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Negócios de trazer por casa

Pequenas ‘empresas virtuais’ permitem equilibrar as contas das famílias ao final do mês e estão a crescer em Portugal

11 de novembro de 2012 às 15:01

Há uma geração de novos empresários que, para não andarem à rasca, se desenrascam em pequenos negócios domésticos. São ideias desenvolvidas fora do horário de expediente da profissão ‘normal’ que começam por servir para equilibrar o orçamento familiar e, às vezes, transformam-se em ocupação principal. Negócios como o de Ana Custódio que, de uma máquina de costura emprestada, fez nascer uns tais de Mimalhos, bonecos que já dão que falar em meio País, e a ajudam a sustentar os quatro filhos.

Ana Custódio, 35 anos, estudou Engenharia Electromecânica e Electrotécnica, saltou de universidade em universidade, mas não acabou o curso. Mudou-se de Lisboa para Budens, no Algarve, onde os ares lhe prometiam, acima de tudo, felicidade. Por lá, trabalhou no turismo, recebendo gente dos quatro cantos do Mundo. Casou, e os filhos foram vindo, a bom ritmo. São já quatro, dois rapazes e duas raparigas, a conta da perfeição. Mas veio também o desemprego e, com ele, uma certeza: "Mãe de quatro não pode vacilar."

"Comecei por fazer umas peças pequenas, com uma máquina emprestada, para oferecer quando havia um aniversário, ou no Natal, e poupar em prendas", diz. Depois, as vizinhas e amigas fizeram encomendas, e o valor que entrava foi fazendo diferença. "No primeiro mês que consegui ganhar o suficiente para pagar a conta da luz, água e internet cá de casa, fiquei muito feliz. Percebi que se me esforçasse por divulgar e trabalhar mais a sério, podia ter um rendimento que ajudasse no orçamento familiar", conta Ana.

Os Mimalhos são as estrelas do negócio Miminhos da Mãe de Todos, que vive na internet (www.facebook.com/miminhosdamaedetodos). São bonecos de pano elaborados a partir dos desenhos feitos pelas crianças a quem se destinam. Podem ter cinco pernas e um olho. Ou muitas mãos para agarrar. Não há limites quando a máquina de costura de Ana cose ao ritmo da imaginação. A maioria dos pedidos vem de particulares, mas até instituições ligadas à infância já lhe fizeram encomendas.

O volume de negócio é difícil de contabilizar: "Às vezes não conto as despesas. Sei que já faz a diferença cá em casa, mas ainda está abaixo do ordenado mínimo". Ana acumula os seus ‘miminhos’ com um part-time ligado ao turismo.

Francisco Silva é free-lancer na área da comunicação. Divorciado, 55 anos, duas filhas. Quando viu o trabalho escassear, passou em revista os seus talentos. Tinha formação como instrutor de condução e percebeu que a solução poderia passar por fazer uma coisa que lhe é "natural": conduzir. Pôs anúncio no OLX para aulas de condução privadas, e o telemóvel, único contacto desta sua empresa individual, lá vai tocando . Leva 15 euros por aula. "Há sempre gente encartada com medo de conduzir. Neste momento, todo o dinheiro faz falta, mesmo não sendo significativo, como é o caso", garante.

Noémia Coelho tem 30 anos e dois filhos. É professora de Inglês e Alemão, mas há sete anos que não tem colocação. Estava grávida do primeiro filho e desempregada pela primeira vez quando foi recuperando em casa, na Torreira, Aveiro, antigos esquemas de ponto cruz aprendidos na adolescência, que lhe permitiram personalizar o enxoval do bebé. Há dois anos, por incentivo das amigas, abriu uma loja virtual de crochés e bordados à boa maneira dos nossos avós (http://www.facebook.com/pxnoemia), que dá pelo nome de Pontinhos & Cruzinhas da Noémia.

As encomendas permitiram-lhe contribuir para as "despesas normais da casa", apesar de não ter uma receita estável: "O período do Natal é sempre bom, os meses que se seguem não".

Noémia voltou recentemente ao ensino, num ATL, mas nem por isso deixou a sua empresa votada ao esquecimento: "Mesmo que conseguisse colocação, seria sempre juntar o útil ao agradável. Gosto, dá um dinheiro extra e ajuda-me a descomprimir. Já não conseguia manter-me longe das linhas e agulhas", confessa.

A casa de Cláudia Afonso, no Carregado, está cheia de tintas, tecidos, papéis e os mais variados artigos de artesanato: caixas de chá, de recordações, molduras, mealheiros e placas de porta em madeira, pintadas à mão com tinta acrílica e decoradas com aplicações várias.

A professora de Matemática e Ciências da Natureza de 29 anos, que este ano ficou de fora do quadro das colocações, é autodidacta com talento descoberto por acaso, quando quis personalizar a decoração do quarto da filha. Ouviu elogios e resolveu continuar: "Apesar da crise, ainda há pessoas que gostam de ter ou oferecer algo diferente". O que ganha tem sido sobretudo investido em materiais. Para divulgar os seus trabalhos usa a internet (www.facebook.com/babux.art) e os contactos pessoais. Trabalha maioritariamente com encomendas, "porque os materiais são caros e os clientes gostam de escolher os pormenores".

Já Sandra Pinto delirava como uma miúda grande quando via a cara dos miúdos de verdade perante um bolo de aniversário decorado com os seus bonecos favoritos. Tudo o que é possível imaginar, Sandra consegue moldar em maçapão, com precisão e detalhe. Basta-lhe uma foto para se inspirar. Ao mesmo ritmo que Mariana e Gonçalo, de nove e três anos, foram apagando as velas, Sandra foi-se tornando quase uma profissional do design de bolos. Quase porque, na realidade, Sandra é técnica de análises clínicas na Unidade Local de Saúde do Nordeste em Bragança. Faz turnos e horários nocturnos e, às vezes, ao chegar a casa, ainda vai moldar bonecos de maçapão, com os quais dá vida ao projecto LambuzArte (www.facebook.com/Lambuzarte). O negócio começou em 20 de Setembro último e, num mês e meio, já lá vão nove encomendas e 350 euros de facturação.

"Começaram a dizer-me que eu era um talento escondido. Ainda fiquei de pé atrás, pois a minha profissão ocupa-me muitas horas; mas a minha irmã foi mais além e criou a página da ‘loja’", confessa. Agora é deitar mãos à obra e, quiçá, pensar no futuro: "Adoro fazer isto! As horas passam a correr e é uma satisfação ver o trabalho completo e a reacção das pessoas. Um dia gostava de ter uma linda pastelaria… daquelas tipo conto de fadas", idealiza a analista de 36 anos.

SEGUNDAS OPORTUNIDADES

A Pega-Rabuda foi nascendo aos poucos, do gosto por tudo aquilo que é feito à mão. Um dia, Rute Gil, de 34 anos, guionista free-lancer, comprou uma máquina de costura e pôs-se a fazer coisas tal como gostava: "Aprendi o nome das fitas, dos pontos, escolhi tecidos e aventurei-me. Foram seis meses de aprendizagem, antes de tornar a minha marca pública, com muitos receios, mas uma certeza: algo que é feito propositadamente para uma pessoa tem mais valor. Isso dá-me um enorme prazer e realização".

Foi depois da desilusão com o mercado de trabalho que ponderou lançar-se no negócio: "Numa entrevista de emprego, percebi que a minha experiência profissional, o meu currículo e a minha especialização não valiam nada. As condições oferecidas eram tão precárias que eu quase pagava para ir trabalhar."

Tinha as noções básicas de gestão de uma marca, de internet, redes sociais e arriscou. Certo é que dá para pagar as contas essenciais, os impostos e a segurança social. "Como sempre trabalhei a recibos verdes, já estou habituada", garante. O dia começa cedo, depois de deixar os filhos na escola, e só termina depois da noite chegar. " Mas com disciplina, permite-me fazer pausas para ir à praia ver o mar, cuidar do jardim, para ir às festas da escola." Algo que, nos dias de hoje, também não tem preço.

O futuro da Pega-Rabuda quer-se em voos para lá da rede (www.facebook.com/apegarabuda) e passa pela "presença em lojas que promovam, além-fronteiras, os produtos nacionais como as lãs, a chita, as rendas e os bordados, além de um espaço para trabalhar com crianças em workshops à sua medida".

Voos como aquele que Miguel Prata, criador de Sushi em Tua Casa, já alcançou. Dantes, tinha uma empresa de representações ligada ao sector têxtil, que acabou por dificuldades de cobrança aos clientes. O sushi surgiu primeiro por hobbie, que depois passou a part-time e que hoje já é a sua ocupação a tempo inteiro.

"Aprender o método não foi propriamente fácil, mas depois disso, só necessitei de aperfeiçoar o sabor e o ponto do arroz e ligar os diversos ingredientes. Aprendi sozinho, com muita paciência", relata. E também graças à família e amigos, que tantas vezes serviram de tubo de ensaio, quando começaram a convidá-lo para fazer sushi nas suas casas. Depois, foi só tornar o seu gosto visível aos olhos de todos, com a abertura da ‘loja’ na internet (www.sushiemtuacasa.com), a operar no Grande Porto.

Miguel, 39 anos, prepara-se agora para formar uma equipa nas diversas vertentes para franchisar a marca Sushi em Tua Casa. O negócio paga-lhe todas as contas e ainda as dívidas deixadas pela antiga empresa. Em breve, irá expandir-se para outras cidades. "Num momento de crise profunda, o empenho e dedicação que tenho dado permite-me ver o futuro de forma positiva. Importante é não desistir. Às vezes é preciso bater bem no fundo, como me aconteceu a mim, para sentir que, ao menos aí, existe um chão onde podemos fixar bem os pés, para nos impulsionarmos para cima".

ALEXANDRA TRABALHA NUM ESCRITÓRIO ONDE FLORESCEM EMPREENDEDORES

A magia do projecto Aladina - Receitas da Génio não vem em lâmpadas, mas sim em pequenos boiões de vidro que, com muito génio e algum aprumo estético, trazem os ingredientes sólidos (e uma receita ao lado) que permitem a qualquer um fazer delícias como arroz-doce, bolo de aveia com noz, muffins de chocolate e amêndoa ou bombons de chocolate com especiarias de forma quase instantânea.

Em casa, o cliente só precisa de misturar a parte líquida, levar ao lume ou ao forno, e o resultado está pronto para ir para a mesa. "Seduziu-me esta ideia talvez porque se destina a pessoas como eu, que têm pouco tempo ou que não gostam de perdê-lo na cozinha", declara Alexandra Capelo, que tem um bacharelato em Artes Gráficas, licenciatura em Publicidade e actualmente trabalha numa empresa de comunicação em Lisboa. Também é doceira, nas horas vagas.

O mote surgiu quando andava a "passear" na internet e viu um vídeo sobre este tipo de oferenda, comum nos EUA, quando se quer dar as boas-vindas a um novo vizinho. "Mas implica alguma experimentação, porque é preciso testar as receitas e verificar se funcionam mesmo com os ingredientes todos juntos; mas sobretudo são muitas horas de trabalho de marketing, de pensar em estratégias de comunicação", revela. Alexandra, 40 anos, tem dois filhos pequenos e uma profissão a tempo inteiro que, às vezes, se prolonga a desoras. O tempo para a ‘Aladina’ é roubado "à única coisa que pode ser roubada": o sono.

Num mês "mau", pode facturar 50 euros, num mês bom, a caixa pode registar até 500 euros. O negócio abriu em 1 de Março de 2011 (em http://www.facebook.com/receitasaladina/info) e logo nesse dia enviou a sua primeira encomenda. Entretanto, já assegurou mais de mil. O dinheiro é gasto em reinvestimento ou nas "coisas do quotidiano" de uma família.

No escritório onde Alexandra trabalha, outros cinco pequenos negócios próprios já floresceram, em áreas diferentes daquelas que as suas mentoras laboram todos os dias: Graça Martins dá ao dedal para miúdos e graúdos no projecto Baínha de Copas; Susana Albiero cria bonecos originais com o condão de afastar os medos em O Meu Monstrinho; Nini Cunha Rego é a ‘account’ da empresa, mas também a criadora de peças de decoração do Estado d’Graça; Sofia Martins juntou-se a um ilustrador para fazer um estúdio (Studio Fera), que já faz os tecidos que Graça costura; Margarida Gonçalves assina os acessórios femininos da Be With Me. Gente que se dá ao trabalho depois do trabalho, por puro prazer e algum dinheiro extra.

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