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INÊS PEDROSA:“ADEUS, PAI”

Quando perdeu o pai, Inês Pedrosa quis transpor para o papel os seus sentimentos sobre a morte, a vida, o amor e a amizade. Fazes-me Falta é o resultado desse desejo, um romance aclamado por público e crítica. Conheça a mulher que depois de ser mãe, está muito mais feliz.

10 de agosto de 2002 às 17:17

Enquanto recorda alguns episódios marcantes da sua infância, a escritora Inês Pedrosa não consegue disfarçar as saudades que tem do pai, falecido recentemente, e o orgulho que sente pela mãe, uma mulher fora do comum, que nos anos 70 até já tinha noções de informática: “A minha mãe gostava de ter nascido no século XXI, é muito futurista. Imagine-se a reacção dela quando eu dizia que queria participar no concurso de miss Portugal”, recorda a autora, entre risos.

Ao contrário de muitas raparigas da sua idade, Inês não teve de aprender a cozinhar ou a bordar, e com a ajuda dos novos ventos de liberdade, aos 15 anos já ia acampar com os amigos para o Algarve: “Como tinha boas notas e era responsável, os meus pais deixavam-me ir a festas e sair à noite.” Um privilégio do qual o seu irmão, Ricardo, não se pode gabar: “Como era preguiçoso, chumbou algumas vezes e o meu pai controlava-o mais”, relembra.

São muitos os anos que separam a actual escritora da pequena Inês, sempre disponível para interpretar o papel principal nas peças de teatro da Escola Algés e Dafundo, e que mostrava destreza física na natação e no ballet. Aos 13 anos, e depois de ter experimentado escrever poesia, já lia Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen e Carlos Drummond de Andrade. E como qualquer adolescente típica, não resistia ao charme da revista francesa Marie Claire, sem sequer adivinhar que mais tarde viria a tornar-se directora desta publicação, em terras lusas.

No seu olhar azul intenso, ainda se encontram vestígios dessa jovem reguila, reivindicativa, que se insurgia contra o pai, quando este se recusava a executar as tarefas domésticas: “O meu pai era militar, e ainda tinha aqueles hábitos antigos. Só que eu achava injusto a minha mãe ficar com a responsabilidade da casa, porque os dois trabalhavam fora”, confessa a escritora, que dedicou o seu último romance, Faz-me Falta, (já na quinta edição), à memória de Ricardo Pedrosa.

“Os meus pais estavam mais ligados à matemática, por isso não me motivaram tanto para a literatura”, explica Inês, que ainda hoje se recorda de ir às livrarias antigas do Chiado, comprar livros com o dinheiro que tinha recebido no Natal, “e depois não descansava enquanto não os lia todos”. Esse prazer deve-se à influência do seu avô “um homem muito culto, mas que não teve oportunidade de estudar quando era jovem”.

Nos últimos anos da sua vida “tinha voltado ao liceu”, lembra a jornalista, que fala ainda da importância da prima Maria Irene Crespo, que aos domingos a levava aos museus e lhe explicava os quadros e as correntes artísticas como se fossem histórias de encantar. E seria imperdoável não falar no primo que a fez sócia do Colóquio de Letras, para que a literatura estivesse sempre perto de si. E está. Apesar de ainda se intitular jornalista – trabalhou no Jornal de Letras, passou pelo Independente e pelo Expresso – já não se consegue separar da ficção. Com o romance A Instrução dos Amantes, deu os primeiros passos na escrita literária: “Tinha de o fazer antes dos 30 anos. Caso contrário, e se corresse mal, já não me perdoavam tão facilmente”, revela Inês. A confirmação do seu talento chegou alguns anos mais tarde, com o livro Nas Tuas Mãos.

Com um Brilhozinho nos Olhos

“O livro não vai ter sucesso. Os críticos vão julgá-lo muito lírico, e os leitores vão achar que tem pouco enredo porque a protagonista já começa morta”, previa Inês Pedrosa, antes de ver publicado o seu terceiro romance. Mais perspicaz, o seu marido Fernando, Professor Universitário, sempre acreditou no sucesso desta obra, e o tempo acabaria por lhe dar razão. “Tinha de escrever este livro.

Pela primeira vez, libertei-me da minha faceta de jornalista e consegui colocar em papel tudo o que eu queria dizer. E se ninguém gostasse deste romance, o mais importante é que eu estava satisfeita”, afirma com convicção a autora, que já concretizou o maior sonho de todos: ser mãe. Lara tem apenas quatro anos mas revolucionou por completo a sua vida: “Sempre me senti uma pessoa livre, mas agora sou capaz de todos os compromissos em nome da felicidade da minha filha”, assume esta mãe babada.

E apesar de os tempos serem outros, há conselhos que nunca passam de validade: “O mais importante é educá-la para a alegria. Não quero que cresça com a ideia de que o mundo é um sítio horrível para se viver.” Terminada a conversa com Inês Pedrosa, descobre-se que a letra da canção Com um brilhozinho nos olhos, escrita por Sérgio Godinho — por quem o seu coração tanto suspirou durante o período revolucionário — só pode ser dedicada aos olhos de cor azul-mar de Inês.

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