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Correio da Manhã

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João Cutileiro: “Há muito pudor”

O escultor das formas provocadoras dedica-se aos desenhos. Os 77 anos tiram-lhe a força.
21 de Outubro de 2012 às 15:00
João Cutileiro nasceu em Lisboa, mas desde há muito que vive e trabalha em Évora
João Cutileiro nasceu em Lisboa, mas desde há muito que vive e trabalha em Évora FOTO: Diogo Pinto

Alentejano de hemoglobina paterna, um cozinheiro exímio, não é a idade - 77 anos - causadora da ida à fisioterapia pulmonar. O pó do mármore que se exilou no aparelho respiratório é o culpado. Eis João Cutileiro - agora que peças da sua colecção particular estão em Barcelos, numa exposição intitulada ‘Uma Degustação', até 24 de Novembro.

- Continua a preferir os chineses ao dr. António Mexia [presidente executivo da EDP]?

- Qualquer coisa menos o Mexia.

- Acompanha sempre a situação política?

- As pessoas devem estar com a roupa certa para a realidade social. Não há mau tempo; há roupas erradas.

- A crise chegou à sua porta?

- A minha vida profissional praticamente que parou.

- Nem uma encomenda?

- Nada. Para gosto meu, confesso; dá para respirar.

- Quanto é que custa a sua peça mais cara?

- Vinte mil euros.

- Há peças para bolsos menos abonados?

- Há, sim. Os preços são equilibrados.


- O público associa a sua obra a mulheres nuas. Correcto?

- Claro! E mulheres sexuais, e também a brejeirice. O que é que quer eu lhe diga? Eu fiz, em tempos, uma exposição que se chamava ‘Homenagem a Mapple-thorpe'. Mapplethorpe foi um fotógrafo norte-americano cheio de coisas ditas pornográficas, e foi por causa dele e das coisas que ele fazia que houve um grande escândalo nos EUA. Aquando dessa minha homenagem, as pessoas pensavam que iam lamber os beiços porque esperavam c***das à Bocage, mas encontraram flores! O Jorge Amado dizia que as flores eram os órgãos sexuais das plantas.

- As mulheres que cria, a meu ver, parecem muito jovens...

- O problema é seu!

- Têm, ou não, um ar de meninas?

- Se calhar, sim. Quiçá. Os seus olhos não são os meus e nem os meus olhos jamais serão o olhar de outra pessoa. Quando estou a criar - e tal como o povo diz - é como um furúnculo que incha e infecta.

- Qual é a idade dos modelos?

- Ronda, geralmente, os 30 e tal anos e quarenta e muitos, apesar de a idade dos meus modelos oscilar entre os 13 anos e os 70 e muitos anos. Algumas, até, são bem mais velhinhas do que eu.

- São elas que pedem para serem desenhadas?

- De essa maneira é muito raro. O grosso são amigas minhas a quem eu pergunto se querem, ou não, posar para mim, mas isso não dá necessariamente acesso à escultura. Depois existem aquelas pessoas que eu conheço e lhes digo que gostava de as desenhar.

- Imagina-se a diversidade de respostas.

- Ui! Há pessoas que me dizem ‘E por que não?'. Algumas exclamam: ‘Credo!' E outras, apenas, dizem: ‘Que horror!'.


- Há pudor?

- Se há pudor! Muito. Bastante.

- Desenha homens nus?

- É raro. Eu desenhei muitos homens nus quando os meus filhos tinham 14 anos. Os poucos homens que agora me procuram são mais velhos, alguns mais velhos do que eu. Recentemente, desenhei dois, ou três homens, e foram os próprios que me pediram. Um deles é um jovem amigo, filho de um velho amigo, a quem eu pedira à mulher para ser desenhada, e ele disse-me que também queria ser desenhado.

- O homem tem menos vergonha do que a mulher?

- Não tem mais nem tem menos. É um pouco difícil fazer uma comparação a esse nível por causa do seguinte: foi a pedido dos próprios homens que eu os desenhei.

- E mesmo esses, na ‘hora h', não desistem?

- Por acaso houve um professor de ginástica, ou qualquer coisa desse género, que tinha pedido para ser desenhado, mas, depois, não se concretizou. As pessoas, todas elas, são complicadas.

- Falando depressa; o homem só precisa de despir as cuecas. Isso não facilita?

- Bem, de maneira muito resumida, é assim, tal como está a dizer... mas depende muito da relação.

- Onde e como desenha os modelos?

- Tenho uma sala que eu uso para os desenhos e, normalmente, o modelo hesita em aparecer despido, mas eu insisto para que ele se dispa. Neste momento, a série de desenhos que eu estou a fazer é uma coisa a que eu chamei ‘Streap Mirror': começo por desenhar o modelo estando ele vestido e de frente para o espelho, de seguida, ele vai-se despindo, e eu, a certa altura digo: ‘Parou, parou! Não respira'. É como nas TAC!


- Deparou-se com algum modelo que estivesse demasiadamente à vontade?

- Lembro-me de uma rapariga alemã - coitadinha, já morreu - que eu tanto seringuei para a desenhar nua no Algarve. Fiquei tão desiludido com o seu à vontade que até lhe disse: ‘Tu já foste desenhada!' Tive essa sensação com a Vieira da Silva, julgo que em 1957, quando, a meu pedido, a fotografei em Lisboa, nuns sítios bonitos; uns miradouros. Ela estava muito batida. Fez-me impressão.

- O que quer dizer ‘batida'?

- Que havia posado muitas vezes e estava por dentro do assunto. Ela nessa altura tinha 50 anos. Eu achava-a uma velha. E mais: enquanto eu a fotografava com uma Rolleiflex, que tinha 12 fotografias por rolo, a grandessíssima magana, assim que percebia que o rolo tinha chegado ao fim, ela ... [risos]. Eu tinha 19 anos, com franqueza!

- Qual é a sua companhia enquanto trabalha?

- Para mim, a companhia é o silêncio. O grande silêncio que eu inventei, ou redescobri, é um domingo à tarde, após uma sardinhada, entre o fechar as portadas das janelas e o vizinho do lado a ouvir o relato da bola. Que horror! Mas depois há o momento em que o relato acaba e chega o silêncio ensurdecedor. É a maravilha mais total.

- Música, nem pensar, portanto.

- Não gosto, é barulho.

- As máquinas que usa para esculpir a pedra devem fazer um barulhão...

- Um barulho horrível. Os auscultadores não servem para fazer silêncio, mas para cortar algumas frequências que são mais danosas para os ouvidos.

- Para esculpir é preciso ter força física, não é?

- Sim, mas eu tenho cada vez menos. Estou agora a atravessar um período de falta de força. Há máquinas que eu comprei que, talvez, agora, preferisse outras mais leves.


- O desenho acalma a energia que a escultura exige?

- O desenho foi a origem de tudo, não esquecer. Na minha idade encontro-me a desenhar mais porque o corpo não aguenta.

- Só tem 77 anos... Manoel de Oliveira tem 103 anos.

- Eu não quero ser como ele.

- Woody Allen disse: "Sou absolutamente contra a morte." A morte assusta-o?

- Nada. É daquelas coisas que aprendemos com a lucidez; a morte faz parte da vida. Eu até gostava de ter a consciência de que vou morrer. O saber que acabou. Que o fim está a chegar. Tenho-a em abstracto. Sei que não vou durar 30 anos. Mas não me ralo. O que eu fiz pode ser posto num cofre ou deitado fora numa luta de partilhas.

- Acha?

- Não me espanta nada! Mas isso até é bom. Não tenho compromisso nenhum. Não estou a assinar um cheque de despedida.

- Foi militante do PCP antes do 25 de Abril, mas depois da revolução desligou-se. Porquê?

- Não havia razão. O mínimo que exijo de mim próprio é ter dúvidas e o mínimo que eles exigiam de um militante era que não tivesse dúvidas.

- Não foi somente o academismo do Estado Novo a surpreender-se com a estátua de Dom Sebastião, pois não?

- Conhece alguém que tenha bebido whisky pela primeira vez e tenha gostado?


- Foi um atrevimento.

- Foi. Eu olho, aliás, sempre olhei, para a escultura pública que por aí há, e durante muitos anos tive uma certa inveja de ver tanta coisa tão merdosa e a mim não me pedirem nada. Mas depois comecei a pensar que, se calhar, ainda bem.

- Não se importa que o monumento do 25 de Abril tenha sido alcunhado de ‘pirilau'?

- A marcação é fálica, ‘and so what'? [E então?]

- Haverá censura no País?

- Não. É ao gosto de vereador de província.

- O artista contorna a criação consoante o comprador?

- Com certeza! A estatuária é muito cara e o que sobra para o escultor é muito, de forma que há uma tentação de fazer ao gosto do vereador em vez ao nosso. E pronto, no minuto em que se põe a dúvida mete-se o pé no esterco, no esgoto de onde não se sai mais. Assisti a muitos jovens talentos que perante uma ‘encomendazinha' e a renda da casa, ou factura da maternidade do puto que nasceu, fraquejaram. A fome é negra.

- O João Cutileiro já fraquejou quantas vezes?

- Uma vez. Foi uma lição de vida. Tinha 15 anos e ganhara o 2.º prémio de medalhista da Junta de Turismo da Costa do Sol e convenci-me de que era capaz de fazer medalhas.

- Teve repercussões o facto de o seu pai ter sido um crítico do regime?

- O meu pai foi, de certa maneira, escorraçado pela PIDE e passou a ser funcionário da Organização Mundial de Saúde. Havia um cargo de professor de higiene em Cabul e foi lá colocado.


- Como era Cabul?

- Não existia... Havia duas casas; o palácio do rei e julgo que a outra era a embaixada dos EUA. Mais nada. Fui para o liceu francês. Tinha 14 anos. Fiquei lá sete meses.

- A infância e a adolescência terão sido uma animação.

- Eu gostei. Nasci em Lisboa, onde vivi até aos quatro anos até o meu pai ter sido mobilizado para os Açores. Era a guerra e o meu pai foi colocado no hospital militar da Terceira. Nós - eu, os meus dois irmãos e a minha mãe - fomos com ele. Ao fim de dois anos regressámos a Lisboa.

- Como é que lhe chega a escultura?

- Foi um pedaço de barro destinado às figuras do presépio que me inspirou e fiquei escultor.

- Largou a Escola Superior de Belas Artes a meio do curso. Era uma chatice?

- Aquilo não me interessava para nada. Andei por lá dois anos, saí em 1955 e fui para Londres e só regressei em 1970.

- Casa-se em Londres pela primeira vez?

- A primeira vez que me casei foi em Vila do Bispo, em 1962, e separei-me logo. Depois voltei a casar, em 1965, já depois de o meu primeiro filho ter nascido. A senhora Margarida Lagarto é a senhora com quem vivo há 27 anos.

- Que é quem o ajuda, desde ir à pedreira tratar das pedras até à montagem das esculturas. É comovente.

- Eu também acho. Há um companheirismo que é mais importante do que tudo.


- Nem vale a pena perguntar se foi à guerra...

- Quem vai à guerra dá e leva! Fui isento. Quando fui para a Inglaterra, em 1955, já saí com autorização militar e com isso consegui, até aos 30 anos, não ser chamado. A determinada altura, pediram-me para pagar a taxa militar por inteiro. Paguei logo. Foi a despesa que mais gosto me deu. E eu sou muito avarento.

- As suas obras não transpiram forretice.

- O meu pai dizia que a arte era a economia dos meios de expressão.

A ESCULTURA NUNCA MAIS FOI A MESMA

A primeira, a estátua de Dom Sebastião, erigida em Lagos, em 1973, sacudiu o academismo do Estado Novo e inspirou uma nova geração de artistas. O monumento evocativo ao 25 de Abril, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, carrega a fama de ser fálica. E que seja. O autor não põe à frente o engenho da factura comercial.

Nascido no dia 26 de Junho de 1935, em Lisboa, João Cutileiro, desde cedo, viajou devido à profissão do pai. Insatisfeito com o ensino em Portugal, rumou a Londres, onde viveu durante 15 anos. Quando regressou, em 1970, a escultura em Portugal nunca mais foi a mesma. 

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