ausência. Salazar só aparece em dois retratos, um dos quais está a ser retirado da parede, depois da Revolução de Abril. Uma só fotografia mostra Mário Soares, que, "como primeiro-ministro, dá início ao processo de recuperação capitalista, latifundista e imperialista". Encontra-se sentado na bancada do Governo, abaixo do líder comunista, que toma a palavra numa sessão parlamentar - é também assim que aparece Francisco Sá Carneiro, cuja morte não merece registo nos acontecimentos de 1980 -, e a menção ao "olhe que não" dito por Cunhal no debate televisivo com o socialista omite que Soares acabara de acusar o PCP de querer implantar uma ditadura em Portugal. Melhor sorte tem o "grande estadista" Vasco Gonçalves, tal como os sucessores na liderança Carlos Carvalhas e Jerónimo de Sousa.
Por entre muitas fotografias de comícios e ações de campanha do PCP, registam-se alguns instantâneos da ternura de Álvaro com Ana, a sua única filha, e também com a companheira, Fernanda Barroso. Bem como belíssimos desenhos e pinturas do homem que foi Manuel Tiago enquanto escritor e que, junto à contracapa, deixa uma última palavra: "A todos deseja que, vida fora, realizem os seus sonhos."
DISFARÇADO DEPOIS DE FUGIR DE PENICHE
Um dos episódios mais marcantes da vida de Cunhal foi a fuga do Forte de Peniche, a 3 de janeiro de 1960, acompanhado por nove prisioneiros. "Evidencia a força e a capacidade de organização do partido, mesmo no interior da prisão, representa um duro golpe para a ditadura fascista e uma grande vitória para o PCP", lê-se em ‘Álvaro Cunhal - Fotobiografia', onde se vê um dos disfarces usados pelo dirigente no regresso à liberdade. A 25 de dezembro nasceria a sua filha, Ana.
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