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Correio da Manhã

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JOAQUIM AGOSTINHO: UMA LENDA COM FIM TRÁGICO

Vinte anos depois da morte de Joaquim Agostinho, recordamos duas histórias que podem traçar o perfil do maior atleta português de todos os tempos
27 de Julho de 2003 às 15:00
JOAQUIM AGOSTINHO: UMA LENDA COM FIM TRÁGICO
JOAQUIM AGOSTINHO: UMA LENDA COM FIM TRÁGICO FOTO: Museu do Ciclismo/Chico Gomes
Em 1975, Joaquim Agostinho corre um contra-relógio no Tour de França com a camisola do Sporting. Depois de ultrapassar dois opositores, reduz a velocidade sem explicação. O seu director desportivo, Geminiani, grita-lhe do carro-vassoura: “Passa, Joaquim. Passa!”. Mas contra toda a lógica, o ciclista não acelera e acaba por ficar apenas em quinto lugar na etapa. No final, Geminiani disse-lhe que ele poderia ter feito muito mais. Agostinho responde, sem hesitações: “Eu ia lá passar o senhor Poulidor!” [Raymond Poulidor, um dos ciclistas mais carismático do Tour de França].
Numa outra edição do Tour, num planalto alpino, sob um calor abrasador, Luis Ocaña, o chefe-de-fila de Agostinho, confessa-lhe que está a morrer de sede. O português dá-lhe o resto da sua água quente, mas o espanhol está desesperado: “Tenho que parar. Não consigo correr mais”. O português responde-lhe: “Não podes desistir. Se não perdes a camisola amarela”. Entretanto, Agostinho vê uma casa perdida nos Alpes e sai da estrada sem dizer nada. Passados cinco quilómetros, os colegas ouvem o assobio característico do atleta português. Agostinho vinha com uma bilha de água às costas oferecida pelos idosos que viviam na casa de madeira. E deu água não só a Ocaña, como aos restantes corredores que vinham com eles. Merckx, o grande rival do espanhol, não resistiu a desabafar: “Se eu tivesse metade da força do Agostinho, garanto-te que já tinhas perdido a camisola amarela”.
O ÚLTIMO DIA
A 30 de Abril de 1984, na Volta ao Algarve, Joaquim Agostinho tem uma queda aparatosa. Um cão atravessa-se à frente da sua bicicleta e o sportinguista cai no asfalto. Ajudado pelos colegas, ainda pedala os restantes 300 metros até à meta. Todos o aconselham a ir para o hospital, mas a teimosia fala mais alto e o atleta garante que “não é nada de especial” e fica sentado no chão, encostado à ambulância. Só mais tarde, na pensão, depois de vomitar e perder os sentidos é que se desloca ao Hospital de Faro. Mas o estabelecimento não estava devidamente equipado. Sem helicóptero ao dispor, o atleta viaja de ambulância até Lisboa. São 300 quilómetros fatais. Na capital, é operado por João Lobo Antunes, no Hospital da CUF, mas já é tarde. A fractura do crânio é-lhe fatal. Morre dez dias depois, a 10 Maio, deixando o país de luto.
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