São mulheres e partilham o gosto por viajar sem companhia na bagagem. O Mundo não lhes é estranho, o medo também não
David podia ter nascido na Índia se o visto da mãe não tivesse caducado aos sete meses de gravidez e fosse obrigada a regressar. Porque não foi a gestação de oito semanas a impedir Sofia Guerreiro, então com 30 anos, de pôr a mochila às costas e embarcar numa viagem a solo rumo à Ásia. Foi precisamente isso que a impeliu a partir à procura de respostas. À procura de si própria, com aquele filho, de uma relação entretanto terminada, no ventre ainda discreto.
"Havia uma força dentro do meu peito a dizer: ‘Vai.' O pior que me podia acontecer era morrer, mas isso é uma coisa que não podemos evitar". Sofia é uma entre muitas mulheres que decidem rumar sem companhia para fora da fronteira da casa, da língua, da cultura que conhecem. Para este ou para o outro lado do Mundo. Mas são diversas as motivações que as movem.
Vanessa Silva, 39 anos, contrariou a falta de companhia e os receios com um telemóvel com ‘roaming' e uma planificação ao milímetro do roteiro das cidades da Europa que escolhe para visitar. Raramente se atreve a meter conversa com estranhos ou a pedir que lhe tirem fotografias para mais tarde recordar, com medo de ficar sem máquina.
"É como ir ao cinema: vou deixar de ir por não ter ninguém para ir comigo? Não." Paula Cruz aproveitou os contactos feitos enquanto jogadora de pólo aquático da selecção nacional para visitar dezenas de países - um hábito que só a maternidade, há quinze meses, abrandou. Madalena Pedreira descobre-se a cada viagem - "quanto mais longe melhor" - e multiplica os contactos com gente de todo o Mundo que conhece nos sítios onde aterra.
Foi uma pós-graduação na Austrália a primeira janela de oportunidade para viajar: "As viagens eram tão baratas, apanhei voos low cost a cento e poucos euros para sítios onde a vida é muito mais barata, onde conseguia num mês gastar metade daquilo que gasto cá." Findos os estudos, na altura de regressar a casa, a advogada, de 28 anos, resolveu continuar a jornada. "Não tinha trabalho em Portugal, já tinha acabado a pós graduação, tinha mesmo que fazer uma grande viagem."
Arrancou para "um mês no Sudeste Asiático e outro na China" que preocuparam a mãe mas lhe deram a certeza de que "apesar de se viajar a solo só se está sozinha se quiser". Necessário "é ter predisposição para meter conversa: não se pode ter medos, nem ‘ai, se calhar, ele vai-me fazer mal', se não, não se conhece ninguém. Claro que há perigos, nem aconselho ninguém a apanhar um táxi no meio da noite com um estranho. Mas à partida as pessoas estão na mesma onda que nós, para fazer turismo, conhecer pessoas, sair da rotina."
Já se assustou no meio de uma tempesta na Tailândia, "dentro de um barco mínimo, mas nunca" pensou no pior. "O mais que podia acontecer era ter de nadar até à ilha mais próxima, mantenho sempre a calma." Foi também o que fez quando um peixe demasiado picante a fez passar uma noite em claro sem ter ninguém a quem recorrer ou quando um trânsito "de loucos, na Ásia", a deixou várias vezes em perigo de perder o controlo da ‘scooter'. "Estive para morrer para aí cinco vezes de choques frontais, são loucos a guiar, e em estradas de duas faixas andam carroças, bicicletas, famílias inteiras em cima de motos".
MONTANHAS E BARCOS
Grávida, Sofia Guerreiro, hoje com 42 anos, apanhou uma intoxicação alimentar "a caminho das ilhas Phi Phi, na Tailândia, num barco tipo cacilheiro, sem sítio para deitar, com cadeiras duras e desconfortáveis", mas "se fosse para estar no bem-bom tinha ficado em casa". Na Índia, para onde foi dias depois, fez uma viagem não menos difícil rumo "às montanhas, numa estrada cheia de buracos e em autocarros sem amortecedores". Por essa altura conheceu uma sueca a quem confidenciou a gravidez.
"Fui com ela para um ‘ashram', onde tirei o curso de ‘ayurvedica' com homens antigos e vivi em comunidade, sem nunca me hostilizarem por estar grávida. Queria estar num sítio onde confiasse na alimentação e me sentisse mais protegida, estava um bocado triste e perdida e fez-me sentido essa opção."
Já Madalena Pedreira esteve completamente sozinha na China - no Sudeste Asiático, teve a companhia de um amigo com quem combinara encontrar-se a dada altura da viagem.
"A China assustava-me mais, porque é um sítio mais difícil para uma mulher, e não estava propriamente numa época turística: apanhei menos 18 graus na Grande Muralha." Mas vai sem medos. A primeira coisa que faz quando decide uma viagem é "comprar o bilhete de avião para nem sequer ter volta a dar". Também já lhe aconteceu alterar as datas do regresso por "estar a gostar muito". E deitar-se em colchões pouco imaculados, partilhar casa-de-banho com um piso inteiro, perder o passaporte.
Madalena até passou a última véspera de Natal sozinha, no Laos, "num ‘hostel' com imensos bichos" antes de embarcar para a China. "Eu tomei a minha primeira decisão de viajar sozinha porque não tinha companhia, e nem me passa pela cabeça não ir porque ninguém vai comigo, ou ir para o Algarve só para ter gente comigo. Mas habituei-me: agora até tenho dificuldade em imaginar--me a fazer viagens grandes com grupos de amigos".
A actriz Joana Solnado, de 27 anos, gosta de viajar acompanhada mas também não abdica de viagens a solo, pelo facto de "não ter de haver uma negociação sobre como se despende o tempo e pela possibilidade de andar ao sabor da intuição, no timing" que esta pede. A última das jornadas de Joana passou pelo Sudeste Asiático, Austrália e Nova Zelândia - uma viagem de oito meses - mas não foi a primeira vez que embarcou sem companhia. A primeira de todas foi ao Brasil. Tal como Madalena, também Joana considera que viajar sozinha não é estar sozinha: "Há uma maior disponibilidade para fazer amizades, conhece-se imensa gente."
ESQUECER LONDRES
Vanessa, coordenadora gráfica numa consultora, guarda tão más memórias de uma viagem a dois que a muito custo aceitará abdicar da sua condição de viajante solitária. "No passado, fui com um namorado a Londres e foi motivo de discussão: eu queria andar a pé, ele queria andar de autocarro, eu estava cansada, ele cheio de energia, eu queria ir ao museu, ele ao restaurante."
A estadia, que poderia ter sido um idílio romântico, "pareceu uma eternidade, os dias nunca mais acabavam". Hoje, o que mais lhe custa é ouvir pessoas a dizer ‘ai que horror, não arranjas mesmo ninguém para ir contigo?' "Como se se pudesse alugar alguém para uma viagem. As pessoas têm filhos, maridos, namorados. Eu não, é diferente. Tenho que perceber." Lá fora, só não se atreve em incursões nocturnas - janta sempre no hotel.
PRIMEIRA VIAGEM
Fernanda Reis, de 47 anos, contabilista no desemprego, viajou sozinha pela primeira vez de Angola para Portugal depois do 25 de Abril. Tinha 12 anos. Cresceu, viveu com uma pessoa com quem partilhou muitas milhas mas acabou por se separar. "Ou deixava de viajar por estar sozinha, ou continuava." Continuou... e adorou. "A partir daí até se tornou mais interessante: senti um grande sabor de liberdade, sem ter ninguém a dizer ‘não faças, que é perigoso. Vens ou demoras? Está na hora do pequeno-almoço'."
Sofia viajou sozinha pela primeira vez com 20 anos: para acabarem com um namoro que não aprovavam, os pais puseram-na num avião rumo a três países onde tinha familiares. Assim conheceu a Suíça, a França e a Alemanha, que despertaram o gosto por viajar em liberdade. Foi depois do fim de um caminho, como promotora musical em editoras, que escolheu o Oriente para se orientar - a frase de uma das suas mestras - e encetou várias viagens à Índia. O viajado caminho havia de traçar-lhe um novo rumo e fazê-la terapeuta de ayurvedica e sacro-craniana, formadora em medicinas alternativas com o objectivo de ajudar os outros nas dores e sofrimentos.
A Paula Cruz, também de 42 anos, responsável pela comunicação de uma empresa ligada ao desporto, as viagens foram muitas vezes a solo mas para cumprir sonhos de outras pessoas: como da vez em que visitou Roma para ir ao Vaticano e arranjar um terço benzido para a avó. Enquanto Madalena sente-se, mesmo do outro lado do Mundo, "capaz de fazer tudo sozinha menos jantar e almoçar - é uma depressão", para Vanessa "o pior é não ter ninguém no aeroporto ao regressar. Não me importava de continuar a viajar sozinha para o resto da vida mas ter alguém à minha espera quando chego".
AGÊNCIA PREPARA ROTEIROS... EXCLUSIVOS PARA MULHERES
Emmanuelle Afonso, uma luso-descendente de 42 anos, aceitou o desafio da francesa Diane Hua e alinhou num projecto inédito, em 2008, chamado Madame Voyage. Diane escolheu mulheres conhecidas em vários países para serem uma espécie de ‘guia amiga' para mulheres que se deslocam sozinhas em viagens ao estrangeiro. Emmanuelle é a colaboradora portuguesa do projecto - vive em Portugal desde 1992.
"Tanto eu como a Diane viajámos muito em trabalho a dada altura da nossa vida e percebemos a necessidade de ter alguém que nos pudesse guiar pelas cidades aonde íamos em pouco tempo e com um pacote personalizado à nossa medida. Por exemplo, uma mulher que esteja em viagem sozinha e queira ir beber um copo a um bar poderá ser assediada por um homem. A nossa ideia faz com que essa mulher possa ter uma amiga com quem falar sem ser incomodada".
Este projecto - de mulheres para mulheres - propõe oito percursos diferentes (por exemplo, ir às compras) a uma tarifa de 50 euros por hora. Para Portugal têm vindo "mais mulheres de negócios brasileiras; para França, mais americanas; e para a Grécia mais portuguesas". O próximo passo será incluir um serviço de ‘babysitting' para que mulheres sozinhas possam viajar com os filhos.
NOTAS
HOTEL
O Grange City Hotel, em Londres, é exemplo de um hotel exclusivo para mulheres.
CRUZEIRO
Companhia italiana de cruzeiros tem promoção: preço para ‘single' num camarote duplo.
QUEIXA
A maior queixa dos viajantes a solo é que "paga-se mais por um quarto individual" - diz Vanessa Silva.
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