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Nove séculos de sangue, suor e lágrimas

Pela primeira vez, a História Naval de Portugal foi reunida num único volume. A Marinha edita a obra de José António Pereira

31 de outubro de 2010 às 00:00

Foi ainda nos tempos do Condado Portucalense que se registou o primeiro combate naval de que há memória registada na História de Portugal. Em 1121, as barcas armadas da regente do condado, D. Teresa, enfrentaram no rio Minho a frota das forças leais à sua irmã, D. Urraca, regente da Galiza.

Começa aqui a narrativa do livro ‘Marinha Portuguesa Nove Séculos de História’, da autoria do capitão-de-mar-e-guerra José António Pereira. O volume de mais de 600 páginas, editado pela Marinha Portuguesa, é o primeiro a traçar uma história dos feitos marítimos portugueses, desde o início da Nacionalidade até aos tempos actuais.

A PRIMEIRA BATALHA

Afonso Henriques, filho de D. Teresa e fundador do reino de Portugal, alargou pela espada o território nacional ao longo de todo o seu reinado. A tomada de Lisboa em 1147 dá ao País o seu primeiro grande porto marítimo, mas a guerra com os muçulmanos estava longe de acabar. Em 1179, o almirante mouro Gamin Bem Maradins ataca Lisboa e segue para norte, onde a sua frota conhece forte oposição das tropas comandadas por D. Fuas Roupinho. O contra-ataque surge meses depois e culmina com a grande batalha naval da História. Em 1180, a armada comandada por D. Fuas Roupinho desbarata os navios muçulmanos ao largo de Lisboa, naquela que ficou conhecida como a Batalha do Cabo Espichel.

É destes e muitos outros episódios de guerra, exploração marítima e comércio que se compõe o livro de José António Pereira, um trabalho de investigação que demorou sete anos a estar concluído: "A ideia surgiu em 2003, por iniciativa do então chefe do Estado-Maior da Armada, Francisco Vidal Abreu. Constatou-se que não havia nenhum texto que compilasse toda a história da Marinha e eu, que já tinha preparado um breve resumo de 30 páginas que usei nalgumas palestras que dei na Escola Naval, voluntariei-me para essa missão", conta o autor, que na altura era secretário da Comissão Cultural da Marinha.

O volume lançado na última quinta-feira inclui centenas de ilustrações, reproduções de pinturas, fotografias, mapas e infografias que explicam ao detalhe a história naval do País.

"Foi um trabalho profundo de investigação. Para se ter uma ideia, posso dizer-lhe que as imagens incluídas no livro são oriundas de 64 entidades, portuguesas e estrangeiras", explica José António Pereira.

CIÊNCIA NAVAL

A expansão marítima que os portugueses iniciaram no século XV é, obviamente, um dos temas em destaque no livro. "Aqui importa salientar a importância da caravela portuguesa, o navio dos Descobrimentos por excelência. Os marinheiros portugueses revolucionaram a ciência naval, ao conceber um navio que permitia navegar longe da costa de África, sobretudo nas viagens de regresso". As caravelas conseguiam navegar contra o vento e os enormes avanços alcançados na cartografia e na orientação pelos astros ficaram como legado de um povo que descobriu no mar a sua vocação.

BRAVURA DOS MARES

As grandes batalhas da história marítima são destacadas no livro e explicadas ao pormenor. O capitão-de-mar-e-guerra destaca, pela sua importância militar e histórica, a Batalha de Diu, que aconteceu em 1509. "Aconteceu aquilo que se designa em termos militares como uma batalha decisiva ou de aniquilamento. Após a vitória conseguida pelo primeiro vice-rei, D. Francisco de Almeida, Portugal dominou os mares da Índia sem qualquer oposição durante 30 anos. Foi uma vitória comparável à dos ingleses em Trafalgar".

Quando se lhe pergunta qual a figura mais marcante da história naval portuguesa, José António Pereira não hesita em eleger o rei D. João II: "Não tenho qualquer dúvidas em apontá-lo como o mais importante político da nossa História. Foi ele quem, no século XV, definiu o que seria a nossa política externa nos cinco séculos seguintes: a expansão para África e para o Oriente".

DECLÍNIO

"Como diz um famoso historiador inglês, um pequeno país só pode conservar um império se dominar uma ciência ou uma tecnologia. Foi o que aconteceu a Portugal na época dos Descobrimentos, mas quando perdemos o domínio da ciência naval para os holandeses e depois para os ingleses começou o declínio", diz José António Pereira.

Terminada a época das descobertas, a vocação marítima desvaneceu-se. O Brasil e depois a colonização de África, no século XIX, foram as últimas tentativas de manter a presença portuguesa no Mundo. No início do século XX, a frota mercante portuguesa estava muito enfraquecida: "As duas guerras mundiais mostraram a nossa vulnerabilidade e dependência de terceiros para garantir o abastecimento do País". Uma realidade que mudou aquando da Guerra Colonial, altura em que o País "tinha uma marinha mercante e de guerra pujantes, que assegurou a logística em três frentes de combate", defende José António Pereira.

Depois veio o declínio. O autor explica que "o transporte ferroviário e, sobretudo, o rodoviário ultrapassaram o transporte marítimo", condenado a marinha mercante e ao quase desaparecimento. José António Pereira, que já foi capitão do Porto de Aveiro, acredita que a aposta no mar – tão defendida pelo actual Presidente da República – é uma aposta de futuro.

O actual director do Museu de Marinha sublinha, na actualidade, o brilhante desempenho dos militares nas missões internacionais que têm cumprido: "Já provámos que, se nos derem condições, podemos ser tão bons ou melhores do que os outros".

PERFIL

José António Pereira, capitão-de-mar-e-guerra e director do Museu de Marinha desde 2006, tem 62 anos. Escreveu várias obras sobre a História Naval.

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