Viver do lixo, por necessidade, custa o preço da vergonha. Em Lisboa, há pessoas que não podem, sequer, pagar por um pão. Só vão aos supermercados quando já fecharam. Aos caixotes.
Para uns, procurar matar a fome passa pelo que a outros faria perder o apetite. A mais pobre de todas as formas é saciar a fome com lixo.
Cabelo lânguido, barba desfeita. Pedro (nome fictício) lança os olhos, escondido no estacionamento de uma rua de S. Bento, em Lisboa. Fecha o supermercado e, meia hora depois, uns números de porta abaixo, ouvem-se vozes, abre-se o portão do armazém e um funcionário deposita na rua dois contentores de lixo. São 22h30. Ele espera mais um pouco para dar tempo que todos saiam. As mãos mexem e remexem os sacos pretos. Pelos vistos, só ele sabe que ali há carne: hoje, cuvetes com bifanas (3,50 euros), hambúrgueres de pato (2,99). E mais carne picada... 'Como tenho vergonha de pedir na rua e, como conheço bem Lisboa, vou encontrando um iogurte aqui, carne ali...' – confessa.
Com o passar do tempo, deixou de enrolar o estômago só de pensar no que iria comer e onde procurar. Quem o vê, acerta na sua idade se lhe der 40 anos, no máximo. Desempregado, divorciado, perdeu a casa, o carro, o conforto. Por ironia, chegou a ser subgerente de um supermercado, nas grandes cadeias, tal como os que procura agora, sem dinheiro algum. Tudo entrou no abismo de repente. Não explica a razão. Mas não precisa, apesar de continuar a ser um idealista. Pedro quer ver a exposição do arquitecto Miguel Ventura Terra, na Assembleia da República. Aponta em Lisboa praticamente todos os prémios Valmor. É tema que esmiuça com todas as palavras que, desde há cinco meses, não desperdiçou com muita gente.
Ao final da tarde sai de casa (herança da avó, ainda indivisa), anda mais de um quilómetro até ao Instituto Português da Juventude, da avenida da Liberdade, para meia hora de internet grátis. Procura saudosistas da primeira geração de computadores: Timex, Spectrum, Atari, Commodore, Amstrad. Faz mais uma incursão por sites de arquitectura. E, entre as 19h30 e as 20h00, sai para procurar carne, fruta e legumes nos caixotes de lixo orgânico de um supermercado na Álvares Cabral – os contentores têm fechadura, mas nada que não se contorne. Sobe às Amoreiras, uma hora mais tarde, encontra lá fruta e legumes, no caso de ainda não ter o suficiente. Regressa à Álvares Cabral, ao fecho de loja, para mergulhar no resto do lixo.
Noutros dias, cinco imigrantes de Leste (trabalhadores na construção civil) repartem com ele aqueles quatro caixotes. Hoje, não. Embora a abundância transbordasse para todos. Vão mesmo sobrar ‘packs’ de iogurtes da vintena ali caída – líquidos (2,09 euros), sólidos (2,04) e até com cálcio extra para os miúdos crescerem (3,33). A validade está no dia-limite. Encontrou também biscoitos (0,99). Outras vezes, há queijo, sumos, pão. 'E bocados de bife ou de fiambre, mas costumo dar aos gatos. É que aqui tiram a carne das cuvetes, para não deixar o selo da loja, e misturam-na com outro lixo.' Neste corrupio há uma regra: não deixar nada no chão. Para terminar, Pedro assiste ao fecho do Centro Comercial das Amoreiras, à espera de encontrar os jornais do dia.
'Há quatro meses que, praticamente, não compro nada para comer. Consigo fazer uma cadeia de abastecimento', conta. Pedro não sai de casa sem os sacos que espera trazer de volta cheios. 'Também já tem acontecido passar e encontrar ténis. Tenho alguns 8-9 pares, todos de marca, e novos!' Calçados traz uns Reebok pretos, perfeitos, que custariam pouco mais de 50 euros. Só que nem tudo é tão simples como descrito. Há vergonha e só não há plena solidão na vida de Pedro porque tem a companhia de uma cadelinha.
ESCONDIDA NO CHAPÉU-PANAMÁ
No recanto da entrada de um prédio contíguo ao supermercado da Alameda, rua Carlos Mardel, esconde-se, voltada para a parede, uma mulher de calças pretas, t-shirt amarela e chapéu-panamá preto na cabeça. Tem um saco ao ombro.
Às 21h40, dez minutos depois do fecho da loja, a mulher calça luvas verdes de borracha. Ouvem-se os rodados dos caixotes a serem transportados para a rua. A expectativa é partilhada por dois imigrantes do Leste (irritados com a presença de jornalistas). E por Vítor. Só falta a D. Maria, para fazer a conta habitual.
A mulher, de 60 anos, escusa conversas, a não ser uma explicação (menos) envergonhada: 'é para dar a animais e pessoas conhecidas...' Vítor, 44 anos, sobrepõe-se ao silêncio deixado. 'Levo para comer, porque o pão é bom. É do dia!'
São oito caixotes do lixo, mas os quatro concentram-se num ou dois de cada vez, como crianças, sempre curiosos por saber o que as mãos de uns e outros vão agarrando à sorte. Alheios a tudo, a empregada ralha: 'não quero nada aí no chão. Ai, ai, ai. Senão, amanhã não está aí nada.'
Amanhã? Vítor agarra em pão e numa cuvete com fatias de pizza, ambos molhados. 'Cheira a lixívia' – afirma, indignado – 'é inadmissível que estraguem a comida com lixívia. Eles abrem os iogurtes e os pacotes de leite e estragam tudo', acusa. 'Venho aqui porque tenho necessidade!' Mais calmo, conta que chega a encontrar embalagens com frango e leitão assados. Até cervejas e sumos. Hoje, nada.
'O PATRÃO DA OBRA DEIXOU DE PAGAR EM OUTUBRO'
'Vou trabalhar'. Edouard Ion, engenheiro moldavo de 46 anos, corre na direcção dos restos de um Pingo Doce de Portimão. A competição pelos despojos do dia é feroz. É trabalho duro, o único que dá comida a Edouard, que está desempregado. Nesse dia faz o baptismo do compatriota Andrei Pisarenco que, pela primeira vez, vai aos caixotes. Arquitecto de formação e ladrilhador na construção civil em Portugal há dez anos, Andrei está na rua há um mês. 'O patrão da obra deixou de pagar em Outubro.' Andrei, 40 anos, é um produto da actual crise económica.
Ana Linhares, directora da Unidade de Desenvolvimento Social do Centro Distrital de Faro do Instituto da Segurança Social, confirma que há mais imigrantes do Leste na mendicidade no Algarve. Sobre o fenómeno da corrida ao lixo, afirma ser 'uma população que não conseguimos caracterizar'. Quando os técnicos vão aos locais, 'a maioria recusa ajuda e desaparece', por receio da ordem de expulsão para o país de origem.
Stepan Kostuik está num Pingo Doce, em Faro. Este ucraniano perdeu o emprego como cortador de lenha. A maioria das superfícies adoptou contentores selados. Encontrar alimento passou a não ser fácil para Stepan.
"NÃO COMPRAR PODE TER DUAS EXPLICAÇÕES"
Nos EUA existem ‘Dumpdivers’ ou ‘Freegans’ (em Portugal são ‘Mergulhadores de Lixo’) que, por opção, não compram produtos alimentares (nem mobília ou roupas) por preferirem recolhê-los do lixo. Fazem-no por questões de consciência. Contudo, no nosso País, a maioria das pessoas recorre aos contentores por necessidade extrema. Muitos supermercados por cá usam contentores, com cadeado, para depositarem alimentos perecíveis (com prazo de validade limitado), como carne e peixe cozinhados, bolos com creme, iogurtes e lacticínios. Os restantes, como o pão, legumes e fruta, são depositados em caixotes comuns. Há lojas que chegam a regar o lixo com lixívia para afugentarem estas pessoas.
APENAS 15 CÊNTIMOS
Em Lisboa uma carcaça custa 15 cêntimos. No Litoral Norte paga-se menos três vezes. Conseguir, pelo menos, uma refeição quente por dia exige, no mínimo, água e legumes para uma sopa. Obrigando a pagar a conta do gás. O alho-francês, por exemplo, custa 1,29 o quilo. Durante a reportagem, recolhemos os preços dos alimentos encontrados no lixo.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.