Nem sempre o trabalho ganha. Muitas mulheres trocam a carreira pelo tempo para a família
Do número sete diz-se que tem poderes mágicos e foi depois de ver nascer o sétimo filho que Marta Calado deu novo rumo à vida. "Estava a custar-me imenso voltar ao trabalho. Deveria regressar em Agosto e tinha sete filhos em casa. Não se congelam sete crianças no Verão", conta. A solução encontrada por esta enfermeira de 41 anos foi pedir licença sem vencimento por dois anos. "Depois logo verei, mas estar disponível para eles é muito gratificante".
Na casa de Marta, em Lisboa, há conforto e desafogo financeiro. O salário do marido, arquitecto, garante empregada externa e colégio privado para os mais velhos. Ainda assim, a rotina mudou. "Mais do que dinheiro, é preciso espírito de partilha e hoje em dia podemos prescindir de muita coisa. Tenho apoio da família, que é grande, distribuí tarefas pelos filhos, faço tudo mais natural e invisto menos em mim. Não compro roupa de marca nem ténis de 70 euros para os miúdos", explica. A prole é fácil de contentar, o que levou Marta a estabelecer a regra de que cada refeição não pode exceder os cinco euros. Ao fim-de-semana, a diversão surge em forma de piquenique.
REGRESSO A CASA
A filosofia de vida de Marta floresceu na Europa do Norte, onde jovens licenciadas aplicam o treino académico na construção da família ideal. Mas por ser o oposto das ideias feministas do século XX, é contestada pela filósofa Elisabeth Badinter, que no livro ‘O Conflito: A Mãe e a Mulher’ denuncia o movimento como reflexo de uma sociedade machista, que, a prazo, cria filhos egocêntricos e mães angustiadas.
Marta defende o contrário: "são necessárias mais crianças na Europa, as famílias devem ser maiores e as mães têm de estar em casa. Não tenho dúvida nenhuma". Leva essa missão a peito. Quando já tinham dois filhos naturais, o casal adoptou um menino ao qual se juntaram os restantes irmãos Calado. Sentada na sua sala luminosa, solta uma gargalhada quando os filhos a embrulham em abraços. "Não sinto saudades da carreira, mas de repente senti um bocadinho vazio, que colmatei com acções de voluntariado. Agora noto que estou presente numa fase em que os meus filhos precisam de mim. É urgente acompanhar as crianças, pois a falta de pais implica uma falta de educação e de caminho".
"Foi por amor" que Ana Filipa O’Driscoll enrolou o canudo da licenciatura em Gestão de Empresas e rumou à Irlanda. "Casei com um irlandês, engravidei logo e decidimos que não era boa altura para procurar emprego". Com surpresa, encontrou um país onde a maioria das mulheres não trabalha. "E, por influência ou por estar num país estrangeiro, resolvi ficar em casa a tomar conta do Manuel". O cabelo loiro e os olhos azuis do pequeno de três anos não escondem a origem de quem nasceu no país que tem a taxa de natalidade mais elevada da Europa e onde o aborto ainda é ilegal. Na Irlanda, a opção das mulheres ficarem em casa é bem vista e a falta de uma rede pública de creches incentiva as mães a tempo inteiro.
No entanto, nem tudo são rosas. Ana Filipa também sentiu o peso da solidão: "os homens irlandeses partilham as tarefas, mas durante o dia fazia tudo, cuidar do Manuel, limpar a casa, cozinhar. O mais complicado foi gerir a diferença climatérica. A chuva não parava e havia dias em que sentia uma certa angústia. Nesses momentos telefonava à minha mãe ou agarrava no cartão de crédito e desforrava-me nas compras (risos)."
No Verão passado, Ana e o marido, gestor de controlo de qualidade, trocaram a vivenda com jardim nos arredores de Dublin por um apartamento em Oeiras. De regresso a casa, esta mãe de 35 anos reconhece que a nossa sociedade não está preparada para as famílias. "Principalmente a nível financeiro. Os salários aqui são bem mais baixos, a mulher que trabalha chega a casa tarde, as escolas não se adaptam a esses horários e as que estão em casa têm rotinas muito rígidas. As irlandesas saiam mais", nota.
Apesar do calor português, o desejo de voltar à vida activa começa a amadurecer dentro desta mãe. "Gostava de arranjar um part-time, para sair de casa e falar com adultos, mas quero continuar a acompanhar o meu filho e o meu marido".
MUDAR DE VIDA
A parafarmácia de Sílvia Prates, em Évora, está à venda. Aos 34 anos, mãe de dois rapazes, António e Miguel, e grávida de Maria, Sílvia vai trocar o negócio pela difícil arte de mudar fraldas e aquecer biberões. E será apenas o rendimento do marido, dono de uma empresa de prestação de serviços agrícolas, que sustentará a família. "Com três filhos é complicado, não tenho ninguém que ajude e sou eu quem acompanha as crianças à escola", conta Sílvia, que, inspirada pelo instinto materno, está disposta a adoptar mais rigor nas contas caseiras. "Tempo também é dinheiro e se continuasse a trabalhar teria de contratar alguém ou então fechava a loja nas horas críticas. Se calhar é preferível abandonar o negócio ", diz.
O exemplo da sua mãe professora, muitas vezes colocada fora da zona de residência, também moldou a personalidade de Sílvia: "desde os sete anos que fui habituada a ficar sozinha em casa. Acredito que os meus filhos precisam de facto de mim, porque senti falta de apoio quando tinha a idade deles". O que recusa é estar perante um retrocesso do papel da mulher na sociedade: "somos essenciais, tudo parte de nós e se tivermos essa consciência a família sai enriquecida. Isso é válido para os filhos e para o casamento".
Graça Franco, 52 anos, directora de Informação da Rádio Renascença, lembra a opção que tomou em 1999, quando o marido, militar, foi colocado em Bruxelas. "Pedi uma licença sem vencimento. Custou-me abandonar um projecto que estava ainda no começo, mas achei que seria muito bom para a família", revela. A vivência num país estrangeiro "foi única e gratificante" e só sentiu pressão social junto da comunidade internacional quando sabiam da sua ocupação anterior. "Uma mãe de filhos pequenos, jornalista a tempo inteiro, era vista como prova de ‘enorme irresponsabilidade’ e alguma negligência educacional. Na Alemanha, na França, na Bélgica e na generalidade dos países nórdicos as mulheres de classe média e média- alta interrompem necessariamente as carreiras para acompanhar os filhos pequeninos" e têm todas as garantias de reingresso. "Neste aspecto", diz esta mãe de cinco filhos, "a experiência internacional faz-nos mesmo perceber como estamos muito subdesenvolvidos".
FAMÍLIAS PROCURAM NOVA FÓRMULA DE FELICIDADE
"O número de mulheres que em Portugal opta por ficar em casa não representa um movimento", explica o sociólogo Luís Rodrigues, pois a "a nossa economia está fundada ainda no rendimento da família e não só no do pai ou da mãe". Essa filosofia, diz, formou-se "nos países nórdicos, onde um dos membros do casal prescinde do salário e passa a cuidar da educação das crianças e do bem-estar da família".
O sociólogo esclarece que "após a II Guerra Mundial criámos uma aceleradíssima necessidade de fazermos coisas. Mas, neste momento, a Europa procura outra forma de felicidade. Reencontrar o sentido naturalista de viver é algo que nos vai fazer andar para trás, significativamente, mas também olhar para a frente para termos uma sociedade menos consumista". E aponta os riscos: "está demonstrado que grande parte da criminalidade está associada à desestruturação da vida familiar".
NOTAS
PORTUGAL
A taxa de natalidade portuguesa é a terceira mais baixa da Europa, com 9,4 nascimentos por mil habitantes.
IRLANDA
A Irlanda é o país com maisL nascimentos na Europa: 16,8 por cada mil habitantes.
HOMENS
Em Inglaterra, 32 por cento dos universitários admite ficar em casa para cuidar dos filhos.
APOIO
A sobrecarga horária das mães que trabalham não tem apoio na rotina das escolas públicas.
MODELO
Nos anos 60, muitas japonesas tiravam licenciaturas apenas para educarem o filho varão.
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