É psiquiatra, doutorado em Saúde Mental pela Universidade de Londres, co-fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar e autor de vários livros. Pelo seu consultório passam inúmeros casais à procura de uma alternativa ao divórcio. Porque a separação dói que se farta.
Em que circunstâncias é que um casal recorre à terapia familiar?
Sobretudo quando já esgotou todas as possibilidades de resolver o problema sozinho. Costuma-se dizer que ‘entre marido e mulher ninguém mete a colher’,no entanto, por vezes, os casais não conseguem contornar as questões e aceitam a ajuda de uma terceira pessoa.
Mas a sociedade ainda encara a terapia com alguma desconfiança. Tem-se a ideia de que ‘os psiquiatras são para os outros’...
Nos últimos anos, temos assistido a uma evolução na sociedade relativamente a este tipo de ajuda. É óbvio que as coisas demoram o seu tempo mas, baseado na minha experiência pessoal, posso afirmar que recebo quer casais, quer pessoas singulares, que vêm ter comigo de livre vontade (não são enviados por colegas de outras áreas). Esta gente que chega de ‘modo próprio’ é um indício dessa evolução.
O que pensa sobre este recente fenómeno dos casamentos de curta-duração (uns meses )?
A grande maioria não é assim, mas é um facto que existem casamentos curtos. Penso que, em primeiro lugar, isso tem a ver com o aumento do divórcio em geral. Repare, hoje em dia a esperança de vida é muito maior. Antigamente uma pessoa com 40 anos olhava para a frente e pensava: “Não tenho muito mais tempo, não vale a pena separar-me”. E existe a ideia da felicidade pessoal, que é muito mais forte do que era há umas décadas.
A ‘felicidade pessoal’ também passa pelo ‘outro’.
Obviamente que apesar de lhe chamarmos ‘felicidade pessoal’, ela passa muito pela relação conjugal. Se essa relação não é satisfatória, a sociedade actual é mais permissiva em relação aos que querem ‘cortar’ com ela. E a maior parte das pessoas que se separam ou divorciam voltam a ‘conjugalizar-se’ com outras. Isso quer dizer que gostam do esquema (risos)...
Quais são as queixas masculinas mais frequentes, ou seja, o que é que um homem alega quando se quer divorciar?
Que as mulheres são umas chatas. E depois há queixas sexuais - não necessariamente de funcionamento, mas de frequência. O estereótipo é este: elas queixam-se de que eles não lhes ligam nenhuma; eles queixam-se de que elas não vão para a cama com eles.
Isso é um ciclo vicioso. A mulher não quer ter relações porque se sente magoada e ele não lhe liga porque não têm relações...
Sim, muitas vezes, o que acontece é que os casais têm dificuldade em exteriorizar aquilo que sentem e que pensam. Mas não se pense que a vida sexual é fundamental. Costumo dizer que ‘há para todos os gostos’ e por essa razão é complicado traçar um estereotipo da vida sexual dos casais. Há uns que não se dão bem nessa área mas que são felizes.
Nas separações/divórcios, é curioso constatar que pouco tempo depois, o homem está novamente acompanhado, enquanto a mulher faz um ‘luto’ mais prolongado.
(risos) Por um lado, há uma lógica de mercado nisso, ou seja, há mais mulheres que homens naquilo a que os sociólogos designam de ‘mercado conjugal’. Os homens são mais dependentes e, tradicionalmente, mais superficiais na sua relação amorosa. Têm mais tendência para, pouco depois da separação, encontrarem uma namorada. As mulheres, quando se ligam a alguém é de uma forma mais intensa, mais forte. Mas também quando se decidem separar, está decidido.
Ou seja, elas são mais ‘radicais’ na questão das separações?
(risos) Exacto. Vejo muitos casais com situações complicadas em que é clara a insatisfação feminina. E nesses casos, é muito difícil demover as pessoas - se a mulher já decidiu, está decidido. Saliento ainda que quando as mulheres decidem separar-se, fazem-no, grande parte das vezes, sem que exista uma terceira pessoa.
Quando um casal se separa, existe a ideia errada de que apenas a pessoa que é ‘deixada’ sofre.
A pessoa que se decide separar também sofre mas, eventualmente, de uma forma diferente. À partida, quem toma a decisão fica numa situação relativamente ‘fácil’: conseguiu libertar-se de algo que era asfixiante. Por outro lado, também fica com a sensação de projecto falhado e acaba por haver sempre sofrimento e dor. A pessoa que é deixada vive uma fase de raiva e de zanga mais prolongada, até atingir aquele patamar de aceitação.
É mais fácil a um homem ou a uma mulher perdoar uma infidelidade?
Quando elas são infiéis mas querem manter a relação, o homem perdoa. O problema é que às vezes quando elas arranjam uma relação extraconjugal, isso implica a ruptura do casamento. Mas, quer sejam eles ou elas a cometer a infidelidade – e se o ‘outro’ quer manter a união, a relação aguenta-se. Claro que ficam marcas e, de vez em quando, aparecem umas ‘fatias’ de crise. É uma espécie de factura que não está completamente saldada e a pessoa que foi traída sente uma maior necessidade de controlar o outro.
Esse ‘controlo’ é sempre relativo. Uma pessoa quando quer fazer as coisas, faz...
Claro que é. Antigamente, controlava-se através dos quilómetros do carro. Hoje em dia, sem dúvida, que é maioritariamente através dos telemóveis (chamadas feitas e recebidas, mensagens...), dos extractos do banco e de outras formas inimagináveis. É um pseudo-controle. Ninguém controla ninguém.
Quem é que lida melhor com a separação/divórcio, ele ou ela?
A mulher é muito mais autónoma. Um homem tem menos capacidades para estar só e é disso que eles geralmente se queixam. Porque num casamento em ruptura - e em que existem filhos -, regra geral as crianças ficam com as mães (que, à partida, têm menos tempo para se sentirem sozinhas). Os homens chegam a casa e não está lá ninguém.
Muitas vezes encontram ‘escapes’, como o trabalho, as ‘borgas’...
É verdade. O homem tende a refugiar-se. Há muitos pais que têm uma ligação forte, intensa e diária com os filhos e que, com esse afastamento, acabam por sentir um grande vazio. Alguns até tentam a custódia partilhada, mas em Portugal isso é pouco frequente. Ou seja, os homens ficam mais sozinhos...
E isso faz com que tenham mais disponibilidade para sairem com amigos e amigas porque têm uma vida mais liberta. Penso que, dos dois lados, há coisas boas e coisas más. É difícil dizer quem fica a ‘ganhar’ ou a ‘perder’.
Quando um homem ou mulher possui vários relacionamentos ‘falhados’ no seu ‘curriculum’, isso pode ser indicador de alguma instabilidade?
(risos) Esses são os grandes amantes do casamento! Pessoas que, em princípio, esgotam rapidamente as relações mas acreditam nelas enquanto duram. Tenho alguma dificuldade em rotular os outros, cada um é como é... Mas, por exemplo, se um homem que teve três ou quatro casamentos quiser pensar nisso tem direito a fazê-lo. Como também tem toda a legitimidade em não o fazer...
Muitos homens de meia-idade, após dois ou três processos de separação, têm tendência para escolher mulheres muitos mais novas. Porquê?
À medida que eles vão envelhecendo, no seu terceiro ou quarto relacionamento, escolhem normalmente mulheres jovens por razões estéticas e físicas (risos). Não há nada a fazer, as mulheres mais novas são mais atraentes. Em termos sociais, um homem ter uma companheira mais nova proporciona-lhe uma mais-valia.
Mas depois há o reverso da medalha...
Sim, porque essas relações também trazem ‘dores de cabeça’, a começar pela insegurança. Em termos de ciclo vital, por exemplo, pode ser complicado um homem de 60 anos acompanhar uma mulher de 30 ou de 40. Por outro lado, muitas vezes estas companheiras jovens são ‘escolhidas’ porque o homem deseja ter filhos e, como se sabe, um homem aos 60 pode ser pai, uma mulher já não.
Quando um divorciado começa uma nova relação, o lado estético da mulher é assim tão importante?
Penso que em todas as idades e em todas as gerações o aspecto estético da mulher é importante. Não é só isso, mas nas primeiras aproximações conta bastante. Tradicionalmente, um homem pode ter uma barriguinha e ser charmoso, ou ser feio e interessante. Uma mulher feia pode ‘apenas’ ser interessante. Isto é o esteréotipo...
José Manuel Gameiro cresceu com vontade de ir para a Marinha. Mas na adolescência percebeu que afinal queria ser médico. Em 1977 fez internato no Hospital de Santa Maria, e é há exactamente 26 anos que se dedica à Psiquiatria. Tem saudades da Medicina Interna e de fazer urgência hospitalar. Em 1987 foi para o Hospital Miguel Bombarda, onde ainda se mantém como chefe de serviço de Saúde Mental. No entanto, fez algumas interrupções no seu percurso hospitalar: doutorou-se em Saúde Mental na universidade de Londres, trabalhou na Câmara Municipal de Lisboa até 1995, quando esta era presidida por Jorge Sampaio (fez prevenção de droga e outros trabalhos), teve uma breve incursão na política e possui várias obras publicadas, entre as quais ‘Os Meus, os Teus e os Nossos’. Actualmente, reparte o seu tempo entre o Hospital Miguel Bombarda, a Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar - da qual é co-fundador e onde exerce clínica privada -, o Instituto Superior de Ciências da Saúde (onde dá aulas) e a pilotagem do seu avião, um ‘brinquedo’ que adora.
O clínico quis ser piloto mas nunca conseguiu que uma companhia aérea aceitasse um psiquiatra a bordo. Ironicamente – ou nem por isso – está divorciado de uma médica, com a qual teve uma filha, hoje com 26 anos e formada em arquitectura. Refez a sua vida junto de outra médica, da qual tem agora um filho com cinco anos. E é irmão mais novo de outra psiquiatra de renome: Maria Helena Gameiro (são o único caso português de dois irmãos a exercer esta especialdiade clínica). Talvez ainda este ano surja um novo título seu no mercado, dedicado ao tema do casamento.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.