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Correio da Manhã

Domingo
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INFERNO A 610 METROS

A exploração mineira é cada vez mais residual no nosso país, mas ainda há homens que ganham– e perdem – a vida a rasgar as entranhas da terra, em busca do que ela esconde de precioso. Na Panasqueira arranca-se-lhe o volfrâmio. Até quando?
27 de Julho de 2003 às 15:00
INFERNO A 610 METROS
INFERNO A 610 METROS FOTO: Marta Vitorino
O ar parece arder quando os sinos das aldeias na encosta da Serra da Estrela tocam “avé Maria…”, a dar conta da hora completa. Os mineiros, de fato de trabalho cor-de-laranja, lanterna enganchada no capacete e bateria no cinto caminham para a boca da terra. Espera-os um veículo aberto que os levará ao nível mais profundo, a 610 metros da superfície, das minas de volfrâmio da Panasqueira, no concelho da Covilhã. O som das rodas sobre os carris não permite palavra que não seja gritada ao ouvido. Um dos trabalhadores entretém a espera ruidosa puxando um cigarro do maço. A cinza incandescente é, por momentos, a única luz. Arrefece. Dentro da terra a temperatura desce aos 16o.
Nas galerias subterrâneas, escavadas numa área de quatro por 1,5 quilómetros, trabalham, aproximadamente, 120 homens. À superfície quase cem. No total 212. Mas já foram 10 mil. A época áurea das minas da Panasqueira viveu-se durante a II Guerra Mundial, quando os alemães e os ingleses lhe disputaram o minério, usado nos canhões e blindados.
Muitos camponeses das aldeias serranas – outros seguiram, mais tarde, os caminhos da emigração – lá se fizeram operários. A vida dos que ficaram em S. Jorge da Beira, S. Francisco de Assis, Barroca Grande ou Rio está quase sempre ligada ao volfrâmio da Panasqueira. Também a morte, por silicose, ou em resultado de acidentes de trabalho.
Aldeias de viúvas A padroeira dos mineiros, Santa Bárbara, não acudiu ao marido de Celeste Abília. O homem morreu-lhe na mina há 28 anos. Dizia-se então das aldeias em volta que eram terras de viúvas. Mas os acidentes mortais não são coisa do passado remoto. O último ocorreu há apenas dois anos e vitimou um trabalhador que ainda não tinha 40.
A Ti’ Celeste – assim a conhecem em S. Jorge – lembra-se dos tempos da II Guerra. “O meu homem ganhava 90 escudos por semana. Era pouco. Tínhamos oito filhos e era preciso ‘agarrá-los’ a todos, por isso eu andava na ribeira com uma bacia a apanhar estanho e ferro, para vender”, conta a mulher vestida de preto, a fazer contraste com a alvura do cabelo.
Augusto Faustino apresenta-se de boina negra – gosta dela – e bengala, não pode dispensá-la, a caminho, como vai, dos 80 anos. Trabalhou mais de 40 na mina. “Desde os sete. Toda a vida”, resume e depois sussurra, como se lhe coubesse a ele desculpar entrada tão precoce no mundo subterrâneo: “A gente era pobre, eu tinha de ir trabalhar: acartar aço às costas.”
Já homem, pegou num martelo, pô-lo sobre o joelho e começou a bater com ele na rocha para desgastar o filão e extrair o minério negro. Uma função hoje desempenhada por operários como António Magalhães, de S. Jorge da Beira, ao comando de perfuradoras. Quando atinge o filão – o volfrâmio apresenta-se misturado com minério vário –, a máquina lança água e faz assentar as poeiras de sílica, que o organismo humano não consegue eliminar. Tal procedimento permite reduzir o risco de silicose.
Incerteza Augusto Faustino foi exposto ao empoeiramento e o mal entrou-lhe no corpo: “Ando abafado por causa do borralho das minas.” A ele e a tantos outros, “que já ‘lá’ estão”, mesmo se nem sempre lhes foi reconhecida a tempo a doença profissional. Homens que “perderam a vida a ganhar a vida”, constata Sousa Uva, médico da Escola Nacional de Saúde Pública.
Bem se vê que as feridas permanecem abertas. Há ódio à mina, sim, mas também se lhe tem amor, porque constitui uma das poucas possibilidades de emprego numa região deprimida como é a do Pinhal Interior. Tem-se-lhe amor mesmo se as condições de trabalho dentro da terra não são as melhores e o salário, entre 514 e 610 euros, deixa a desejar ante a dureza do trabalho. A administração da multinacional proprietária tem invocado a concorrência do minério oriundo da China, o gigante mundial do volfrâmio, para justificar sucessivas crises, uma das quais levou ao encerramento da exploração, entre 1994 e 1995. No Ocidente, as únicas minas de volfrâmio – usado também, nomeadamente, nos filamentos das lâmpadas e instrumentos cirúrgicos – são as da Panasqueira, de Mittersil (Áustria) e de Catung (Canadá). Cumpridas as oito horas de trabalho, os mineiros da Panasqueira saem das galerias. Piscam os olhos à luz. Habituados que estão ao negrume, mal conseguem ver. Tão pouco vislumbrar o futuro, incerto. “Se não houver preparações, para exploração de novos filões, a mina fecha até Março”, sussurram, enquanto, com gestos lentos, aconchegam os capacetes na esquina do braço, de encontro à cintura, caminhando para a sala onde despem os fatos de trabalho.
A HISTÓRIA DOS ESQUECIDOS
Os que estão longe sentem-se próximos da problemática das minas da Panasqueira. Um jovem, Daniel Matias, filho de filhos da terra, vive em França e não a esquece. Organizou recentemente um evento em S. Jorge da Beira que implicou a deslocação às terras remotas do Interior de um premiado realizador francês de cinema social, Jean-Michel Carré, e, na ocasião, lançou a ideia de erguer, mediante uma subscrição pública, um monumento ao mineiro.
Durante as “Primeiras Jornadas da Mina” levantou-se a possibilidade de escrever naquele memorial os nomes dos trabalhadores que pereceram na mina ou por causa dela, por silicose ou em lutas sociais.
Aí hão-de figurar também os de um tio de Daniel, Carlos Matias, morto há dois anos na sequência de uma derrocada, e de um avô, conhecido por “Carriço” que faleceu após ter sido torturado pela PIDE por ter organizado uma greve – “do carbureto” – nos anos 40.
A memória foi, precisamente, o tema da intervenção do investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Lisboa, José Manuel Sobral, que sublinhou a importância de “preservar a dos mineiros – para os próprios e para todos nós”.
“A História que temos é a História dos grupos dominantes, o que demonstra uma espécie de racismo social em relação àqueles que se pensa serem inferiores em opiniões, uma ideia interiorizada por quem está ‘por baixo’”, considerou José Manuel Sobral.
Mineiros no activo, ex-mineiros e familiares tiveram ainda oportunidade de assistir ao filme de Jean-Michel Carré ‘Les Charbons Ardents’ – ‘Carvões Ardentes’, projectado ao ar livre, sobre a aquisição, em 1994, de uma mina de carvão galesa (‘Tower’ de Aberdare) pelos mineiros, que participam na sua gestão, na qualidade de accionistas, ao que parece, com lucros assinaláveis. É hoje a mina mais rentável da Grã-Bretanha.
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