Não basta ser carpinteiro. É preciso uma percepção que só o tempo ensina. Miguel analisa e restaura as ruínas de uma actividade em extinção. Faz do vento, arte. E dos velhos moinhos, um renovado refúgio ao alcance das bolsas mais desafogadas.
A tradição pode não resistir de pedra e cal, mas o 'dom' não voa com o vento. Mantém-se desde os oito anos, quando Miguel Nobre, neto de moleiro, construiu o primeiro mastro de moinho com uma simples cana. O sorriso desmente que o engenho se estude nos livros. 'É complicado...temos uma percepção'. A percepção estava longe, muito longe, de pensar que ao meio século de vida do dono estaria ao serviço de uma Arte ao Vento, empresa de restauro de moinhos (ver caixa).
'Fazia restauros como hóbi. Os trabalhos começaram a correr tão bem que o hóbi se transformou num trabalho a tempo inteiro'. Miguel, criado em Vilar, numa paisagem de moinhos de vento, lançou-se na carpintaria aos 13 anos. Cedo lhe reconheceram a vocação. 'O rapazinho tem jeito para os moinhos'. O rapazinho cresceu. E o jeito também. Hoje, um indício mínimo chega para radiografar o objecto de intervenção. 'Para chegar à engrenagem, para saber a potência que tenho que dar. Ninguém me transmitiu nada. Já os antigos assim trabalhavam'.
Miguel corre o País e as suas azenhas, mas é na região do Oeste, 'onde há mais moinhos' e 'técnica apurada de construção', que o restauro é mais requisitado. Com ele trabalham aprendizes. Dois, não mais, que chegam e sobram para as encomendas. 'Perguntam-me porque não dou formação. Os jovens não ligam a isto. Se não têm interesse pela escola como podem ter interesse em agarrar isto?'. Ainda para mais, a actividade, quase extinta, pede traquejo com números, calcanhar de Aquiles de muito bom estudante. 'É preciso fazer cálculos, como há cem ou duzentos anos. Usamos máquinas para o serviço das serras, mas o trabalho é todo artesanal'.
O mestre que o 'empurrou' para esta arte já não dá corda ao ofício. A idade levou-lhe o corpo. O tempo quase lhe levou a alma, que deixou herança incipiente. 'De vez em quando aparece um ou outro carpinteiro curioso, mas não são trabalhos que respeitem a traça original'. Trata os ventos por ‘tu’. Conhece a traça com o anatómico rigor de um cirurgião. Segue uma linhagem digna dos grandes, como João de Deus, referência para Miguel Nobre. O resto é faro. Também para o negócio.
O preço de um restauro depende, claro, do estado da ruína. 'Estou a tratar de um moinho para a câmara de Peniche e o orçamento foi cem mil euros, mas pode ficar por 50 mil ou 25 mil'. Em 2007, Miguel Nobre finalizou a recuperação do Moinho de Aviz, em Montejunto, disponível para venda. As portas do 'maior moinho do País' podem abrir-se a quem desembolsar 350 mil euros.
UMA EMPRESA AO SERVIÇO DO VENTO
Miguel Nobre ainda conta com cinco moleiros no activo, a quem a Arte ao Vento presta assistência. Está a restaurar um moinho em Peniche. Tem 15 projectos concluídos e o Moinho de Madeira, em Fátima, em carteira. A empresa, com cinco anos de actividade, veio responder ao aumento das solicitações. Com perícia e amor, promete um trabalho de continuação do traço de épocas idas, seja para autarquias ou para particulares. Não falta quem aposte num moinho para turismo ou casa de férias. Miguel recorda as primeiras ruínas que comprou: 'Vendia-as por vinte mil contos'. Investiu o valor num carro novo e em ferramentas adequadas ao trabalho'. Ainda hoje adquire ruínas para as recuperar e vender. Custam cerca de 15 mil euros. 'Agora está inflacionado'. O ano passado fez um restauro na zona de Óbidos para um emigrante português no Canadá. 'Queria manter o seu moinho original e com história. Veio à minha procura'.
QUESTIONÁRIO
Um País... Grécia
Uma pessoa... João de Deus
Um livro... livros técnicos sobre engenharia e mecânica
Uma música... _Dulce Pontes, Rui Veloso _e Madredeus
Um filme... O Costa _do Castelo
Um clube... Sporting
Um prato... Peixe grelhado
Um lema... Depressa e bem não há quem
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