Criar fragrâncias em nome próprio ou marcas brancas com cheiro de... são novas tendências num negócio que não conhece crise.
E quando se esperava que nada mais surpreendesse no inebriante mundo dos perfumes, eis que surgem novas tendências: perfumes customizados e fragrâncias brancas. São estas as notas que alimentam uma das indústrias mais poderosas do Mundo. Quem pode manda criar perfume em nome próprio, ‘com aroma' de Jennifer Lopez, Beyoncé, David Beckham ou Lady Gaga. Os outros compram um cheiro parecido com...
Em elaboradas fábricas na França, Suíça, Inglaterra, Alemanha e no Japão as marcas luxuosas encomendam as suas fragrâncias. E o grupo francês L'Oréal lidera o setor, com vendas a ascenderam aos 21 mil milhões de dólares (valores de 2011) e criação de perfumes para as casas internacionais Armani, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Paloma Picasso e Cacharel. Por cá, o mercado é bem mais modesto, mas começa a dar pequenos passos.
Lourenço Lucena é o único português inscrito na Sociedade Francesa de Perfumistas e aderiu à profissão quando quis criar um perfume para a marca EDP. Responsável pelo lançamento em Portugal do ‘sensorial branding', conceito que apela a todos os sentidos para expressar uma marca, somou à carreira profissional e académica na área do design e da comunicação um curso de perfumista na prestigiada escola francesa Cinquième Sens. Com escritórios em Lisboa e Maputo, criou perfumes para a Carris, Hotéis Tivoli, para os 20 anos de carreira do cantor moçambicano Stweart Sucuma e o original ‘Casa Comigo Lisboa', alusivo aos casamentos de Santo António. A eau de toilette unissexo foi desenvolvida a partir de três elementos: o Tejo e a ligação do rio à cidade; o casamento (através do aroma de madeiras, que reporta às árvores como tronco e fundamento de relações); e o toque primaveril dos florais, que alude à luz de Lisboa.
"O desafio para um perfumista", diz Lourenço Lucena, "é conhecer e ter na sua memória olfativa o maior número de matérias-primas, de referências, para quando for necessário desenvolver uma composição saber com que notas jogar. E encontrar matérias-primas que não sejam óbvias. O que é difícil, mas divertido". Lourenço Lucena, que se assume "apologista do inusitado", lembra anos "criativos", em que surgiram "fragrâncias com aroma a cacau, ou os inovadores, com toque de borracha queimada".
Criar um perfume personalizado "nunca é fácil", e exige um enorme dispêndio de tempo. "Um perfume deve ser o espelho de quem o usa e escolhido em função de um enorme conjunto de variáveis. Obriga a conhecer profundamente a pessoa, saber o que faz, o que quer, o que pensa." Por essa razão, fala pouco desta atividade e conta no currículo com duas criações para anónimos: "Para uma executiva e para uma amiga sua."
AROMAS A PEDIDO
É também essa a razão que leva Vera Mata e Paula Gomes a trabalharem apenas para empresas. Donas da única fábrica de perfumes portuguesa, a i-Sensis, em São João da Madeira, faturaram em 2012 cerca de 500 mil euros a fabricar "perfumes a pedido".
"Optámos por não ter marca própria e fazemos desenvolvimento. É isso que nos motiva e entusiasma. Propomos ideias novas aos clientes e só trabalhamos com empresas, pois os pedidos de particulares não têm expressão", nota Vera Mata.
A entrada no fascinante mundo das fragrâncias deu-se a pedido de um professor, que propôs "um estudo relacionado com as bases científicas em que se baseia o perfume". Vera Mata e Paula Gomes adaptaram-se. Somaram ao saber da química um curso de perfumistas em Inglaterra. Visitas a Grasse, a capital do perfume na Provença, e um curso online de uma marca francesa acrescentaram saber.
Por o mercado português ser pequeno, a i-Sensis - que criou o perfume ‘Amor Perfeito' para José António Tenente, entre outras marcas nacionais - está a trabalhar para Holanda, França, Moçambique e Angola e a apresentar propostas para Rússia e Áustria. Na fábrica laboram seis pessoas. Quando os pedidos ganham dimensão, a i-Sensis "tem um circuito de subcontratações e parcerias com empresas nacionais e estrangeiras". As matérias-primas são adquiridas nas melhores casas europeias, mas a "produção da essência é sempre feita em Portugal", frisa Vera Mata.
Criar uma fragrância tem paralelismo à criação musical, desde a inspiração à conjugação das notas para chegar à harmonia final. "Demora pelo menos três meses. Há um briefing, em que o cliente nos faz um pedido subjetivo. Depois, estudamos bem a marca para encontrar nas centenas de matérias-primas de que temos conhecimento e em stock as que melhor se adaptam; e ao conhecermos a sensação que essas matérias-primas produzem em quem as vai usar, estudamos para transmitir o que o cliente quer numa mistura agradável, que espelhe essa marca ou personalidade", adianta Vera Mata.
LUXO A PREÇO BAIXO
No entanto, nem tudo são rosas nesta indústria. Porque o perfume é um símbolo de estatuto e distinção, as criações únicas de perfumistas, artesãos e fábricas de renome sobrevivem graças a políticas de secretismo, que as protegem do crescimento das marcas brancas.
Armindo Martins é o ‘master' para Portugal da marca espanhola Equivalenza, segmento que cresce a olhos vistos no nosso país, onde já funcionam 65 lojas. "Vendemos fragrâncias equivalentes às das grandes marcas. Por uma questão legal, não mencionamos nas lojas as marcas, o cliente é que pede o que gosta e damos uma equivalência", frisa.
Os produtos da Equivalenza são comprados aos mesmos fornecedores das marcas de luxo e o perfumista Ramon Béjart dá a nota final. No mês de maio, as lojas portuguesas compraram à Equivalenza cerca de 500 mil euros em produtos. "Esse valor, a vender, poderá ser triplicado", avança Armindo Martins.
Tal negócio só é possível porque "a indústria de perfumaria é a única indústria criativa que não é passível de registo de patentes", explica Lourenço Lucena. "Daí que um perfume de renome seja ‘copiável', pois é possível aferir 95% das matérias-primas". Ainda assim, "a diferença salta à vista. As imitações têm muito mais água e o cheiro dura menos".
NO SEGREDO DAS MONTANHAS DA SUÍÇA
Duas empresas escondidas nas montanhas da Suíça dominam 40 por cento do mercado mundial de aromas e perfumes. Givaudan e Firmenich foram fundadas em Genebra, em finais do século XIX, e enquanto a primeira se expandiu na bolsa, a segunda mantém-se como empresa familiar. Em 2011, ambas registaram vendas superiores a quatro mil milhões de euros devido a uma fórmula de sucesso: recrutam cientistas premiados e aplicam os lucros em avançados centros de investigação. A trabalharem em parceria com universidades locais, as duas empresas apostam no desenvolvimento de moléculas e aromas e sabores químicos. Os aromas são o negócio principal da Givaudan, que cria em laboratório cheiro de chocolate, frutas tropicais e café para o setor alimentar, farmacêutico e de cosmética. Já a Firmenich, destaca-se nos sabores, desde que em 1938 criou substitutos da amora, limão e do morango. No ano seguinte, o diretor de pesquisa Lavoslav Ružicka recebeu o prémio Nobel da Química. Criam perfumes para Givenchy, Dior, Hugo Boss e Calvin Klein, entre outros.
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