O antigo Regimento de Comandos, na Amadora, evoca todos os anos, de um modo especial, dois dos seus combatentes, o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, mortos no 25 de Novembro de 1975, numa acção militar para submeter o quartel da Polícia Militar, na Calçada da Ajuda, em Lisboa.
Em sua memória, e diante do monumento ao Esforço do Comando, são espetadas duas G-3 com baioneta e nelas penduradas as respectivas boinas encarnadas. Ponto alto da comemoração é a leitura do relatório de operações dos dias que recolocaram a democracia portuguesa nos trilhos da Liberdade. ‘Abaixo os Páras que querem lançar o País na guerra civil’, ‘Nem Chile, nem Praga!’, ‘Viva a Democracia!’, ‘Viva Portugal!’ foram palavras de ordem que em há 27 anos sublinharam uma acção militar decisiva para a jovem democracia portuguesa. Data marcante na vida política nacional, o 25 de Novembro tem, contudo, uma evocação mais discreta que o 25 de Abril e o derrube do Estado Novo.
Militarmente, porém, revestiu-se de aspectos mais importantes, tanto quantitativos como qualitativos. Só as movimentações dirigidas pelo comando militar, que garantiu o processo democrático, envolveram mais de seis mil homens, ou seja, o dobro dos que agiram para apear de surpresa o governo de Marcello Caetano. Na sua preparação, o 25 de Novembro repetiu, porém, muitos passos do 25 de Abril, com reuniões de militares, redacção de documentos e planeamento operacional. Quem o lembra é o coronel Rodrigo Sousa e Castro que viveu por dentro os dois acontecimentos.
Com 31 anos, em 1975, tinha o posto de capitão e ainda é hoje lembrado pelo ex-presidente da República, Ramalho Eanes, chefe das operações militares, como um homem-chave nos contactos com quartéis de todo o País e também com diversos sectores da sociedade civil. Ao longo de quatro meses, Sousa e Castro teceu as fidelidades essenciais no momento de ‘contar as espingardas’, frase muito em voga no chamado ‘Verão Quente’. Pagando do seu próprio bolso e ao volante de um BMW 1602 azul escuro, que a sogra lhe oferecera pouco depois do 25 de Abril, aquele capitão do Conselho da Revolução fez muitas dezenas de viagens, sobretudo ao Norte, onde contava, no Porto e em Ovar, com o apoio familiar dos seus seis irmãos.
“Já quando das reuniões antes do 25 de Abril, eles tinham-me ajudado muito, inclusive no contornar das dificuldades do racionamento de combustíveis que existia por causa da guerra israelo-árabe”, lembra Sousa e Castro que faz, logo à partida, uma definição clara do 25 de Novembro: “Há muitas ideias erradas sobre o que aconteceu. Não se tratou de qualquer espécie de reacção ao 25 de Abril, mas sim de um movimento social que culminou numa acção militar. Os resultados das eleições para a Constituinte mostraram que o País queria uma evolução política moderada e rejeitava os extremos, fossem de direita ou de esquerda.
Contra esta realidade, o Partido Comunista insistia em ter mais poder e mais importância do que a sua representação eleitoral minoritária. Nesta situação, o Conselho da Revolução dividiu-se, claramente, entre aqueles que consideravam o 25 de Abril um projecto democrático e os que defendiam um processo revolucionário, sem respeito pela vontade da grande maioria dos portugueses.”
Discussões do ‘Documento dos 9’
Ao longo do Verão de 1975, a luta política atingiu o auge. Manifestações gigantes como a da Fonte Luminosa, em Lisboa, que teve Mário Soares como principal orador, e a publicação do chamado ‘Documento dos 9’, redigido por Melo Antunes, deram toda a legitimidade ao grupo político-militar que gerou o 25 de Novembro. Havia a ideia que se estava a exagerar nos atropelos à democracia e esse sentimento era patente nas muitas reuniões discretamente organizadas para discutir a situação.
“Na Foz, no Porto, em casa do actual general Sousa Pinto, comandante da Região Militar de Lisboa, encontrei oficiais que queriam de imediato romper com a cadeia de comando, em oposição ao brigadeiro Corvacho, da Região Militar Norte”, recorda Sousa e Castro, ainda marcado pelas discussões realizadas numa moradia de três pisos, pintada de cinzento claro. Foi ali que se moldaram as cumplicidades que, primeiro, despacharam Corvacho, com os quartéis a anunciar que passavam a obedecer ao comandante da Região Militar Centro, Franco Charais, e depois garantiram uma rectaguarda eficaz nos dias decisivos.
Estratégia antiguerra civil
O 25 de Novembro foi tecido com a preocupação de evitar ao máximo a hipótese de uma guerra civil. Daí a sua cuidada preparação em termos militares e a estratégia de convívio permanente com o adversário. De facto, embora a Assembleia Constituinte chegasse a aprovar, por volta de 20 de Novembro, uma eventual transferência para o Porto, onde se recolheram alguns políticos moderados, uma das grandes forças do 25 de Novembro foi nunca dar espaço às forças contrárias. O comando operacional chefiado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes instalou-se no Regimento de Comandos, na Amadora, e o contacto com os quartéis em deriva esquerdista foi quase sempre feito de forma pessoal e directa.
A estratégia inibiu aventureirismos e para a maioria dos portugueses o 25 de Novembro quase se resumiu a ver a emissão da RTP ser cortada, à hora de jantar, durante a leitura de um comunicado por um militar barbudo (Durand Clemente), para prosseguir pouco depois com um filme cómico de Danny Kaye.Para agir solidamente, os militares do 25 de Novembro preveniram-se em termos de força. Daí o movimento ter mobilizado os mais de seis mil militares em armas para garantir um controlo efectivo de toda a situação. Em resposta à ocupação, na manhã de 25 de Novembro, de várias bases aéreas por grupos de pára-quedistas enganados por forças de extrema-esquerda, o comando militar (coordenado a partir dos Comandos da Amadora) conseguiu colocar todas as Forças Armadas portuguesas a obedecer ao então presidente da República, Costa Gomes, que teve, como era hábito, o papel de gestor da crise.
A única excepção foi a Polícia Militar, sediada na Calçada da Ajuda, que por demora na resposta do seu comando acabou por ser submetida à força, registando-se ali os únicos confrontos violentos, com vítimas mortais. Em sua memória, os vencedores nunca esquecem o 25 de Novembro.O país queria uma evolução política moderada e rejeitava os extremos. Na RTP tudo se resumiu ao corte da leitura de um comunicado por um militar barbudo.
Cardeal Sem poder sobre os bispos
Antes do 25 de Novembro, Sousa e Castro encontrou-se duas vezes com o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro. A Igreja Católica assumia na altura, sobretudo no Norte, a liderança no combate aos abusos revolucionários que agravava ainda mais as tensões sociais. Os moderados do Conselho da Revolução entenderam que era urgente desdramatizar a situação e encarregou Sousa e Castro de contactar o cardeal. Os dois eram praticamente conterrâneos, o capitão de Arnoia e o cardeal da vizinha aldeia de São Clemente, tudo no concelho de Celorico de Basto. O prelado foi muito amável, mas surpreendeu o capitão: o cardeal de Lisboa não tinha qualquer poder sobre os outros bispos portugueses e poderia, quanto muito, influenciá-los nas reuniões da Conferência Episcopal. O capitão que conhecia mal as obediências do clero, ficou decepcionado, mas o resultado foi bom: as tensões baixaram e a democracia ficou com caminho tranquilo para vencer.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.