Foi para o Congo fazer fortuna na guerra e acabou ferido. Recebia 50 mil escudos por mês e punha metade em Portugal, no tempo em que cá se ganhava um conto.
A PIDE só lhe deixou as memórias que ninguém lhas podia tirar – as do seu pensamento. Confiscou-lhe as fotografias, todas menos quatro. E escaparam ainda, por fim, cinco maços de notas de mil francos congoleses – as mesmas que têm o rosto, que ainda pode ver, de Moise Tshombe, o homem que o contratou como mercenário sob a égide da bandeira da República do Catanga: vermelha do sangue pela libertação da região; branca como sinal de "pureza" – disse um dia Tshombe –, e verde de esperança.
Evaristo Pires, humilde algarvio nascido no interior serrano, em 1962 entrou de comboio no Catanga, província que se tinha separado unilateralmente do Congo. Deixou Angola, para onde tinha emigrado há menos de três anos em busca de fortuna. Melhor: para fugir à pobreza que o trabalho no campo não afugentava.
Ouviu dizer que no Congo se ganhava bom dinheiro. E ainda bem. Fechou a oficina de armas de caça, enrolou a "trouxa". As autoridades portuguesas ajudaram-no a passar a fronteira. Como? Isso é que não revela. E, uma vez do lado de lá, um português comerciante apresentou-o ao comandante do exército catanguês como armeiro experiente – coisa que só dominava, por arte do desenrasca. Passou a defender Tshombe, o presidente do Catanga, que estava em guerra com tropas das Nações Unidas numa disputa por aquela região, rica em cobre, ouro e urânio.
Instalado no quartel de Colwezi, o alferes Evaristo – único português por lá – era responsável pela manutenção de todo o armamento de origem belga e, em menor quantidade, americano. "Havia camaradas na linha de combate, mas como o Tshombe não quis fazer sangue no país, retirámo-nos para Angola". O exército recuou com a entrada das tropas das Nações Unidas e o então presidente exilou-se na Rodésia do Norte, actual Zâmbia.
Em Junho de 1964, nada consegue deter a rebelião no Congo. Moise Tshombe é convidado a regressar para ajudar a restabelecer a paz. Ambicioso, torna-se primeiro-ministro. Como medida imediata, faz entrar no país os seus homens para formarem o Comando Leopardo, integrado no exército do Congo. "Éramos todos pagos para combater, mas não para matar" – recorda Evaristo, comandado pelo mercenário belga Jean Schramme.
"A minha modalidade era disparar para meter medo". O algarvio nunca recebeu instrução de guerra. Aprendeu a usar apenas as mãos na arma, nunca a pontaria. "Se matei alguém foi sem saber". Mas o seu corpo estava lá, no meio da guerra. A acção psicológica de um campo de batalha onde se sucediam mortes era cruel. E tudo parecia pesar mais à medida que o tempo ia passando e ele não recebia cartas, carinho da família. Só Evaristo podia escrever à mulher e enviar-lhe também metade dos 50 mil escudos de salário, num tempo em que se recebia mil escudos em Portugal – só o tesouro do Comando Leopardo, usado nas despesas correntes, continha 15 quilos de ouro, 15 milhões de francos congoleses e mais uma batelada de dólares.
O clima era de tensão constante. Correram 15 meses de governação Tshombe. Evaristo Pires é apanhado no meio de um tiroteio em Stanleyville. O jipe onde seguia é trespassado por balas, o condutor morreu e Evaristo, engatilhado na metralhadora, levou um tiro no joelho e outro na mão – quando a guerra estava prestes a acabar. Foi evacuado para a Rodésia do Norte num avião cravejado com balas. Ao lado do algarvio seguia Bod Denard, mercenário francês que combateu um pouco por toda a África, também ele soldado de Tshombe ferido em combate.
Evaristo nunca recuperou os movimentos de um dedo. Foi recambiado para Portugal. À chegada, a PIDE apanhou-o, interrogou-o e tirou-lhe parte das memórias.
ANOS DEPOIS DA GUERRA FOI PADEIRO
Nunca foi à tropa. Acabou por se voluntariar para a guerra sem receber instrução. Evaristo combateu seis anos no Congo. No regresso a Portugal, construiu uma casa na aldeia de Montes Novos, Salir, no Algarve. Quis mais tarde conhecer os EUA e por lá ficou um ano. Quando reencontrou em Portugal o mercenário Jean Schramme, foi trabalhar para o Luxemburgo a convite deste. Ficou lá oito anos. Já em Portugal, abriu uma padaria, entretanto encerrada.
NO CONGO FOI SEMPRE OFICIAL MERCENÁRIO COM DIREITO A JIPE
Evaristo habituou-se a fazer a manutenção de armas de caça quando se estabeleceu em Angola. Um ano depois apresentaram-no ao comandante do exército catanguês já como armeiro experiente. E acabou contratado como voluntário e com a patente de alferes, em 1962, durante seis meses, até que este exército foi obrigado a refugiar-se em Angola.
Entretanto, já ele tinha aprendido a falar francês. Quando regressou ao Congo, em 1964, Evaristo já era tenente. Tinha à disposição um jipe com motorista, um ajudante e as armas que queria. O português foi sempre um oficial mercenário.
PAÍS ASSOLADO
A partir de 1964, o Comando Leopardo passou a percorrer todo o Congo para libertar as regiões controladas pelo inimigo. Reconstruíram infra-estruturas, como a ponte na fotografia, para progredirem no terreno.
PERFIL
Evaristo Pires, 82 anos, vive na aldeia de Montes Novos, freguesia de Salir, Algarve, onde nasceu. Em 1959 parte para Angola para mudar de vida, largando o trabalho nos campos. Deixa cá a mulher e o filho.
Em Angola abre uma oficina de armas de caça. Soube então que no Congo se ganhava bom dinheiro e, um dia, parte para lá. A partir de 1962 foi mercenário no exército de Moise Tshombe, que chegou a primeiro-ministro. Saiu de lá ferido, em 1968.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.