Historiadora Irene Flunser Pimentel conta em livro como Portugal foi o paraíso para espiões de todas as partes na II Guerra Mundial
1 / 2
As atividades de espionagem em Portugal durante a II Guerra Mundial têm sido tema de vários livros e até filmes. O que a levou a pegar no assunto?
Nota-se que houve um trabalho exaustivo de pesquisa. Onde encontrou as informações sobre a organização dos vários serviços secretos presentes em Lisboa?
Apesar de todas as ameaças e pressões dos aliados e das forças do eixo, percebe-se que a neutralidade portuguesa dava jeito a todas as partes...Portugal era um país neutro, mas foi variando a sua postura conforme os resultados da guerra. Houve inicialmente uma aproximação aos alemães, que durou até 1942. A partir daí, quando se começa a perceber que os aliados iam ganhara a guerra, há mais proximidade com os britânicos. Uma das coisas que ficou na História e até na mitologia popular é que o Salazar nos salvou da guerra. É verdade que Salazar jogou bem, era muito pragmático nas relações externas, em que a ideologia não era tida em conta. Mas é preciso ver que a neutralidade portuguesa foi possível porque interessava aos dois campos beligerantes. Aos ingleses, para que a Península Ibérica se mantivesse neutra. Aos alemães, esta neutralidade interessava porque era em Portugal que adquiriam muitos dos produtos que usavam no esforço de guerra. Sobretudo pela questão do volfrâmio, mas também conservas e peças de lã.
Portugal era um sítio apetecível para se escapar aos horrores da guerra?Todos os espiões diziam isso e também os refugiados. Era um país onde se sentiam salvos. Embora, no início dos anos 40, tenha havido um momento em que não se sabia se os alemães entravam aqui, ou se vinham os espanhóis com apoio alemão. Para os espiões, Portugal era maravilhoso. Era como se estivessem em férias, num tempo em que a Europa estava a ferro e fogo.
Alemães e ingleses frequentavam hotéis, casino, bares e clubes. Sabiam da existência uns dos outros?
A sociedade portuguesa dividia-se entre germanófilos e anglófilos. No meio de tanta propaganda, os portugueses estavam bem informados sobre o que realmente se passava na Guerra?
Conta o episódio do plano do SD alemão para assassinar oposicionista alemão Otto Strasser, em que Schellenberg explica como os portugueses ludibriavam os alemães. Era difícil confiar nos portugueses?
O dirigente do SD [os serviços secretos das SS] queixava-se das informações falsas que recebia e lamentava o dinheiro que tinha que dar para que as atividades fossem desenvolvidas. Conta que teve de financiar os sapatos de uma família inteira, porque um dos vigilantes da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, antecessora da PIDE) disse que tinha gasto as solas enquanto perseguia e vigiava as pessoas indicadas por Schellemberg
Parece que nem de um lado nem do outro havia muita confiança nas capacidades dos portugueses serem espiões...
Nenhuma. Sempre que se fala nos portugueses, diz-se que não são de muita confiança. Os britânicos contam que a primeira coisa que os portugueses faziam quando eram recrutados, sobretudo pessoas mais do povo, era contar a toda a gente que eram espiões. Os alemães também dizem isso, mas queixam-se sobretudo de lhes estarem sempre a pedir dinheiro. E quando não tinham mais informações para dar, inventavam. Mas essa prática não era só dos portugueses. Houve casos de célebres espiões que o fizeram.
Há o célebre caso do espião ‘Garbo', que passou quase toda a guerra a inventar...
Discute-se muito o papel do banqueiro Ricardo Espírito Santo neste jogo de espiões...
Os britânicos conseguiram, por volta de 1942 controlar todos os agentes alemães em Portugal. Eram mais competentes?
O que falhava na espionagem alemã?
Canaris, comandante da Abwehr é apontado como um traidor...
Ele sempre negociou, nas costas de Hitler, com o MI6 britânico ou com o Vaticano. Faz parte daquela gente que, a partir de um determinado momento, quando se percebe que a Alemanha está a perder a guerra, começa a não achar muita piada a Hitler. Percebe que ele está a arrastar o país para uma derrota. Canaris não participa diretamente, mas muitos homens da Abwehr fazem o atentado contra Hitler em 1944. Há uma história trágica, a do célebre duplo espião Jebsen, raptado em Portugal e levado para a Alemanha pela Abwehr a quem ele pertencia e em quem confiava. A Abwehr, quando sabe que Jensen ia passar para os ingleses, quer neutraliza-lo porque ele poderia comprometer as redes que iam fazer o atentado contra Hitler. Quando, em 1944, Canaris é detido e depois executado, as redes de Abwehr são integradas nas SS e Jebsen é entregue à Gestapo SD e morto num campo de concentração.
Por outro lado, um grande amigo de Jebsen, o também espião duplo Dusko Popov tem a melhor das vidas em Lisboa...
Lisboa mudou muito nesta altura da guerra?
Completamente. De repente, Lisboa era uma cidade cosmopolita. E passou a figurar na mitologia do cinema, muitas vezes também no cinema de série B , e na literatura como um país de espiões. O grande problema desse cosmopolitismo é que a guerra acabou mas voltou tudo ao mesmo.
Ian Fleming e Graham Green passaram por uma Lisboa que inspirou muitos romances...
Os britânicos queixavam-se repetidamente da falta de atuação das autoridades portuguesas perante as atividades alemãs. Tinham razões de queixa?
O que motivava os portugueses que pertenciam à rede Shell?
A questão da base das Lages nos Açores foi outra questão tensa nas relações entre Inglaterra e Portugal...
Há um defraudar de expectativas quando acaba a guerra e nada muda em Portugal?
Lisboa volta a ser uma cidade provinciana?
Sim, volta a tornar-se pouco cosmopolita. Até pela partida dos refugiados, que Salazar não queria em Portugal. O interesse em Lisboa quase desaparece.
Depois da Guerra, a América afirma-se como a grande potência da espionagem...
Como vê a crise atual com a descoberta da espionagem dos americanos a países amigos?
Partilha a ideia de que hoje se confia demasiado na tecnologia para as operações de espionagem?
Em Portugal, a falta de jeito para a espionagem parece manter-se. Os assuntos dos serviços secretos acabam sempre nas páginas dos jornais...
Se calhar não somos mesmo bons a guardar segredos...
Os ingleses diziam isso, se calhar tinham razão
Irene Flunser Pimentel tem 63 anos e é Historiadora
Pertence ao Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.