Afinal aquilo que escreveu em livro não foi mais do que já contava no início das reuniões de redação. Nunca resistiu a uma calhandrice quem fez sempre por ter vida privada. Tem um “Abcesso de ego”, diz quem privou com este homem de 68 anos, vinte e um deles ao leme do ‘Expresso’. Saiu para fundar o ‘sol’ sem que a meteorologia ajudasse quem previu “liderança em seis meses”
Ouve ‘Let it be’, come cozido à portuguesa e o seu filme é ‘Rocco e os seus irmãos’, de Luchino Visconti. Já pendurou na parede do gabinete um poster da Claudia Schiffer. Quase fugiu do Coliseu dos Recreios quando Cicciolina chamou alguém para o palco e desatou a despi-lo. Teve medo de ser o próximo. Descende de uma família de homens. Quis perceber as mulheres em ‘As Herdeiras de Adriano Gentil’ (Oficina do Livro), um romance que circunda personagens femininas. Na altura, em 2006, garantiu que teria sucesso internacional. Não, senhor. Suspeita-se que, ao contrário do que disse, nunca estará na calha da Academia Sueca. Um editor decepa-lhe as ilusões: "Mais depressa os peixes tocam saxofone do que José António Saraiva vai, alguma vez, receber o Nobel." A exposição incomoda-o, mas coloca-se a jeito. No raiar do ‘Sol’ saiu- -lhe esta: "O projecto prevê que sejamos líderes em três anos. Mas eu espero que sejamos em seis meses." As suas previsões falharam. O ‘Sol’ viu céu nublado.
Redigiu crónicas que mostravam, como recorda fonte próxima, o seu lado pacóvio: comprou um casaco a imitar pele numa bomba de gasolina e não sabia como é que uma entidade bancária poderia ter o seu número de telemóvel. Numa outra concluiu que pela forma como um rapaz colocava os pés no chão, cruzava as mãos e inclinava a cabeça, seria homossexual. Vozes zangadas não mandam recados: "Se ele não tivesse sido director não teria tido nada seu publicado em jornais."
Narcisista
José António Saraiva só podia ter sido director. Não saberia ser mandado, ironiza um familiar. É inseguro. E para puxar mais a verdade ao texto é narcisista. Bem-educado. Cavalheiro, egocêntrico, provocador, controverso, observador do quotidiano e admirador de Jorge Jesus, com quem comunga um ego do tamanho extra large e a teimosia. Possui uma faceta institucional e uma de cara de pau. Concorda que a sua última obra, digamos obra, é uma provocação.
Fernanda Câncio, seis vezes citada, interpôs uma providência cautelar para retirar o livro do mercado. Que se entenda: escarrapacha confidências que teve com figuras públicas. Três não estão cá para se defender; morreram. O além-túmulo não o perturba. Escuda-se que a exigência que dedica à verdade é igual tanto para os vivos como para os mortos.
O livro ‘Eu e os Políticos’, dado à estampa pela Gradiva, é "o Zé António no início das reuniões" - quem enuncia esta frase baseia-se na dificuldade que o então director usufruía em deixar para trás as novidades que extraía das suas fontes antes de dar início ao plenário redatorial. Também não faltava a animação sentimental alheia: fulano deixou fulana para namoriscar com sicrana.
Ego
Fala em tom soprano baixo, mesmo se mostarda lhe atinge a narina, a voz, garante gente que o ouviu durante anos a fio, mantém- -se apagada de convicção. Os olhos, os olhos de José António Paula Saraiva nunca encaram os olhos dos outros. Desvia-os para baixo. Será por timidez ou por temer o que Pessoa previu: são os espelhos da alma. Um antigo colaborador lembra-se de algo sem um pingo de sentimento de culpa: "JAS [José António Saraiva] foi gozado, e muito, por alguns jornalistas, sobretudo pelo abcesso de ego e pela semelhança existente entre os seus editoriais e as crónicas com exercícios de 4ª classe." Ainda assim, com tanto gozo, poucos o enfrentavam. Aliás, havia uma corte que o bajulava.
Mas algo salvava o homem que às sextas-feiras, dia de fecho do ‘Expresso’, mandava vir arroz à valenciana do restaurante Xenu: a generosidade. Se soubesse que algum funcionário passava por um problema pessoal, não hesitava em ajudar. "Que Deus o ajude", brinca uma ex-secretária. A mão divina é solicitada em consequência da incapacidade que o assistiu em não publicar o que ao longo da carreira gravara num bloco de notas. Vítor Rainho, na crónica ‘Novos Censores’, discorda "com a revelação do que deve ficar na intimidade de quem o viveu" e ainda que afirme que o livro tenha "histórias interessantíssimas", salienta três histórias de mau gosto: "… a de Fernanda Câncio, a de Margarida Marante e a de Miguel Portas". O agora director do ‘Sol’ resume o passo do amigo de forma sui generis: "Saraiva entende que o que lhe foi dito em off tem um prazo de validade." Ao telefone revela-nos uma particularidade: "José António Saraiva é uma pessoa que sabe ouvir, até aqueles que não partilham da sua opinião." Ena. Saraiva, José António, após uma rebocada é possível que peça desculpa; pediu-a à redactora que o define da seguinte feição: "É um moralista. Foi um director que viveu distanciado no seu gabinete e divorciado com o que acontecia na redacção. Uma pessoa que lida com ele não pode ver maldade no que diz, escreve ou faz."
Ódios teve alguns. O de estimação, é o jornalista que o substituiu na direcção do ‘Expresso’ em 2005. No blogue ‘Escrever é Triste’, Henrique Monteiro dispensa poesia. Ali, José António Saraiva é baptizado de "mentiroso", "energúmeno", "calhandreiro". Henrique Monteiro toca num assunto sério: "Este homem… Mata a relação de confiança que um jornalista, um director de jornal ou um responsável por um jornal deve ter com as fontes." Em tempos idos, durante uma discussão, Saraiva enganou-se e chamou Isabel a Henrique.
Na sua vida há duas isabéis. A mãe, falecida em 2014. Maria Isabel da Silva Granate Lopes de Paula Saraiva, casada, e por escasso tempo, com o ilustre António José Saraiva, deu aulas a Aníbal Cavaco Silva no Instituto Comercial de Lisboa. Professora de Francês que carregava nos "erres", sempre atenta à biografia dos três rapazes que dera à luz: António Manuel, José António e Pedro António. O filho do meio, que é o senhor deste perfil, nasceu no último dia de Janeiro de 1948, em Lisboa. Contava dez anos na hora do exílio do pai, em Paris. Dizem que a sua personalidade é fruto da ausência paterna.
Um antigo colega do Liceu Dom João Castro confirma a lembrança do presidente da associação dos antigos alunos: "José António Saraiva era individualista, metido consigo próprio, reservado, não era comunicativo, nem participativo e, como aluno, foi razoável." Gaspar Neto lembra: "Não sei como, mas ele escrevia para o ‘Comércio do Funchal’." Era editado por Vicente Jorge Silva, que muito mais adiante lançar-lhe-á o desafio para escrever no ‘Expresso’. E ainda uma singularidade: "Notava-se que o ascendente familiar o marcava." A reitoria do liceu estava entregue a José Hermano Saraiva. A posição do tio não o incomodava. O incómodo-mor talvez tivesse raiz no facto de o seu progenitor o marcar tanto sem, afinal, terem tido grande proximidade.
Aos 15 anos, no Natal, vai a Paris visitar o pai. Após dois dias de viagem de comboio, bateu à porta da casa e ninguém atendeu. Dormiu nas escadas. Enregelou. Na manhã seguinte, Maria Lamas dir-lhe-ia que o pai iria despedir-se de um amigo na estação dos comboios. E seria aí que sentiu umas mãos nas suas costas; encontrava, finalmente, o pai. Acabado o liceu seguiu-se o curso de arquitectura. A segunda Isabel no coração de José António Saraiva é Isabel Maria das Neves Cabrita, a então namorada que conhecera através de um colega de liceu. O casamento dá-se no ano da licenciatura, em 1973. Com a engenheira silvicultora fará duas obras: José Cabrita Saraiva, subdirector do jornal ‘i’ e Francisco Cabrita Saraiva, primeiro-secretário de Embaixada, que no governo de Passos Coelho exerceu as funções de adjunto no gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José de Almeida Cesário.
A mulher, em 2004, chefiou o gabinete de João Manuel Alves Soares, Secretário de Estado das Florestas do governo de José Manuel Durão Barroso. Sobre este assunto, um socialista exclama: "E está sempre a dizer que é livre e independente!" Mas o alarido é a publicidade gratuita: "Está a vender, mas o teor do livro tira credibilidade", resume um jornalista que trabalhou no jornal fundado por Balsemão, em que Saraiva criou inimigos, cimentou amigos, carregou o poder que no auge de ‘O Independente’ chegou a tremer.
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