Em época de vindimas as quintas programam pacotes turísticos que convidam à ‘lagarada’. Há cada vez mais portugueses, mas sobretudo estrangeiros, que optam por esta forma diferente de lazer. Há quem defenda que associar potencial vinícola e turístico é um caminho para o futuro.
As oliveiras demarcam as propriedades que caem em cascata até às margens do Rio Douro. Na região-berço de alguns dos mais afamados vinhos, vale que foi a primeira região vinícola demarcada do Mundo, Rosa Teixeira está animada com a azáfama das vindimas mas faz questão de fazer uma pausa para apresentar os companheiros da labuta. “São todos gente ilustre”, afirma, orgulhosa. José e Gaspar Teixeira, irmãos, bancários de entidades concorrentes, Betty, professora de Inglês em Monção, o cunhado, sargento do exército no Porto.
“Durante o ano vamos deitando uma mão e nesta altura vimos todos para cá. Somos uma família unida”, conta Rosa Teixeira, filha de um dos nove mil agricultores do Douro com menos de mil metros quadrados de vinha. José vai chegar ao banco com as pernas coloridas porque “à noite pisamos as uvas e o negro do vinho demora uns 15 dias a sair. O que vale é que na minha profissão andamos todos tapados”, diz, entre risos colectivos. Agora, ao contrário de antigamente, “já não somos acompanhados por concertinas ou acordeões. Metemos a televisão perto do lagar e, enquanto pisamos as uvas, vamos vendo futebol”.
Gaspar corrobora, enfático: “Está tudo mudado. Acabaram os cestos de verga porque são caros e partem-se e optou-se por estes de plástico que são mais leves, duram mais e estragam menos a uva. Imagine o que era os homens acarretarem com cestos de 80 quilos às costas. Não era brinquedo. Chegavam lá em cima, despejavam as cestas para um ralador e ralavam as uvas à mão. Agora já é eléctrico, as coisas vão-se modernizando”. Rosa interrompe, saudosa: “Isto era tão bonito. Aqui, em Rio Bom, vinham as rogas de fora, à noite haviam bailes, os carros de bois ajudavam à festa, toda a gente trajando a preceito”.
Não existe mais o rogador – que comandava as operações – nem o acordeonista marca o compasso. “Foram substituídos por uma velhinha, dona Maria, que não largava o despertador. Marcava a hora de chegada e, passadas oito horas, precisas, tocava e iam todos embora. Se estivessem no meio de uma videira largavam-na. Não trabalhavam nem mais um minuto”, conta Anita de Mascarenhas Gaivão, da Casa da Azenha. “Antigamente o trabalho era duro e as pessoas viviam com mais dificuldades. Agora ganham cerca de 40 euros por dia. É uma maneira de arranjar um pecúlio para ajudar a família no resto do ano”, conta. Por isso, crê José Teixeira, “se não formos nós, da família, a fazermos isto, não compensa”. Coisas de uma região cujo PIB per capita é de 8,4 milhares de euros, 67,2 por cento da média nacional.
Este ano os produtores estão ainda mais preocupados com o facto de, neste Verão, ter havido “um escaldão naqueles dias de calor tórrido de Julho e Agosto, em que as vinhas estiveram sob efeito de stress hídrico”, explica Carlos Resende que salienta: “As vinhas não apreciam este tipo de calor”.
PATRIMÓNIO MUNDIAL
Dos 250 mil hectares desta terra, 41 mil estão plantados com vinha que parece que chega a tocar o céu. Foi esta paisagem, agreste e montanhosa, que inspirou pintores e poetas e que, em 2001, foi classificada pela UNESCO como Património Mundial.
Anália Queiroz Monteiro é mais uma das que, com 66 anos, tem talhado a pulso a memória desta terra, aromas e saberes que guarda através de sucessivas gerações. Lembra em tudo a personagem Perdiz do livro ‘Os Incuráveis’, da também duriense Agustina Bessa-Luís: “Abriu desmedidamente seus olhos de caranguejo, pôs-se a coçar as pústulas das pernas, que pareciam decepadas e à parte da sua existência”.
Nos últimos 13 anos Anália tem vindimado por várias regiões do Douro. “Hoje em dia há mais farturinha e com tanta fartura até nos estragamos. Ganhamos mais, comemos e bebemos bem, mas agora há muita mal criadeza. Nem se compara com antigamente. Os velhos são passados para trás, os ranchos já não vêm mais cantar e dançar, já não há concertinas. Turistas por aqui? Olhe senhor, de vez em quando aparece um ou outro que vem ver isto, mas a vindimar nunca vi nenhum. Vêm é gozar o parceiro”. Anália Monteiro vive em Mesão Frio. Todos os dias faz duas horas para cada lado para vir vindimar na Quinta Nova. Vem com um grupo da sua terra chefiado por Joaquim Acácio, que está desde os 10 anos “nesta vida da agricultura. Sou o responsável pelo pessoal, faço o transporte e controlo o tempo de serviço. Vigio se a caixa tem folhas ou rama, separo as qualidades”.
Também ele confirma as palavras de Anália: “Turistas vêem-se muitos mas não a trabalhar”. Diz que os vindimeiros vêm de longe porque “aqui há pouca gente e os pobres lá são mais pobres e aproveitam esta época para ganhar algum”. São cinco horas. Faz oito que trabalham debaixo da dureza do sol. Todos largam o serviço ao mesmo tempo e, num ápice, montam na camioneta. De dentro da carruagem alguém afirma: “Escreva aí que a gente ganha dinheiro, divertimo-nos e ainda praticamos desporto”.
PAGAR PARA IR À VINDIMA
Ana Mota, engenheira da Quinta Nova, está preocupada: “Se não nos apressarmos, quando chegarmos ao outro lado da vinha já só vamos ter passas. Está a ver? Estão todos à minha espera para lhes dar instruções porque ninguém pensa por si”, afirma, sem esconder o nervosismo e pedindo para não fotografarmos um jovem com a camisola 16 do Maniche porque “ainda não tem idade para andar por aqui”. Ana Mota, que trabalha nesta quinta há cinco anos, diz que já tiveram turistas a vindimar.
“Esses pagam para ir para a vinha. Quando chegam vão cheios de vontade, dizendo que vão fazer um dia inteiro de vindima e que querem almoçar sentados na terra com o pessoal. Querem o programa completo mas ao fim de uma hora e meia mudam de ideias e desistem”. O enólogo Francisco Montenegro acredita que a ideia de associar turismo e vindima vai dar frutos: “A vindima é uma festa pelo que o binómio é complementar e pode resultar muito bem. Algo que está a dar os primeiros passos mas que no futuro vai ter resultados”.
Henry está pela primeira vez em Portugal. Vem da África do Sul e está admirado com a beleza circundante. Salienta as variações da qualidade das uvas conforme a altitude em que as cepas se encontram e as dificuldades que o trabalho representa. “Tentei ir vindimar mas o calor é abrasador. Cortei dois cachos e vim deitar-me aqui a apreciar o panorama”.
Ana Sofia Borges, coordenadora dos centros de visita da Fonseca, afirma que na Quinta do Panascal os turistas costumam ser participativos, que fazem questão de apanhar uvas e de as pisarem nos lagares. “Aqui, mantém-se o processo tradicional da pisa das uvas – chamada de ‘lagarada’ – em que, inicialmente, duas filas de 11 homens cada, durante duas horas ininterruptas, se limitam a levantar e a pousar os joelhos, num rigoroso sistema, preciso e coordenado, que lembra uma marcha militar”.
Finda a árdua tarefa, alguém grita “liberdade”. Desfaz-se o sistema, entra a música de acordeões, bombos e tambores que surgem de forma espontânea. “A Quinta do Panascal é uma das poucas que mantém uma tradição que se tem vindo a perder”, conta Ana Borges enquanto nos serve um vinho do Porto com água tónica e uma folha de hortelã e nos relata a história do patrono da quinta, o “liberal, convicto e empenhado, Manoel Guimaraens que fugiu para Inglaterra escondido dentro de um casco vazio”.
A vista é magnífica e o local privilegiado para sentir o espírito da região vinhateira. Para que o panorama possa ser melhor desfrutado, são distribuídos uns headphones individuais que, em nove idiomas, contam a história do vinho do Porto, as castas, o processo de envelhecimento, as diferentes categorias de vinhos, a evolução das plantações, os murtórios – vinhas afectadas pela filoxera.
Na Casa da Azenha, típico solar duriense que data de 1640, ainda se encontram paredes de madeira, granito e xisto, a piscina é rodeada de morangos e abóboras, vislumbra-se a Igreja de Agudim. Só não se encontram os suecos, canadianos ou dinamarqueses que os proprietários dizem que, nos últimos meses, têm vindo a ocupar todos os quartos. A casa, situada em Rio Bom, concelho de Lamego, classificada de interesse municipal, tem um traço genuinamente português e foi propriedade dos condes de Alvelos.
Ali viveram as meninas da Azenha, três irmãs monárquicas, sócio-caritativas e populares, fidalgas à moda antiga que legaram o espaço a Manuel Mouzinho de Albuquerque Mascarenhas Gaivão, sobrinho. Nas paredes, quadros dos antepassados. Um deles, miguelista, não jurou a constituição liberal. “Homens de uma só cara, de uma só fé e, para ser, antes quebrar que torcer”, está escrito e datado de 1858.
TURISMO
Os turistas, diz Manuel Gaivão, mostram-se interessados nas vindimas, “não para trabalhar mas para assistirem. Ao contrário de outras quintas, aqui, quem quiser vir trabalhar, não precisa pagar. Basta pegar numa tesoura e acompanhar os agricultores”. Embora a casa tenha lagares, estão desactivados. As uvas são vendidas aos ingleses, “uma parte que se chama o benefício, destinada a vinho do Porto, e outra parte a vinho de consumo. A Casa do Douro, entidade que regula a distribuição desse benefício, atribui às quintas uma parte das suas uvas para vinho do Porto, que é pago bastante bem, e outra para vinho de consumo que é pago bastante mal. No entanto, as uvas são as mesmas”, informa. Num dos quartos de hóspedes está escrito: “Em tempo de figos não há amigos”.
Foi nestas terras de Vale Abraão que Manoel de Oliveira realizou o filme homónimo, retrato de uma terra “onde havia assassinos bem comportados, abades agiotas, rapazes viciosos, mas pondo na libertinagem uma travagem que proporciona a censura viril, muito próxima da virtude”. Ao fundo do vale vai ser construído um hotel cinco estrelas, o Aqua Pura. Fica situado na margem esquerda, já perto da Régua, e está quase terminado.
Nos últimos dias, na Quinta Nova, o termómetro chegou a marcar 53 graus. “É um desespero. Hoje é daqueles dias que era melhor não sair de casa. Há muita uva no ponto para cortar, é preciso saber o que o enólogo quer dentro da adega, estamos com graduações demasiado altas e produções muito abaixo das nossas expectativas. Portanto, temos que gerir tudo com muita calma se não as coisas não vão funcionar”, aponta Ana Mota, salientando que a sua grande preocupação é ver as uvas a desidratar e não ter pessoal suficiente para vindimar. “Já pouca gente se interessa por esta actividade”, confessa.
O paradoxo é tremendo. Uma região com um potencial vinícola e turístico tão valioso continua a ser uma das mais pobres e deprimidas do país e da Europa. Por isso, mantém-se o êxodo das gentes destas terras – segundo dados do INE, entre 1981 e 2001, o Douro perdeu cinco habitantes por dia e entre 2001 e 2004 perdeu três. Isto, porque a economia da região se restringe a um só produto, o vinho, fonte de reputação do país mas também uma espécie de flagelo. O turismo que, aparentemente, poderia servir de trampolim, parece que não se consegue entrosar na sociedade. E não é certamente o turismo associado ao sector vitivinícola que vai salvar a situação. Afinal, quem é que estará disposto a pagar para trabalhar?
O primeiro-ministro José Sócrates disse recentemente que pretende valorizar o vinho, a paisagem, a cultura e o turismo do Douro, anunciando como medida o apoio aos projectos de reconversão de vinhas, desde que preservem a paisagem classificada como Património Mundial. Este plano zonal terá uma verba de quatro milhões de euros anuais, sendo que os projectos serão financiados em 75 por cento a fundo perdido. O ministro prometeu ainda que o Instituto de Turismo Português vai fazer uma campanha de promoção internacional da região que custará 315 mil euros. O objectivo do Governo é criar um novo pólo turístico nacional.
PARTICIPAR NAS 'LAGARADAS'
QUINTA DO PANASCAL
A última novidade desta quinta situada no vale do Távora são os programas dirigidos a grupos, desenvolvidos em parceria com outros agentes locais de turismo. ‘Fui ao Panascal à vindima’ permite aos visitantes observarem a azáfama, incluíndo as tradicionais ‘lagaradas’. Os programas propostos são dirigidos a, no mínimo, dez pessoas. O programa Touriga Nacional, em viaturas todo-o-terreno, é de um dia e custa 103 euros por pessoa. Já o Touriga Francesa é de meio dia, com direito a passeio de barco pelo Douro.
Como chegar de carro: Siga pela A4 do Porto em direcção a Vila Real. Em Amarante siga para Mesão Frio pela N101 e continue até ao Peso da Régua. Aí, atravesse a ponte e siga em direcção ao Pinhão (N222). Percorridos 20 Km encontrará uma indicação para a Quinta do Panascal. Virar à direita e seguir pela margem do Rio Távora. Até à entrada são cerca de 1,5 Km.
Como chegar de barco: No cais do Pinhão podem ser alugados barcos. A travessia demora cerca de 25 minutos.
QUINTA NOVA DE NOSSA SENHORA DO CARMO
A Quinta Nova tem em permanente promoção um leque de programas que podem incluir dois dias de alojamento com corte de uva. A quinta distribui material para que os visitantes possam andar na vinha, havendo possibilidades de fazer o ‘wine tour’ com visita guiada, provas a vários níveis, cursos com enólogos. O programa de vindima de três dias custa 245 euros por pessoa em quarto duplo e o de um só dia 55 euros por pessoa.
Como chegar de carro: Via Vila Real – direcção Vila Real Norte/Chaves – Sabrosa – Palácio de Mateus – S. Martinho de Anta – Paradela de Guiães/Gouvinhas – Ferrão – Quinta Nova
Via Régua/Pinhão: Régua – Pinhão – Covas do Douro – Ferrão – Quinta Nova.
Como chegar de barco: A equipa da quinta efectua transferes do Ferrão ou do Pinhão.
QUINTA DO PORTAL
A ‘lagarada’ é para grupos de, no mínimo, oito pessoas, e os preços variam entre os 50 e os 80 euros, consoante a opção de almoço típico de vindima. Assim que se chega entregam um ‘kit vindimas’: boné, luvas, garrafa de água e tesoura de poda.
Como chegar de carro: Via Régua/ Pinhão: Régua – Pinhão – Sabrosa – Celeirós do Douro
QUINTA DA PACHECA
Na quinta, que anualmente recebe cerca de 9000 turistas, a ‘lagarada’ começa logo pela manhã com comida: um caldo de cebola, sardinhas assadas e broa de milho. O almoço é servido na vinha e junto com os trabalhadores. O programa continua pela tarde dentro até que, depois de um curto repouso, se começam a pisar as uvas nos lagares. O preço por pessoa é de cerca de 50 euros.
Como chegar de carro: Siga pela A4 do Porto em direcção a Vila Real. Em Amarante siga para Mesão Frio pela N101 e continue até ao Peso da Régua. Aí, atravesse a ponte e siga em direcção a Lamego onde encontrará uma placa a indicar Cambres, onde fica situada esta quinta.
SABORES DA VINDIMA NO ALENTEJO
Mediante reserva antecipada, os interessados podem participar nas vindimas alentejanas, num pacote intitulado ‘Sabores da Vindima’ e organizado pela Herdade dos Grous, próximo de Beja. O programa consiste na apanha da uva, no acompanhamento da uva até à adega, na escolha da uva na mesa de selecção e no pisar da uva nos lagares. A experiência termina com um almoço com o tema ‘Sabores da Vindima’. O preço é de cerca de 40 euros por pessoa.
Como chegar de carro: Em Beja siga pela IP2 até Castro Verde. Ao Km 365, do lado direito, encontrará uma placa indicando “Turismo em espaço rural e adega”.
PARCERIA ESTRATÉGICA
DOURO E ÁFRICA DO SUL
A Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo estabeleceu uma parceria com Buyers Tuner, enólogo sul-africano galardoado a nível internacional. Luísa Amorim, responsável por esta quinta, afirma que “a nova vindima está a ser trabalhada pelo enólogo residente Francisco Montenegro e por Buyers Tuner, a pensar na criação de dois vinhos excepcionais, sendo um topo de gama em quantidades limitadas.”
O enólogo africano, conhecido como o rei dos Pinotage, está no Douro para apurar a inovação que é misturar a casta Touriga Nacional com a casta tribal africana. O resultado será lançado nas comemorações dos 25 anos da presença da Amorim na África do Sul. “Na década de 80 vim pela primeira vez a Portugal. No Douro percebi que, ao contrário da África do Sul, em que há apenas uma casta de uvas, aqui existem umas 80 ou 90. Sempre pensei que, misturando uma das daqui com a nossa, obteria um resultado fantástico. Como apenas nos últimos anos as companhias do Douro começaram a especializar-se em vinho tinto, acho que posso contribuir para fazer vinhos de classe superior”, disse Buyers. O vinho que resultar desta parceria irá chamar-se ‘Bridges’, sendo vendido em restaurantes seleccionados, ao preço de, no mínimo, 70 euros a garrafa.
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