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Correio da Manhã

Domingo
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Meditações sobre a passagem do tempo

Os republicanos fizeram de Camões o poeta nacional – e de ‘Os Lusíadas’ o épico de todos os patriotas.
António Sousa Homem 22 de Novembro de 2009 às 00:00
Meditações sobre a passagem do tempo
Meditações sobre a passagem do tempo

A minha sobrinha voltou à carga e reafirmou que já não há cavalheiros. Ela é uma camiliana que só leu o essencial de Camilo, o que a coloca num patamar trinta ou quarenta vezes acima do comum dos seus compatriotas – além disso, fá-lo recuperando do génio de São Miguel de Ceide os aforismos mais reaccionários mas emprestando-lhes uma aura muito democrática.

Esse esforço é considerável. Camilo era, bem vistas as coisas, o único miguelista do seu tempo, tal como a Tia Benedita era, até à sua morte, a única miguelista acima do Zêzere. O velho Doutor Homem, meu pai, apreciava em ambos os tons velhacos e os anacronismos que lhes emprestavam doçuras cómicas: eram gente do seu tempo mas viviam fora dele. A "escola moderna" tentou encontrar em Camilo os sinais de um evidente "carácter democrático", coisa que não existe – nem nele, nem em Alexandre Herculano, o pessimista dos pessimistas. O mesmo acontece, ai de nós, com Camões, o vate dos vates que cabe em todos os panteões.

Os republicanos fizeram de Camões o poeta nacional – e de ‘Os Lusíadas’ o épico de todos os patriotas, o grande humanista e o "imperdível humano", cheio de caridade e de simpatia. Ora, nada de mais absurdo do que esquecer que Camões descreve os marinheiros portugueses como celerados que espalharam a morte e partiram pelos mares em busca de fortuna e de prazer, coisa muito distante e diferente daquilo que o espírito moderno exige aos seus poetas – que sejam modelos de civismo e de bom comportamento moral.

Os marinheiros de Camões eram marinheiros da época: mataram com pertinácia e empenho, violaram pelo Índico fora, fizeram prisioneiros em África e no Ceilão – não são gente modelar que se convide para um jantar de sábado numa casa de família. Éramos assim. Éramos bárbaros e selvagens.

O mesmo com Camilo; querer transformá--lo em escritor democrático e, até, com ideias socialistas, é como transformar a Maria da Fonte numa republicana do princípio do século. A verdade é que as pessoas têm horror a encarar o que amam ou lhes dá prazer como aquilo que são: o que são. Camilo era um homem do "antigo regime", irritavam-no os modernos e a "ideia nova", essa mistura de democracia e proudhonismo. A minha sobrinha Maria Luísa, que acha graça aos reaccionarismos de Camilo (saborosos e paradoxais, como convém), recusa-se a aceitar que gosta de um autor como Camilo por aquilo que Camilo é, de facto.

O mundo está cheio destes paradoxos. Ao mencionar que já não há cavalheiros, Maria Luísa olhava para o Minho de hoje e repetia as observações de Camilo sobre os fidalgos das Terras de Basto no seu tempo. Já nesse tempo tinham desaparecido.

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