Têm todas mais de 90 anos e falar de como era na juventude é resolver uma equação difícil. Ainda para mais quando se trata de falar de higiene íntima e meios anticoncepcionais.
“Elas são todas umas sisudas”, alertou a senhora Cremilda logo que entrámos no lar de idosos de que é proprietária. A manhã estava de sol, tocámos no número 86, ali da Almirante Reis em Lisboa. Entrámos e fomos encaminhados até uma sala lá ao fundo do corredor onde nada mais se fazia ouvir senão as falas vindas da televisão que passava o habitual programa da manhã. No lar Rosa de Saron era hora de entretenimento. Em redor de uma grande sala, sentadas em sofás longos, estavam cerca de 20 senhoras debruçadas sobre aquilo que a apresentadora de televisão dizia. A nossa presença não foi encarada com grande ânimo. Não ouvimos um bom dia nem vimos o esboçar de um sorriso. Ao mesmo tempo que éramos observados atentamente. “Quem são vocês, o que vieram aqui fazer…diz, diz que nós estamos muito curiosas”, atreve-se a dizer uma delas que com um ‘glamouroso’ sotaque francês, pergunta aquilo que todas as outras estavam mortas por saber mas que não tinham tido coragem de perguntar. A abordagem de Maria Teresa fez soltar gargalhadas; o suficiente para abrir caminho ao diálogo sobre como era ser mulher quando elas tinham vinte e poucos anos.
Luísa Silva já vai com 102 anos. Por isso, recordar a juventude é recuar a 1920. “Ser mulher naquele tempo era muito difícil. Veja lá que nem um cigarro pus alguma vez à boca. Nunca. Então, se os meus irmãos só quando entraram para a tropa é que tiveram permissão para fumar, quanto mais eu que era mulher”, começa por dizer Luísa, bastante lúcida mas visivelmente agastada com a questão do tabaco. De mau, os 102 anos parecem ter-lhe trazido apenas uma ligeira surdez. Pretendíamos falar sobre aspectos do foro íntimo feminino. Isso se Maria Teresa deixasse. “Ah, eu fumei a jogar à canasta. Je fume, a Moçambique. Aquele nervosismo…ah mon Dieu!”. O seu entusiasmo falou sem interrupções até que decidimos perguntar-lhe a idade. “Oh, je honte de le dire” (Oh, tenho vergonha de dizer), afirmou. Mas quem é que pode ter vergonha de ter 92 anos e toda aquela vivacidade.
Apesar de se considerar “muito mais portuguesa”, Maria Teresa nasceu em França. Falemos então de roupas. “Non, non, mini-saias não. Nunca usei, nem quando era nova, porque ficava muito feio”, diz Maria Teresa que divertida começa a contar: “Mas mesmo com saias compridas, quando as senhoras andavam de eléctrico e iam a subir as escadinhas, os homens marotos aproveitavam para ir atrás de nós e ficar a espreitar debaixo das saias. Houve um mais atrevido que até me disse um dia: ‘senhora, deixe-me só ver um bocadinho de perna’ e eu respondi zangada: ‘olha que é preciso ter coragem!’” Calada tinha estado, até então, Antónia Guerreiro Santos de 96 anos. Toda a vida foi modista e teve por esta altura a grande oportunidade de se pronunciar. “Pois, pois, nem pensar em usar mini-saias. Só eram permitidas saias com um palmo abaixo do joelho”, fala quem sabe, aproveitando para relatar uma situação que descreve bem os tempos que se viviam e suscitando muitas gargalhadas: “Eu sempre fui muito discreta, mas um dia fui a um médico e levava um decote maiorzinho. No fim, o doutor disse-me: ‘olhe, veja lá, é se pede à sua mãe que lhe compre um bocadinho de tecido’”.
‘COLLANTS’ E ASSUNTOS DE MELINDRE
A conversa ia embalada e passámos à roupa íntima – aos ‘soutiens’. “Olhe, eu agora uso destes”, apressa-se a dizer Antónia, levantando sem quaisquer pudores a sua camisola e mostrando a todos os presentes o que vestia. “Não posso usar desses mais modernos almofadados e que levantam o peito porque já uso um número muito grande”, afirma. ‘Soutiens’!, exclama Luísa Silva que, finalmente, ouvira qualquer coisa. “Nunca usei ‘soutiens’. Naquela altura, só tínhamos os espartilhos. Oh menina, então se nem sequer havia pasta de dentes e tínhamos que os lavar com um pó cor-de-rosa”, interrompe Antónia.
‘Collants’ foi o tema de debate que se seguiu. “Non, não conhecia isso”, afirmou Maria Teresa juntando-se assim novamente à conversa. “Naquela altura, só havia meias. Depois, tínhamos um cinto para pôr à cintura com uns elásticos e uns fechos que apanhavam as meias. Assim, não caiam”, diz Maria Teresa, cuja explicação é acompanhada por um abanar de cabeça das companheiras em sinal de concordância.
“É preciso notar que até aos 24 anos eu nunca pus um único creme hidratante. Só quando casei é que o meu marido me ofereceu um boião”, atira Luísa como quem acabara de chegar à sala naquele preciso momento. “Agora, ponho o meu creme e ninguém me diz nada. Também não faltava mais nada, senão com esta idade virem chatear-me. Hoje por acaso pus, não sei se se notará?”, acrescenta com alguma vaidade, confessando que os pêlos das pernas era mesmo à ‘gilltte’. “Era o que havia”, afirma, encolhendo os ombros. “Pois e quem tinha bigode, não tinha outro remédio senão ficar com ele”, diz Antónia para quem o aparecimento dos cremes depilatórios foi um tremendo alívio.
O mais difícil da conversa estava, no entanto, ainda por vir: pensos higiénicos e métodos contraceptivos. “Quais pensos higiénicos! Tínhamos que pôr umas toalhinhas de turco dobradas. Quando estavam sujas, lavávamos e voltávamos a usar. Eu pelo menos era assim; as outras, não sei”, atira Antónia sem problemas. “Uma pessoa habitua-se. Amanhã vai haver outra novidade qualquer e os pensos de hoje vão parecer também desconfortáveis”, diz Maria Teresa.
Chegou, então, o momento de melindre. Por duas ou três vezes já tínhamos tentado chegar lá e a reacção era unânime: disfarçar e mudar de assunto. Até que, finalmente... Logo Luísa que aos cento e dois anos confessou: “Eu e o meu marido não usámos método nenhum para evitar uma gravidez. O meu marido bem que queria uma menina, mas não veio menina nem menino, nunca conseguimos ter filhos. Mesmo assim feliz como eu fui, deve haver poucas. Agora, casam-se hoje e separam-se amanhã”, afirma já a tentar fintar o assunto. Muito baixinho, soltou-se uma voz que dizia “mas a única coisa que havia era um gel”. Tão baixinho que só o sotaque afrancesado denunciou Maria Teresa.
EM PROVEITO DAS MULHERES
Os Estados Unidos foram sempre o ‘campeão’ no desenvolvimento dos cosméticos. Por uma razão: a maioria dos produtos de cosmética resultou de descobertas com aplicações diversas. ‘O soutien’ moderno foi inventado por Mary Phelps Jacob, em 1913,com dois lenços e fita cor-de-rosa. Nos anos 30 foi inventado o cai-cai com armações em metal. Surge a forma convexa. Na II Grande Guerra, o Comité da Indústria de Guerra deu um ultimato às conterrâneas – não comprem mais ‘soutiens’! Objectivo: canalizar 28.000 toneladas de metal para fins mais patrióticos que o peito das americanas.
Wallace Hume Carothers (18896/1937) é o pai do nylon. Em 1931, as relações dos Estados Unidos com o Japão estavam tremidas e os norte-americanos procuravam um substituto da seda, o ouro nipónico. Nasce aquilo que seria descrito como ‘forte como aço e fino como uma teia de aranha’. Durante a II Guerra Mundial, o nylon estava presente nos paraquedas dos soldados americanos e nos ‘collants’ que estes ofereciam às inglesas. Hoje em dia, o nylon está presente em quase todo o vestuário moderno, nomeadamente o biquíni (1946) símbolo da libertação de costumes.
Os tampões apareceram nos anos 20/30 do século passado, nos Estados Unidos. O primeiro foi comercializado pela Tampax em 1936. As empresas Johnson & Johnson (Modess), Kimberly-Clark (Kotex), nos Estados Unidos, e Paul Hartmann (Mulpa, WWs, etc), na Alemanha, foram as primeiras a comercializar pensos higiénicos. Uma espécie de ‘escudo’ protector preso com fitas nas ancas, como umas cuecas. No final do século XIX, anúncios propagandeavam aquilo que mais se assemelhava a auxiliares dos dias difíceis – suspensórios.
A REVOLUÇÃO DOS CONTRACEPTIVOS
O método do calendário foi descoberto em 1928 pelo cientista austríaco Hermann Knauss e pelo japonês Kyusaku Ogino, em 1930. A versão actual do DIU (Dispositivo Intra-uterino) é de Ritcher, mais tarde aperfeiçoada por Lippes, e bastante popular na década de 60.
O cirurgião Fue Sharp, em 1930, ligou o seu nome à primeira vasectomia. A pílula anticonceptiva foi aprovada em 1960, era a Anovlar, dos laboratórios Schering. Em 1973, os laboratórios Pfizer lançaram a injecção anticonceptiva e em 1974, Albert Juzpe descobre um ‘sistema de urgência’ mas a pílula do dia seguinte só começará a ser comercializada a nível mundial no final da década de 90. Em 1983, chega a esponja vaginal e o implante subcutâneo. Em 1992, o preservativo feminino. Este ano, a inovação ao serviço da mulher – neste, caso da contracepção – concebeu o penso epidérmico e a pílula anticonceptiva, já comercializada nos Estados Unidos, que induz o organismo a apenas quatro ciclos menstruais, com um índice de eficácia de 99,7 por cento e os inconvenientes de todas as suas ‘parentes’, sem ainda se saber que a ministração prolongada de hormonas (toma-se quatro meses descansa-se uma semana) é prejudicial.
Depois da invenção da pílula em 1960, que acompanhou e incentivo a liberalização dos costumes femininos de vida em sociedade, a pílula dos quatro períodos menstruais é já considerada como a nova revolução. Ludibria a natureza, ao abolir com parte das regras acaba com grande parte das dores menstruais de que sofrem algumas mulheres, mas já está a criar algum frenesim no mercado mundial da higiene feminina íntima que move 2.000 milhões de euros por ano, dos quais 1.200 provêm só de empresas. A revolução da pílula pode trazer muito prejuízo.
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